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Se em algum momento da história todos os habitantes desse planeta desejaram a mesma coisa, ao mesmo tempo, deve ser exatamente agora. Os que estão isolados e aqueles que passaram meses trancados em casa (e agora começam a sair, tímidos, com medo de aglomerações de qualquer tipo) sonham com a vacina contra o Sars-Cov 2, o novo coronavírus. O isolamento social é a medida para evitar que todos fiquem doentes ao mesmo tempo, sobrecarregando o sistema de saúde, mas não é esse recolhimento que vai nos proteger da infecção por esse vírus tão brutal, mas sim a vacina. A única forma de a gente retomar a vida de antes, com crianças na escola, no parquinho, no cinema, no teatro e seus pais no trabalho, ou onde der na telha, é se todos formos vacinados.  (Supostamente também estaríamos protegidos se a maioria do planeta tivesse se infectado, o que faria que o vírus tivesse mais dificuldade em se espalhar, mas o custo disso seria altíssimo, com milhões de mortos pelo caminho.)

Desde que esse cenário tétrico se apresentou o movimento antivacina está em silêncio, repara. Eu vejo posts sobre tudo, desde a solidão da quarentena, o inferno do homescholling, a jornada tripla. Mas nunca mais vi ninguém dizer que ‘vacina causa autismo’, que o mercúrio usado para conservar vacina ‘intoxica’ quem imuniza ou que ‘a vacina da gripe causa gripe’. Nada, pelo contrário. Sonha-se com a vacina, o desejo é que ela seja descoberta em tempo recorde e por isso todos acompanham, dedos cruzados, as notícias sobre os protocolos de pesquisa conduzidos pela Universidade de Oxford, pelas farmacêuticas gringas e até pelos pesquisadores brasileiros da Fiocruz e Instituto Butantã, que buscam a imunização contra o coronavírus a partir da vacina já existente contra o influenza.

O movimento antivacina não é novo, basta abrir os livros de história. No início do século XX, mas especificamente em 1904, registrava-se um recorde de internações devido à varíola e uma lei determinou a vacinação obrigatória. Na época, a vacina contra a doença consistia no líquido de pústulas de vacas doentes, o que causava estranhamento na população mais desavisada. Demorou nada para rolar o boato de que quem se imunizasse ficava com ‘feições bovinas’ (e você achava que as fake news eram coisa do século XXI!), o que culminou em um levante contra essa obrigatoriedade, “a revolta da vacina”. Foram dias de muitos saques, quebradeiras e apedrejamentos que levaram a 945 prisões, 110 pessoas feridas e 30 mortos em duas semanas de conflitos. O presidente da época, Rodrigues Alves, desistiu da obrigatoriedade. “Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, conta texto sobre o assunto publicado no site da Fiocruz.

 

 

A origem de parte do recente movimento antivacina também tem origem em uma notícia falsa, gerada a partir de uma fraude. Em 1998, o então médico Andrew Wakefield publicou um artigo na revista Lancet, uma das publicações de saúde mais importantes do mundo, relacionando o aumento no número de crianças autistas com a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba. Foi um auê. Graças a um jornalista do The Sunday Times, descobriu-se que o estudo fora patrocinado por advogados que queriam ganhar dinheiro processando a indústria farmacêutica. Com a farsa desvendada, a Lancet rejeitou a publicação e Wakefield perdeu seu registro de médico, mas o estrago já estava feito. A semente da dúvida foi plantada na cabeça de pais que, assustados, começaram a rejeitar algumas vacinas e até deixaram de imunizar seus filhos. Vira e mexe eu vejo esse argumento ‘vacina causa autismo’ vir à tona como se fosse uma ‘descoberta’ recente e não algo já desmentido pela própria Ciência.

Uma pesquisa encomendada ao Ibope pela Sociedade Brasileira de Imunizações e pela comunidade de mobilização online Avaaz, divulgada no final do ano passado, apontou que sete em cada dez brasileiros acreditam em notícias falsas sobre vacinação. São pessoas que muitas vezes deixam de vacinar, segundo o estudo, porque não acham “a vacina necessária” (31%), porque tiveram “medo de ter efeitos colaterais graves após tomar uma vacina”(24%), “medo de contrair a doença que estava tentando prevenir” (18%), ou por conta “das notícias, histórias ou alertas” que leram online”(9%). Os pesquisadores afirmam que os entrevistados que tinham percepções erradas sobre as vacinas citavam YouTube, Facebook e WhatsApp como sua principal fonte de informação. Até aí, nenhuma surpresa. As mesmas redes sociais que até ano passado diziam que ‘a poliomielite não existe’ são as que tratam de espalhar teorias de que ‘Bill Gates e a CIA têm a patente do coronavírus’ que pode ser curado, olha só, ‘com água ou chá quente’.

Só que os fatos têm se imposto rapidamente e de forma cruel. A maioria de nós conhece ou perdeu alguém para a Covid-19 e não há nada mais poderoso contra a desinformação do que a verdade dando um tapa na cara de todos nós. Enquanto escrevo esse texto, são 20.047 os mortos no país pelo coronavírus. E todos começam a perceber que não é o chá quente, nem o óleo de coco ou a tal cloroquina, mas sim a vacina, que pode interromper essa assustadora escalada de mortes. A mesma vacina que antes da pandemia já salvava a vida de dois a três milhões de pessoas todos os anos, segundo a Organização Mundial da Saúde, mas que era desprezada por cerca de 21 milhões de brasileiros, segundo a pesquisa da Sociedade Brasileira de Imunizações . Que reviravolta nesse enredo, senhoras e senhores.

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