O ‘filho da empregada’

A morte de Miguel mostra como algumas crianças são tratadas pela ‘Casa-Grande’

Rita Lisauskas

 

O menino Miguel Otávio Santana da Silva, 5, que morreu ao cair do 9º andar de um edifício no Recife

A ‘cidadã de bem’ brasileira, aquela que diz pagar impostos, gerar empregos e sempre lutar contra a corrupção não quer estragar a unha para pegar uma criança de cinco anos no colo e dizer “sua mamãe já vem, ela deu uma descidinha para levar o cachorro para fazer xixi, fica calmo, bebê”.  Ah, mas não é qualquer criança, né, é ‘o filho da empregada’, esse menino que pela sua condição devia “saber qual é o seu lugar”: ele é alguém que não pode reclamar, cujos incômodos não podem ser os mesmos que os dos Enzos e Valentinas, filhos da patroa. E como ele teve de ir trabalhar com a mãe, já que todas as creches e escolas estão fechadas, tem que ficar quietinho no seu canto, entender seu papel invisível. “Toda vez que ele vem fica aqui me atrapalhando!”, sempre reclama a Sinhá.

Mas se todos têm de ficar em isolamento para evitar a contaminação pela Covid-19, por que ‘o filho da empregada’ não está em casa com seus pais, seguro, assistindo à televisão ou brincando com seus irmãos? Porque a mãe desse menino foi obrigada a trabalhar, oras, os patrões não quiseram ficar ‘desamparados’, já pensou ter de lavar a própria cueca, limpar a própria privada, fazer o próprio almoço? Não, não dá, a Casa-Grande do século XXI não aguenta. “Empregada doméstica é serviço essencial”, disse a dona da casa à manicure, que também estava na casa da cliente mesmo com medo do coronavírus (ela continua fazendo unhas em domicílio no meio de um surto epidêmico porque não conseguiu o auxílio emergencial do governo, ao contrário de 3,9 milhões de pessoas da classe A e B, pertencentes ao mesmo círculo social da madame, que correram para ‘morder’ os 600 reais do ‘coronavoucher’).

“Esse moleque não tem nenhuma educação!”, comenta quando o menino começa a chorar procurando pela mãe, não levando em conta que todas as crianças de cinco anos agem assim, como crianças, principalmente quando estão em um lugar em que não se sentem acolhidas. Talvez ela não saiba muito bem como são os pequenos nessa idade, seus filhos passam mais tempo com a babá do que com ela. Mas para provar para a manicure que ela é, sim, uma ‘cidadã de bem’, começa logo a elencar tudo o que faz pela ‘família da empregada’. Na época do Natal, junta todos os brinquedos (quebrados) que os filhos não gostam mais, as roupas (furadas) que não servem mais e doa. Nem sempre eles levam aqueles montes de saco que ela junta, “acredita?  Tem uns pobres que têm o rei na barriga, ficam fazendo cara feia sendo que eu só dou coisa boa!”

Só que o ‘filho da empregada’ é uma criança como todas as outras, que pode ter sentido que sua presença ali não era bem-vinda. E continuou a chorar, pedindo pela mãe que teve de descer para passear com o cachorro da família deixando ele para trás, porque estamos em uma pandemia, lembra? A mãe do pequeno Miguel (sim, esse era o nome dele) acreditou que a tal patroa iria dedicar ao seu filho um pouco do cuidado que ela dispensava todos os dias aos filhos dela. Dar uma olhadinha no menino, dedicar umas palavrinhas de conforto, talvez até um abraço para acalmá-lo se fosse o caso, quem sabe? A mãe de Miguel, a Mirtes, costumava medir as pessoas pela própria régua, um erro, sabemos. Ela é uma mulher gigante. Já a patroa da mãe de Miguel é uma pessoa minúscula.

A madame decidiu que não podia acolher Miguel porque talvez estragasse seu esmalte. Mas decidiu resolver as coisas de outro jeito mais prático. Abriu a porta do apartamento e deixou o menino de cinco anos procurar sozinho a própria mãe, mesmo sendo pequeno demais para isso, mesmo correndo o risco de sair sem máscara e se contaminar. Os ‘filhos da empregada’ não têm essas frescuras, não têm medo de nada, “moram na favela, oras”. O importante é garantir que ele use o elevador de serviço, sabe como é. As câmeras de segurança do edifício mostram a Sinhá apertando o botão que fez Miguel alcançar a parte superior do prédio, mais especificamente o nono andar, onde encontrou o caminho da morte. O resultado dessa crueldade está em todos os jornais, que inicialmente não estamparam o nome da patroa, ausência notada por nós e também por Mirtes, que chora a ausência do filho, buraco no peito com o qual terá de conviver por toda sua vida.

Agora sabemos que a patroa também é ‘primeira-dama’, uma ‘Corte-Real’ (e fiquei chocada com o simbolismo desse sobrenome). Ela foi presa em flagrante, mas pagou fiança de R$20 mil e responderá em liberdade por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Ela ‘só’ quis se livrar dele, era apenas o ‘filho da empregada’ que não parava de chorar, oras. Por aqui os filhos da favela e da periferia valem muito pouco, são todos pretos e “como é que pretos, pobres e mulatos, os quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados?”, pergunta Caetano, em “Haiti”. São tratados como Miguel. Como João Pedro. Como Ágatha. Daqui a pouco todo mundo esquece. E daí se abre espaço para a morte do próximo. E de outro. E de mais outro.

Leia mais: Maternidade em tempos de coronavírus

Leia também: Grupo de especialistas voluntários lança cartilha para prevenir abuso sexual infantil 

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato