Parto

Cena 1: A personagem de Juliana sente as primeiras contrações.Geme.Tenta achar a família e o marido e não consegue. A empregada chama um táxi, desesperada.

Cena 2. Já dentro do táxi a bolsa dela estoura. Mais gemidos. Ela afirma que o neném pode nascer dentro do carro. Continua sem conseguir falar com ninguém, muito menos com a obstetra.

Cena 3. Juliana chega ao hospital e é cuidada pelo obstetra de plantão que diz que ela “está em ótimas mãos”. Faz um exame de toque e manda preparar o cen-tro-ci-rúr-gi-co. Juliana, que é mãe de primeira viagem, sente dor. Muita dor. O plantonista avisa A EMPREGADA que vão fazer uma cesárea. Ninguém pergunta o porquê e ele também não explica. Na sala de espera, o sobrinho de Juliana, que é médico, diz para a família não se preocupar porque parto é uma coisa super “normal”. (Deveria, seu dotô, porque virou cirurgia e isso não é nada “normal”).

Cena 4. O bebê é retirado da barriga de Juliana, passa pela mão de umas cinco pessoas e não é entregue em momento nenhum para o aconchego do colo da mãe.

Cena 5. Juliana, meio grogue pelos efeitos da medicação, está no quarto e mal consegue levantar o tronco para beijar os parentes. Sente muita dor no corte, lógico.

As perguntas que logo vieram a minha cabeça ao assistir às cenas foram:

1. A bolsa tinha estourado, ela tinha contrações e ainda estava sem o marido no hospital. Por que o médico não optou pelo parto normal?

2. Por que tanta urgência? Ela corria risco de vida? Por que ele não discutiu com a paciente sobre opções e vontades?

Claro que “Em Família” é uma obra de ficção, como os autores gostam de avisar sempre. Mas que a novela é uma das principais fontes de informação da maioria da população brasileira é fato. Lembro que uma vez fui entrevistar um membro da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos e ele estava desesperado porque a novela da Glória Perez prometia falar sobre tráfico de órgãos. Um programa com quase 50 pontos de audiência no Ibope sugerindo que rins, pâncreas, fígados e corações são traficados pelo Brasil poderia parar a fila de transplante por falta de doadores. Já imaginou você doente, esperando por um rim/pâncreas/fígado/coração há anos, descobrir que a fila parou porque uma novela fez com que as pessoas tivessem medo de doar os órgãos dos seus familiares? A Associação prometeu na época escrever uma carta para a autora pedindo para que a ficção não acabasse com o trabalho (sério) de conscientização, captação e transplante feito por eles. Não sei se esse manifesto chegou a ser escrito mas “Salve Jorge” falou sobre o tráfico de mulheres e não sobre o de órgãos.

Um dos argumentos que poderia ser usado pelo autor, se ele fosse questionado por alguém, é que a novela é o espelho da sociedade em que vivemos. Isso é verdade. O Brasil é o país das cesáreas. Uma pesquisa recente divulgada pelo Ministério da Saúde apontou que 88% dos partos feitos nos hospitais particulares são cesáreas enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda no máximo 15%. A cesárea é uma cirurgia e por isso há maior chance de hemorragia, infecção e a recuperação da mulher é muito mais difícil do que quando ela faz um parto normal. Essa discussão é muito atual. Nunca se falou tanto sobre o assunto, nunca as mulheres buscaram tanto por informação, nunca se organizaram tanto para ter o direito de terem seus filhos de parto normal respeitado.

Quando eu engravidei do meu filho há apenas 5 anos eu não tinha noção que a cesárea tinha virado uma indústria. Se minha médica falasse que eu só podia parir dessa forma eu iria acreditar. Uma amiga, mãe de duas crianças, foi quem sentou ao meu lado e me contou sobre a maravilha que é ter filho de parto normal. Enquanto isso alguns médicos me desaconselhavam: diziam que eu iria sofrer de incontinência urinária e que teria problemas sexuais. Comecei a ler sobre o assunto. E só porque me conscientizei tive o meu direito e vontade respeitados. Encontrei uma médica maravilhosa que não se importou em desmarcar toda a agenda e passar dez horas ao meu lado no hospital até o Samuca nascer. Mas isso é raro. A maioria dos médicos não quer perder tempo e dinheiro com o parto normal e por isso usam todas as desculpas possíveis para tentar convencer da sua incapacidade de parir: você é pequena demais, estreita demais, não tem contração, não tem dilatação ou o cordão umbilical está enrolado no pesçoco do seu filho que se não nascer por cesárea pode morrer enforcado(!!!). O que aconteceu ontem na novela foi um somatório das desculpas esparradas que temos por aí com a fixação de um esteriótipo: parto normal dói demais e a cesárea resolve o “problema” de forma mais rápida.

Manoel Carlos perdeu uma chance sensacional de informar, conscientizar e contribuir com uma discussão tão atual e importante. Preferiu endossar a cruel realidade. Mas esperar o que de um autor que mesmo depois de ter criado uma Helena para Taís Araújo ainda enche as cenas com empregadas majoritariamente negras?