Charlize Theron é Marlo, mãe de três filhos, sendo um deles recém-nascido

As risadas no cinema me incomodavam. E elas eram altas, como se o que estivesse sendo exibido na tela fossem cenas de uma comédia pastelão. Cada vez que Marlo, mulher que cuida sozinha dela mesma, da casa e dos três filhos pequenos colocava uma pizza congelada no microondas para o jantar das crianças, pisava em uma pecinha de Lego ou desmaiava no sofá sem condições de sequer olhar os filhos menores, as gargalhadas explodiam na sala de exibição. O mesmo acontecia quando ela abria o pijama que nunca tirava do corpo para que as nada sexies bombinhas ordenhassem seus peitos cheios de leite.

Por um momento eu me senti em uma sessão de “Os Trapalhões”, tamanha a diversão da audiência ao assistir as desventuras de uma mãe que, como a maioria de nós, é levada a acreditar que tem que dar conta de tudo e que, quando não dá, acha que o problema é com ela, claro. O incômodo só aumentou quando, ao tomar um “banho de suco”, Marlo, vivida pela atriz Charlize Theron, tira a blusa na mesa de jantar e, em posse de sua barriga flácida de mulher recém-parida, ouve a pergunta da filha: “Mas o que foi que aconteceu com seu corpo, mamãe?” Mais risos na sala quase vazia do Reserva Cultural, um dos poucos cinemas de São Paulo onde “Tully”, roteirizado pela escritora Diablo Cody (a mesma do ótimo ‘Juno’), está em cartaz.

“Tully”, do diretor Jason Reitman

Talvez há alguns anos eu também achasse graça por não saber que tudo o que foi retratado no filme é absurdamente real, vivemos isso na pele todos os dias, nem todo mundo percebe que ficar em casa trocando a fralda, amamentando e pondo para arrotar, em looping, sem direito a um papo de adulto, um banho demorado, ou cochilo é algo asfixante, solitário e perturbador. Algo tão pesado e enlouquecedor que Marlo entra em uma profunda desordem que, amém, fez com que os risos da sala de cinema cessassem. A solidão materna é algo muito, muito sério.

Soma-se a esse isolamento o esforço hercúleo em lidar com as outras demandas da casa e do mundo, com gente dizendo que você deveria fazer assim, não assado, com educadoras que pedem para que você arrume uma outra escola para o seu filho porque ele não se “enquadra nos padrões de normalidade” e com os maridos, sempre eles, que chegam em casa “exaustos” e ainda comentam, de um jeito ‘doce e cuidadoso’, que a comida que está sendo oferecida não é saudável o suficiente e perguntam os motivos pelos quais você decidiu burlar as próprias regras deixando as crianças levarem celulares e tabletes para a mesa de jantar. Os maridos, ah, os maridos. Esses precisam muito assistir à Tully e serem alertados, antes, que o filme é “baseado em fatos reais”. Sim, queridos, a vida real de uma mãe sem rede de apoio alguma é exatamente assim.

Eu fiquei sem ar durante toda a exibição e sentia vontade de abraçar Marlo, contar a ela que esse momento de cansaço profundo vai passar, assim como faço com todas outras mães amigas com quem cruzo pelo caminho. Mas daí senti vontade de dizer outra coisa a ela e a todas nós: não precisa ser assim. Não pode mais ser assim.

Em algum momento sugerem que Marlo precisa é de uma babá, só assim conseguirá descansar. Mas por que o alívio de uma mulher tem sempre que passar pelo aumento do peso de outra? Ou você acha que a babá não terá também de contratar uma mulher para cuidar dos seus filhos que, por sua vez, também terá de contratar outra mulher para “dar uma olhadinha” em suas  crianças’? No final das contas continuaremos exaustas e, de quebra, culpadas porque não conseguimos “cuidar de tudo”. Mas onde estava escrito que tínhamos que cuidar de tudo?

Em uma das cenas de “Tully” o marido de Marlo diz, assustado, que não sabia que a mulher dele estava tão mal a ponto de sair de casa “e deixar as crianças sozinhas”. “Mas você não estava em casa?”, perguntou a médica. Sim, ele estava. Então os filhos não estavam sozinhos. Marlo, sim, esteve sempre solitária. Assim como muitas de nós, pode reparar.

 

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