Meghan Markle com mulheres em foto do Instagram oficial da realeza, o @sussexroyal

Eu nunca tinha ouvido falar sobre esse período da vida da mulher que acabou de parir, o puerpério. Mesmo sem saber o nome do que acontecia comigo nos meses após o nascimento do meu filho, logo me convenci de que uma revolução estava a caminho. Sentia em todos os meus poros e neurônios que minha vida nunca mais seria a mesma, comecei a entender que algumas coisas não importam, outras são só vaidade, que as aparências enganam, que não interessa o que pensam de mim e que quem sabe o que é melhor para a minha família somos nós, que fazemos parte dela. Sentia uma vontade incontrolável de ser mais dona do meu tempo, de não ser escrava do trabalho, de fazer as coisas do jeito que eu acreditava, não o que me diziam ser ‘o certo’.

Essas alterações hormonais, físicas e mentais enfrentadas pelas mães são capazes de grandes mudanças na vida de muitas de nós. Tudo que não fazia muito sentido antes do nascimento dos nossos filhos e se relevava por um motivo ou outro pode se tornar insuportável nessa fase. E aí a gente pede demissão, muda de casa, pede o divórcio, afasta-se de gente fajuta. Muitos homens também se sentem modificados, entendem a parceira e lhe dão a mão para para um mergulho nesse desconhecido, já outros fazem beicinho para a companheira ‘que não é mais a mesma’ e tentam levar a vida de antes, como se isso fosse possível. A crise aqui é questão de tempo, só sentar e esperar.

Desde que a atriz Meghan Markle anunciou sua gravidez, meses depois do casamento com o príncipe Harry, filho de Charles e Diana, houve uma escalada na campanha de difamação contra ela, que começou logo após o anúncio do noivado. Filha de mãe negra, divorciada e atriz de Hollywood, Meghan sempre foi oposto do que desejavam os entusiastas da monarquia mais conservadores (e preconceituosos, verdade seja dita). Pesquisa encomendada pela Sky News descobriu que plataformas da deep web como 4chan, 8chan e Gab hospedam várias contas dedicadas ao compartilhamento de mentiras sobre Meghan que se espalham, claro, pelo Facebook, Twitter e Instagram. A análise descobriu que o conteúdo difamatório contra a duquesa de Sussex é postado diariamente e compartilhado, veja só, por contas de  fãs autoproclamados da Família Real. Esses perfis, inclusive, costumam usar as mesmas hashtags para espalhar esse conteúdo abusivo e tóxico contra Meghan Markle, ou seja, ela tem sido uma das vítimas desses ataques orquestrados de destruídores de reputação digital. Passou por tudo isso no período em que estava mais vulnerável, a gravidez e o tal puerpério.

Meghan e Harry na África do Sul. Fonte: @sussexroyal

Talvez Meghan pudesse ter sido ‘perdoada’ ou deixasse de ser alvo se ‘andasse na linha’ e aceitasse esse novo papel, onde não podia decidir sequer a cor de esmalte que ia usar. Mas isso não aconteceu. Ela driblou a imprensa e os fofoqueiros não divulgando com antecedência o hospital onde ia dar à luz Archie. Ousou a dar entrevista sem pedir autorização da rainha e, quando decidiu falar com jornalistas, desabafou dizendo que o repórter que a entrevistava tinha sido o único a fazer uma pergunta tão simples e necessária, o trivial ‘como você está?’.  Meghan não aceita mais que decidam como ela e o marido vão levar a vida, deu um basta nos palpiteiros de plantão, que estão possessos (tome um anti-histamínico e dê uma passadinha na caixa de comentários do Instagram oficial de Meghan e Harry,  o @sussexroyal, e veja com seus próprios olhos), e usou toda essa energia do puerpério para colocar limites aos que a caluniavam e insistiam em invadir sua privacidade, anunciando que está afastando da Família Real. Teve a sorte de contar com um companheiro que apoiou sua decisão. Conto de fadas contemporâneo é assim: é a princesa que salva o príncipe.

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