Eles não são mais crianças, mas também não podem ser chamados de adultos. Têm ‘a vida inteira pela frente’, mas nem por isso os adolescentes e jovens têm uma essência naturalmente otimista. O planeta em que vivem enfrenta desafios como uma pandemia e o aquecimento global e, em alguns países, muitos ainda encaram problemas sociais e a falta de acesso à educação, saúde, saneamento básico, oportunidades. Eles muitas vezes são vistos como ‘alienados’, ‘desconectados’ das questões centrais e, outras vezes, são enxergados como ‘transformadores’ e sinônimo da mudança que tanto precisamos. Eles podem ser tudo isso, nada disso, ou um pouco de cada coisa.

E para não tentar adivinhar e realmente entender essa geração que o Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, em parceria com o Instituto Gallup, foi a campo ouvir 21 mil adolescentes, jovens e adultos de 21 países (Brasil, Argentina, Peru, Alemanha, Espanha, França, Reino Unido, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Japão, Líbano, Mali, Bangladesh, Camarões, Etiópia, Marrocos, Nigéria, Quênia, Ucrânia e Zimbábue) entre fevereiro e junho de 2021. Foram feitas as mesmas perguntas aos mais jovens (que têm de 15 a 24 anos) e aos adultos, todos maiores de 40 anos, para que fosse possível fazer um comparativo geracional. O resultado foi a pesquisa The Changing Childhood Project, publicada no último dia 20 de novembro.

Em todos os países analisados, adolescentes e jovens são aqueles que mais acreditam que o futuro vai ser melhor: 57% deles disseram que sim, o mundo tem se tornado um lugar mais acolhedor para cada nova geração, enquanto apenas 39% dos adultos têm a mesma percepção. Já no Brasil esse chamado ‘índice de otimismo’ foi o segundo mais baixo de todos os países pesquisados, ficando atrás apenas do Mali, país da África Ocidental – somente 31% dos adolescentes e jovens brasileiros e 19% dos adultos acreditam nesse futuro mais feliz. Para Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, o afastamento dos jovens da escola durante quase toda a pandemia pode ter relação com esse desânimo, já que a pesquisa foi conduzida no auge da segunda onda, que foi muito grave por aqui. “O Brasil é um dos países do mundo que ficou por mais tempo com as escolas fechadas e isso teve um impacto muito forte na saúde mental e no equilíbrio emocional dos adolescentes e dos jovens”, explicou. Ela conversou com o blog sobre o resultado desse estudo.

Blog: O que essa pesquisa mostra em relação ao otimismo da juventude de todo o mundo?

Florence: Essa pesquisa mostra que a nível global existe um otimismo maior por parte da população jovem em comparação à população adulta.  Quando perguntados se veem se há uma evolução positiva de uma geração para outra, os jovens notam essa evolução muito mais positiva se comparada com a visão dos adultos. A pesquisa também mostra, inclusive, que os jovens percebem muito bem os avanços que aconteceram no acesso à educação, à saúde, ao saneamento básico e veem como esses serviços estão mais disponíveis do que antes.

Mas o que chama muita atenção quando a gente compara o Brasil com esses outros países é que por aqui esse otimismo dos jovens é em um nível muito menor, o segundo mais baixo entre esses 21 países. Esse é um dos aspectos que chama muito a atenção, esse nível mais baixo de otimismo. Se comparado com outros países da região como a Argentina, o otimismo é muito mais alto por lá.

Blog: Mas o mundo inteiro passou pela pandemia, os jovens de todo o planeta enfrentaram esse momento tão difícil. Por que os brasileiros em um contexto que, em tese, era semelhante se mostram menos otimistas que os jovens de um país vizinho, por exemplo?

Florence: Podemos relacionar essa questão do otimismo com outro dado que também aparece na pesquisa e que mostra como o jovem, de uma forma geral, sofre mais de problemas relacionados à saúde mental. Perguntou-se aos adolescentes e jovens brasileiros se eles se sentem especialmente nervosos e quase a metade deles (48%) disse que sim, que se sentem frequentemente nervosos. Esse dado é muito alto no Brasil, muito mais alto do que nos outros países pesquisados. Também se questionou se eles sentem deprimidos, têm sinais de depressão, e isso também revelou índices muito altos (22% dos adolescentes e jovens). Então, o que estamos vendo é uma geração que sofre de problemas relacionados à saúde mental, que está preocupada e também está se sentindo pressionada no sentido de ter que êxito na vida. O Brasil é um dos países do mundo que ficou por mais tempo com as escolas fechadas e isso teve um impacto muito forte na saúde mental e no equilíbrio emocional dos adolescentes e dos jovens.

Blog: Quais são as outros pontos que preocupam os jovens, segundo o estudo?

Florence: Essa geração está preocupada com temas relacionados com a sociedade atual, mais de 73% dos jovens brasileiros citaram a preocupação com as mudanças climáticas e acreditam que os governos têm que tomar ações para poder responder a isso. Também estão muito conscientes dos vícios da tecnologia e apesar de a utilizarem muito como fonte de informação, para se divertir, para se relacionar com os outros, estão muito conscientes dos riscos da própria tecnologia. E apesar de utilizarem as redes sociais como fonte de informação, estão muito conscientes de que nem tudo que está nas mídias sociais é verdade, estão preocupados com a propagação das fake news. Eles querem ser ouvidos, que suas opiniões sejam levadas em conta e querem ser parte, participar das soluções. É uma geração preocupada, muito consciente.

Blog: A pesquisa foi conduzida durante o pior momento da pandemia e descobriu que adolescentes e jovens confiam mais do que os adultos nos cientistas (56% versus 50%), na mídia internacional (36% versus 30%) e nos governos (33% versus 27%) como fontes de informação segura. Isso mostra que eles não são alienados como muitos podem pensar.

Florence: A pesquisa mostra que os jovens têm mais confiança na ciência do que os adultos, mais de 50% deles acreditam na ciência como uma fonte importante de informação confiável. Isso é um dado importante que mostra como a Ciência chega a esses jovens. Só que no Brasil eles têm uma confiança mais baixa no governo. Interessante também que as informações que estão nas redes sociais, que é a maior fonte de informação, é o meio que eles utilizam para buscar informação, mas eles têm um nível muito baixo de confiança nessas redes.

Blog: O que me chamou atenção nesses dados foi essa percepção de que eles têm de que a infância deles ter sido melhor que a seus pais e avós tiveram.

Florence: Sim, sim, esse é um dado muito interessante da pesquisa. Eles se dão conta que o acesso à educação melhorou muito e isso foi positivo, os próprios indicadores globais mostram esse aumento no acesso escolar e o que é positivo é que os jovens se dão conta disso. O acesso à educação, água, saneamento básico tem melhorado para essa geração se comparado com gerações anteriores. E, ao mesmo tempo, o que é interessante e a pesquisa mostra é que eles veem a educação como uma parte da solução para poder melhorar, eles acreditam muito na educação e ainda mais no Brasil, comparado com outros países, isso mostra uma geração muito consciente dos avanços e dos desafios.  E além da educação, eles veem o trabalho como uma chave do sustento e parte dos elementos para sair dessa situação que vivemos. Isso mostra mais uma vez a importância de criar oportunidades para os jovens.

A pesquisa completa pode ser acessada: Pesquisa do Unicef e do Instituto Gallup mostra jovens mais otimistas | ONU News

Leia mais: ‘O YouTube é importante para as crianças’ (estadao.com.br)

Leia também: Está difícil engravidar? A culpa pode ser da endometriose (estadao.com.br)