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Em um primeiro momento, a gente ouviu que as crianças estavam a salvo do Sars-Cov 2, esse vírus que nos trancafiou em casa, tirou nossos filhos das escolas e deixou o mundo em uma crise sanitária que não se via há quase um século. Logo depois, recebemos a notícia de algumas ficaram gravemente doentes semanas depois de terem sido contaminadas pelo coronavírus. Lemos que elas tinham que usar máscara, depois ouvimos que era perigoso. Esse ‘bate cabeça’ é comum quando nos damos conta de que essa doença é nova e que a Ciência começou a estudá-la há poucos meses apenas. Francisco Ivanildo de Oliveira Junior, infectologista e coordenador de controle de infecção hospitalar do Sabará Hospital Infantil, conversou com o blog e nos contou o que é mito e o que é verdade quando o assunto é o coronavírus e as crianças.

Blog: Os bebês podem ser contaminados pelo coronavírus?

Dr. Francisco: Podem sim, não existe proteção em nenhuma faixa etária em relação à infecção pelo coronavírus. O que a gente sabe que acontece é uma menor pré-disposição para crianças de menor idade, principalmente crianças menores de dez anos, de terem infecção e principalmente formas sintomáticas da doença – nelas é muito mais frequente a forma assintomática. Mas em qualquer faixa etária pode haver a infecção, acontecer formas graves da doença, e infelizmente pode haver, sim, óbitos.

Blog: E as crianças também transmitem o Sars-Cov2?

Dr. Francisco: Sim, as crianças podem transmitir, inclusive as assintomáticas. O que a gente sabe é que pessoas assintomáticas de uma forma geral transmitem menos do que pessoas sintomáticas – não tanto pela quantidade de vírus que albergam nas vias aéreas, na garganta e no nariz, mas porque, como elas não têm sintomas, elas não tossem, não espirram. Então a possibilidade dessas pessoas transmitirem o vírus através da eliminação de gotículas quando a gente fala, tosse ou espirra é menor por conta disso.

Blog: As crianças podem ter os mesmos sintomas do que os adultos infectados pelo coronavírus?

Dr. Francisco: Isso é uma verdade. Não existe diferença entre o tipo de sintoma que um adulto tem e a criança. Os sintomas mais comuns da Covid são os mesmos tanto nos adultos quanto nas crianças – febre, tosse, dor de garganta, dor no corpo. O que pode variar é a frequência com que esses sintomas aparecem, já que nas crianças é muito mais frequente não ter sintomas, ou ter sintomas menos intensos. Mas tem alguns que são mais comuns e frequentes nas crianças, como a dor abdominal e a diarreia. Os muito pequenos não sabem se queixar e é importante que a gente fique atento à sonolência, a diminuição da aceitação alimentar, o desconforto respiratório. Quem tem filhos com menos de dois anos precisa se atentar à identificação da doença.

Blog: A partir de que idade se pode colocar máscara nas crianças?

Dr. Francisco: A partir dos dois anos de idade. E é óbvio que a gente tem que levar em consideração aquelas crianças que têm algum problema cognitivo ou que tenham problemas de saúde que a impeçam de utilizar a máscara e que dificultem a própria criança de tirar a máscara caso tenha necessidade. Mas a partir dos dois anos a criança já pode usar a máscara sob supervisão de um adulto e acredita-se que a partir dos seis anos de idade a criança já é capaz, desde que bem treinada e orientada, de utilizar a máscara sozinha – ela observa os pais e as pessoas que são próximas a ela e se torna capaz de usar a máscara com segurança.

Blog: A chamada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, que acomete algumas crianças infectadas pelo Sars-Cov 2, pode ser considerada algo grave?

Dr. Francisco: Sim. Essa síndrome é uma doença que pode evoluir com gravidade, inclusive com ‘choque’, que é a diminuição da pressão, com necessidade de internação em UTI e outro tipo de complicações, inclusive cardíacas. Normalmente acontece em crianças um pouquinho mais velhas, a partir dos seis anos de idade, mas pode aparecer em outras faixas etárias e acontece uma semana ou mais tempo depois do quadro agudo da infecção pelo coronavírus. A gente considera a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica uma complicação pós-infecciosa da covid.

O infectologista do Sabará Hospital Infantil, Dr. Francisco de Oliveira Jr

Blog: E a questão das vacinas – é seguro manter o calendário de vacinação na pandemia?

Dr. Francisco: Esse mito que não é seguro tomar vacinas na pandemia é um mito que a gente tem que combater fortemente. As crianças não devem parar seus esquemas vacinais durante a pandemia, assim como não devem parar seus tratamentos de condições crônicas, ou se aparecer algum quadro agudo que necessite de assistência ou de conduta médica. O medo pela contaminação da Covid não deve fazer com que os pais deixem de levar essa criança ao pronto-socorro, ou a uma consulta ou ao posto de saúde para tomar a vacina. E em relação à vacina, já foi observado aqui no Brasil, assim como em outros países, uma redução muito significativa da cobertura vacinal, o que é muito preocupante, por causa do risco de algumas doenças que a gente já tem sob controle, como o sarampo ou a paralisia infantil. Por isso a importância que recomendemos aos pais que cumpram o calendário vacinal das crianças mesmo durante a pandemia.

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