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Aconteceu não só uma vez, foram várias. No meio de uma reunião de trabalho, ouvimos vozinhas infantis ao fundo, às vezes nem tão longe assim. Dia desses testemunhei uma menininha dando uma bronca na mãe, uma executiva de planejamento, enquanto ela descrevia minuciosamente um projeto em um call: ‘mamãe, você está falando muito alto’, reclamou a pequena. Todos da reunião riram. Em outra chamada, já com vídeo, estávamos acertando os detalhes técnicos para uma live nas redes sociais do jornal quando fui interpelada por um menino de uns 4 anos, que entrou na sala onde o pai trabalhava e puxou assunto ao ver minha imagem projetada na tela do computador de sua casa: ‘Quer uva?’, me ofereceu estendendo uma das mãozinhas.

Uma das poucas coisas positivas desse período e do home office feito às pressas e de cima para baixo foi esse: nossa parentalidade deixou de ser invisível. Além de funcionária de uma agência de publicidade, Luisa agora também é reconhecida como a mãe da Julia e do Pedro, e não pode participar de reuniões às 13hs porque é o momento de colocar os filhos na aula online.  Fernando é arquiteto de um escritório de decoração, mas também é o pai da Carol e tem que parar por volta das 11h30 para fazer o almoço da sua filha, favor evitar reuniões nesse horário.

Toda nossa rede de apoio foi retirada à força pela pandemia e não há mais como pedir uma ajudinha para os avós, os tios, a babá ou o horário estendido da escola para que a gente equilibre os pratinhos da nossa vida profissional e pessoal, uma conta que nunca fechou direito, aliás. Em tempos de home office compulsório, abriu-se um espaço para que a gente mostre que o trabalho é uma parte importante da nossa vida, mas não a única. Somos pais e mães, temos outras responsabilidades que não podem mais ser terceirizadas nem se a gente quiser.  Se não estamos todos no mesmo barco, já que existem de jangadas a transatlânticos navegando por aí, pelo menos fica claro que estamos enfrentando todos uma tempestade.

Claro que nem todos têm o privilégio de pode trabalhar em casa, porque apenas algumas funções e profissões comportam o trabalho remoto. Mas o que até seis meses atrás era visto como algo impraticável, tem se mostrado uma alternativa possível para muitas famílias, que já conseguem ver ganhos em sua vida pessoal. Uma pesquisa publicada recentemente pelo Opinion Box apontou que 57% dos entrevistados que migraram o escritório para a própria casa viram a possibilidade de passar mais tempo com a família uma das grandes vantagens do teletrabalho, atrás apenas de ‘não perder tempo com deslocamento’, citado por 77%, (algo que também nos rouba o tempo, vamos combinar) e ‘não ter de arrumar para sair de casa’. Eu diria mais uma: o home office fez com que os empregadores nos enxergassem também como pais e mães, pessoas que conseguem ser altamente profissionais mesmo tendo filhos, um pecado corporativo, principalmente para as mulheres. Já homens puderam sentir na pele um pouco da dor e da delícia de assobiar e chupar cana, uma qualidade que até então era só nossa.

Quando sairemos disso? Não sabemos. Como vai ser a transição para o trabalho presencial? Idem. A pandemia tirou nossa capacidade de fazer planos a longo prazo, a gente vive um dia de cada vez e olhe lá. E hoje a realidade é que nossa casa é também nosso escritório e as crianças estão circulando por todos os espaços. Talvez a gente sinta uma saudade absurda quando eles não estiverem mais por aqui, participando de todas as nossas reuniões.

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