Bom dia, Anvisa, tudo bem?

Aqui quem fala é a mãe de um garoto de 11 anos que todos os dias me pergunta ‘por que eu não nasci alguns meses antes, main?’ Não, ele não é um menino apressado para entrar na adolescência, nada disso. Seu amadurecimento está completamente adequado à idade, mas às vezes acho que ele é mais maduro que muito adulto, olha só. Pode parecer corujice de mãe, mas quando você tem um filho que acredita nas vacinas, que não cai em fake news  e que conta os dias para se imunizar contra o coronavírus dá um orgulho, sabe? Aquela sensação de que todo sacrifício para educá-lo valeu a pena chega com tudo e te arrebata, Deus me dibre de ter um filho negacionista.

O desejo dele de ser mais velho tem um só motivo: meu filho quer tomar logo sua primeira dose da vacina contra covid, liberada aqui no Brasil por enquanto apenas para os adolescentes a partir dos 12 anos, idade que ele ainda não alcançou e que vai demorar alguns meses para completar. Antenado, sabe que crianças da idade dele já estão sendo vacinadas em muitos países, como Estados Unidos, Cuba, Chile, China, El Salvador e os Emirados Árabes Unidos. ‘E a gente, main?’

Recentemente, fomos ao posto de saúde para colocar o calendário vacinal em dia durante a campanha de multivacinação organizada pelo Ministério da Saúde. A carteirinha dele, que orgulhosamente ganhou a primeira anotação quando ainda estava na maternidade, mal tinha espaço para o registro de mais duas vacinas. Mas as enfermeiras deram um jeito e mais duas picadinhas, em um braço a vacina da gripe, no outro a de HPV. Ao sair, vimos a fila dos sortudos que estavam esperando a segunda dose da vacina contra a covid e os olhinhos dele brilharam. Conseguir se imunizar contra a doença que roubou nossa liberdade e levou para sempre muitos dos nossos familiares (perdi um cunhado, um tio e um primo para o coronavírus) é o desejo de todos os que têm juízo.

A primeira esperança de que meu filho poderia, finalmente, ser imunizado contra a doença veio em agosto, quando vocês analisaram o pedido para a autorização da Coronavac. Eu, mãe e jornalista, jornalista e mãe, assisti à toda reunião técnica da Anvisa como quem assiste a uma final de Copa do Mundo. A liberação não foi dada e entendi perfeitamente os motivos: embora a vacina obviamente seja boa e efetiva, vocês mesmos disseram, o estudo apresentado pelo Butantan tinha sido feito com poucas crianças e a agência sempre necessita de dados mais robustos para efetuar uma liberação como essa, o que é justo. Ninguém quer que o filho se vacine se os benefícios não forem maiores que os riscos.

No final de outubro, bola em campo novamente. Os Estados Unidos autorizaram emergencialmente a aplicação da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos. O FDA,  agência reguladora dos Estados Unidos, analisou os resultados dos testes clínicos conduzidos pela farmacêutica em milhares de crianças, que já estão sendo vacinadas por lá. Por aqui, a Pfizer pediu a mesma autorização no último dia 12 de novembro e a bola está com você, Anvisa.

Sei que tais pedidos têm de ser analisados com cautela e que você, agência reguladora, costuma dar a resposta em pelo menos um mês. Também sei que tem resistido bravamente à pressão dos negacionistas e obscurantistas que estão nas mais altas esferas de poder, e isso fortalece a nossa confiança em algumas instituições. Ainda faltam alguns dias para a resposta final, mas estamos todos, pais e mães, muito ansiosos. A variante Ômicron já está por aqui, os pesquisadores ainda estão debruçados para entender quais são os riscos que ela oferece, mas o fato é que nossos filhos ainda não estão protegidos contra o coronavírus e isso é motivo de muita angústia. As crianças estão de férias, passaram os últimos dois anos isoladas, a maioria sem aulas presenciais e afastada de amigos e familiares. Sabemos que a discussão do passaporte vacinal é urgente e relevante, mas, por favor, coloque nossos filhos como prioridade. Eles são o que há de mais importante na nossa vida e acordamos todos os dias preocupados, querendo fazer qualquer coisa para protegê-los, inclusive um apelo público em um dos principais jornais do país.

Agradeço a leitura.

Abraços,

Rita Lisauskas