O escritor Tiago Ferro Foto: Renato Parada

Abro Facebook e vejo alguns amigos confirmando presença no evento de lançamento de “O pai da menina morta”, livro do escritor Tiago Ferro. Sinto um gosto amargo na boca, um incômodo. Que nome forte para um romance.

Temos amigos em comum e logo me vem à mente quem é “a menina morta”: Manu, uma mestiça linda que em 2016 esteve internada durante um surto de H1N1. Depois lembrei que, quando a filha morreu, Tiago escreveu um post contando que o exame para a tal gripe A tinha dado negativo. Então Manu morreu de quê? De gripe comum? Não é possível.

Logo pensei em quantas vezes nós, jornalistas, nos referimos aos pais das crianças que subvertem a lógica e partem antes dos seus genitores dessa forma: “A mãe da menina baleada”, “o pai da menina morta”. Geralmente eles se manifestam apenas no dia da morte dos seus filhos, movidos pela emoção de uma dor lancinante, da qual nós queremos logo nos afastar para que não transborde e doa também na gente. O que acontece depois a gente até imagina, mas não sabe direito.

Adicionei Tiago no Facebook e contactei sua editora por e-mail, pensando em entrevistá-lo para o blog. Claro, vamos falar, claro, te mandamos o livro, que realmente chegou pelo correio em poucos dias. Levei para a cama e comecei a ler, horas antes de dormir. Dormir? Como dormir depois de me dar conta que a Manu tinha 8 anos? (Essa semana meu filho faz 8.) Como entrevistar o “Pai da menina morta”?

O livro é sobre o luto em seu estado bruto e ilógico. É sobre o dia seguinte, sobre o dia depois de amanhã, mas também sobre o ontem, quando a vida não dava nenhuma dica de que o mundo poderia desabar- e a gente sente vontade de avisá-lo que Manu vai ter uma miocardite causada pelo vírus da gripe, corre para o hospital assim que a febre aparecer e pressione os médicos! Mas você acha que ele não pensou nisso, acha que ele já não se culpa o suficiente?

“Você deixou sua filha morrer. Que espécie de pai você é? Como você ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como você ainda tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!” (O pai da menina morta, pág 23).

O comportamento do ‘pai da menina morta’ é observado com lupa pelos amigos, pelos conhecidos e pelos desconhecidos. Não existe uma forma correta de reagir à perda, aprende.  Se ele está feliz, é porque quer “esquecer”. Se está triste, é porque “só pensa na tragédia”. E se seu pensamento deixa a filha de lado, por uns instantes, ele sente que falha como pai, mais uma vez. “Quando eu me esqueço da dor, eu me afasto da Minha Filha”, conta.

O livro não se restringe ao inventário da perda, mas é também sobre a luta para sobreviver a ela. E sobre a pessoa que se tornou depois que a filha partiu. O casamento? Tiago sugere que não resistiu aos ferimentos.

“Depois da morte da filha deles, eles não conseguiram mais se encarar. Era como se soubessem que as retinas haviam se transformado em mercúrio onde estaria passando em looping a vida e a morte da menina amada. Oito anos. Evitar passou a ser uma proteção. Um refúgio. O pequeno apartamento foi aos poucos ganhando ares de casa de campo fechada para sempre. Lençóis sobre as poltronas, poeira nos móveis, cortinas fechadas, porta-retratos deitados com os rostos amassados contra a estante, cheiro de lã. (…) É expressamente proibido amar depois de Auschwitz.”

O terapia do luto passa por olhar para os que experimentaram a mesma dor e ver que todos, de uma forma ou de outra, assim como Tiago, ficaram de pé.  “A filha do Carlos morreu no hospital assim como o jovem messias de Praga, o Pai do Paulo de Tharso encontrou o filho morto na sala de casa, o Gil retirou o filho dos escombros do acidente, o Pai da Menina Morta carregou a filha até o hospital, o Clapton não viu nada”. 

Lygia Fagundes Telles. Gilberto Gil. Carlos Drummond de Andrade resistiu à morte da filha por apenas 12 dias. “Seria melhor se fossem apenas doze horas. Doze minutos. O amor deveria garantir que as duas partes desaparecessem juntas, ou no máximo em um intervalo de doze segundos.” Eric Clapton se isolou.  E depois escreveu um de seus maiores sucessos em homenagem ao filho, Tears in Heaven. Tiago escreveu esse livro e mostra que também pode realizar coisas incríveis com a sua dor. Apesar da sua dor.

Lançamento ‘O pai da menina morta’, Ed. Todavia

Quinta, 15/03/18 às 19hs

Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915

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