Desenho: Zé Dassilva

Desenho: Zé Dassilva

Depois que a empolgação de saber que estava grávida de mais uma menina passou, a jornalista Tatiana Kinoshita, 40, desabafou com sua médica, também mãe. “Aff, vou ter que ouvir todas aquelas baboseiras novamente!” Tatiana se referia aos comentários surreais ditos a todas as gestantes por pessoas da família e por gente que nunca, nunca nos viu literalmente mais gorda na vida.

Desenho: Zé Dassilva

Desenho: Zé Dassilva

Histórias trágicas, comentários toscos e a perda da posse da própria barriga, que vira corrimão de boate: quem é mãe e nunca enfrentou essa sequência de desafios durante a gravidez que atire o primeiro pacote de fralda . E foi por isso que a médica de Tatiana deu, meio que sem querer, uma ideia à jornalista ainda dentro da sala de ultrassom: “Por que você não escreve um livro sobre esses comentários?” Tatiana começou, então, a anotar todas as coisas surreais que lhe foram ditas durante a gravidez. Também aproveitava o tempo passado na sala de espera dos inúmeros exames e consultas para saber o que as outras grávidas ouviam. E anotava. Foi assim que nasceu o livro “O que jamais dizer para uma mulher grávida”, Chiado Editora. (O livro está à venda em Portugal, mas também na maioria das livrarias brasileiras.)

Desenho: Zé Dassilva

Desenho: Zé Dassilva

“Percebi que alguns comentários como o tamanho da barriga, a escolha do nome e até mesmo a alimentação da gestante são recorrentes. A frase mais ouvida de todas é: ‘Que barriga enorme! Tem certeza de quem só tem um bebê ai dentro?’ Essa é uma ‘piada’ ouvida não só aqui no Brasil, mas sim em vários lugares do mundo”, garante Tatiana, que ampliou a pesquisa a procurar mães blogueiras dos Estados Unidos, Europa e até do Japão. Um dos comentários mais constrangedores que estão no livro foi ouvido pela própria jornalista, vindo de um motorista da empresa onde então trabalhava. Ao vê-la com a barriga já proeminente, disparou: Quem mandou dormir sem calcinha? “Na hora fiquei tão sem reação que só dei um sorriso amarelo e saí de fininho”, conta.

As mulheres grávidas escutam comentários dos mais diversos que, no livro, são separados por temas. Um dos mais comuns são sobre o corpo da futura mãe: “Vai engordar tudo de novo?” ou “Seus seios vão cair!” Ou então:”Grávida agora que você está tão magra!” Há também as observações agourentas. É super comum a mulher, feliz por descobrir a gravidez, ouvir um “cuidado para não perder o bebê nos primeiros meses!” Sim, essa “análise” é comum, como se uma (bate na madeira!) possível perda gestacional pudesse ser evitada depois desse sábio alerta (você pode trocar observação grotesca por um simples ‘parabéns’, por exemplo, diria Bela Gil). Pitacos sobre o sexo do futuro bebê são clássicos: “Outro menino? Tem que tentar uma menina na próxima!” Uma possível mudança na rotina sexual do casal vira uma questão de comoção pública: “A vida de vocês nunca mais será a mesma!” Quem ainda não passou por isso e pretende ser mãe, prepare-se: São 9 meses de puro palpite e invasões de sua vida privada.

Mas se a mãe já vai ouvir isso durante a gestação por que escrever um livro sobre o assunto? Quem vai querer se antecipar e ler esse desaforo todo? “O livro é para as gestantes se sentirem acolhidas e verem que não são as únicas a ouvir e passar por essas coisas”, afirma Tatiana. Claro que na publicação ela reflete sobre cada palpite e dá algumas alternativas de respostas para cada questão. Os leitores mais atentos, mesmo os mais sem-noção, conseguirão, no livro, perceber porque alguns comentários podem constranger ou até entristecer a futura mãe. “Seria bacana se todos que convivem com as gestantes lessem o livro também”, completa. Se não for para mudar de postura que sirva para os “tios do pavê” perceberem que aquela piada do “nossa, tá grávida ou engoliu uma melancia?” não é legal, divertida e também não tem nada, nada de original.

*O prefácio do livro foi escrito pela modelo, atriz e também mãe Letícia Birkheuer e as ilustrações são do desenhista Zé Dassilva.

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