O médico espanhol Carlos González é direto quando questionado sobre aqueles comentários sem pé nem cabeça que são oferecidos aos pais, principalmente os de primeira viagem, sobre criação e educação das crianças. Pergunto a ele sobre colo – que atire a primeira pedra quem não ouviu pelo menos uma vez na vida que isso deixa os bebês “mal-acostumados”. González é taxativo, debochado até. “Se você carregar um bebê no colo ele não vai saber andar e terá de ser carregado no colo a vida toda. É por isso que você vê na rua tantas mulheres idosas com homens de trinta anos nos braços, mal-acostumados desde pequenos”, brinca. “Como alguém ainda pode acreditar em tamanho absurdo?”, completa.

Considerado um dos maiores ícones da atualidade em defesa da amamentação e da criação com apego, o currículo de González é extenso: Doutor em pediatria licenciado pela Universidade Autônoma de Barcelona, especialista em amamentação pela Universidade de Londres, fundador da Associação Catalã Pró Aleitamento Materno, membro do Conselho de Assessores de Saúde de La Leche League International e assessor da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (Unicef). Além da vida acadêmica intensa, escreve sobre educação, alimentação e saúde infantil – já vendeu mais de 400 mil exemplares de seus livros na Espanha, tendo títulos traduzidos para pelos menos 12 idiomas, entre eles o português. Sua editora no Brasil, a Timo, já lançou alguns títulos de González, como “Um presente para a vida toda”, “Meu filho não come”, “Manual Prático do aleitamento materno” e “Bésame mucho – Como criar seus filhos com amor”. González desembarca no Brasil na próxima semana para uma série de palestras em São Paulo e falou com o blog diretamente da Espanha.

Blog: Muitos pais de antigamente não se sentiam à vontade para abraçar seus filhos, dizer como são importantes e quanto os amam, fazendo com que alguns adultos carreguem algumas mágoas da própria infância. Hoje em dia temos assistido a uma mudança de comportamento e de paradigma, com muitos pais querendo que seus filhos tenham uma infância diferente da que tiveram. O que foi que catalisou essa mudança, na sua opinião?

González: Olha, não sei. Eu acho que tem tudo. Adultos tratados com disciplina rígida, muitos gritos e pouco contato e adultos tratados com amor, respeito e muitos beijos. Tanto em um grupo como em outro há pais que agora repetem o padrão com seus próprios filhos, ou que educam de maneira diferente, talvez sem perceber, ou tentando fazer de maneira diferente e que muitas vezes conseguem. Ou não.

Blog: Embora bater nas crianças seja proibido por lei no Brasil, alguns pais ainda acreditam que essa seria a única forma de colocar limites nas crianças. Dá para colocar limites com afeto? Como?

González: Dá sim, claro que dá. Você só precisa conversar com seus filhos e na maioria das vezes eles obedecerão. Nesse exato momento estou respondendo a algumas questões que você me fez. Você gritou comigo, me ameaçou, me bateu? Claro que não. Você simplesmente me disse “você pode responder a essas perguntas, por favor?”, e eu respondo. Você pode ter certeza de que se tivesse me batido, gritado ou me ameaçado, eu não responderia (a menos que a ameaça fosse tão séria e terrível que eu estivesse realmente com medo de você). E o mesmo acontece com as crianças. Com bondade e respeito, eles nos ouvirão a maior parte do tempo. Com gritos e ameaças, eles nos ignoram, a menos que tenham medo de nós. E eu não quero que meus filhos tenham medo de mim.

Foto: Pixabay

Blog: Ainda se ouve que colo demais faz mal ao bebê, que ficaria “mal-acostumado”. Qual o papel do colo nos primeiros anos da criança, na sua opinião?

González: Opa, sim, que medo, se você carregar um bebê no colo ele não saberá andar e terá de ser carregado no colo a vida toda. É por isso que você vê na rua tantas mulheres idosas com homens de trinta anos nos braços, mal-acostumados desde pequenos. Como alguém ainda pode acreditar em tamanho absurdo?

Blog: Dá para educar as crianças sem colocá-las de castigo?

González: Claro que dá. É é fácil. Você já puniu seu marido, seus amigos, sua empregada doméstica ou seus funcionários – no caso de ser chefe em uma empresa? Não é verdade que quase sempre eles te ouvem sem a necessidade de um castigo? Funciona exatamente da forma contrária: com o castigo você não educa. Uma pessoa boa faz o bem sem esperar um prêmio e não deixa de fazer o mal porque teme ser punida. Quem espera recompensa não é uma pessoa boa, apenas interesseira; quem teme a punição não é bom, apenas astuto. Aquele que sabe que existem câmeras e deixa de roubar uma idosa na porta do banco vai assaltá-la em um beco – e isso não faz dele uma pessoa honesta, mas sim um ladrão covarde. Não quero que meus filhos se comportem da mesma forma que ladrões covardes.

Blog: Os pais são bombardeados com uma série de regras que muitas vezes não sabem de onde vieram, que acabam gerando cansaço, angústia e frustração –por um lado, por ser tão complicado seguir as tais regras, de outro, por morrer de vontade de consolar seu filho ou dormir abraçado e “não poder”, já que dizem que “é melhor assim”. O que os pais têm de levar em consideração quando se encontram nesse papel tão difícil que é o de estar em um papel de tanta responsabilidade que é o de educar um ser humano?

González: Todos os pais têm experiência. Mesmo que este seja nosso primeiro filho, temos experiência. Porque somos crianças há muitos anos. Você não se lembra dos seus dois anos, mas se lembra dos seus sete, dez ou doze anos. O que te fez feliz, o que te fez infeliz, o que você sentiu quando seus pais te abraçaram, o que você sentiu quando eles gritaram ou o puniram? Se ouvimos nosso próprio filho e a criança que fomos, e que ainda mora dentro da gente, é muito fácil saber do que nossos filhos realmente precisam.

Blog: De onde nascem essas regras que enlouquecem os pais como “é preciso deixar chorar”, “não pode pegar no colo”, “não pode dormir junto”?

González: Só Deus sabe. É tão fácil dizer bobagem… De qualquer forma, são regras bastante modernas. Nunca vi uma imagem da Virgem Maria brigando, punindo ou batendo no Menino Jesus. Ela se ajoelhava e lhe dava carinho.

Blog: Você se formou em pediatria e também tem três filhos. Onde aprendeu mais sobre crianças – na Universidade ou no dia a dia com eles?

González: Com meus filhos, com toda certeza. Na faculdade, eles não nos ensinam nada sobre cuidados infantis, pelo menos para os médicos. Acredito que ensinem aos professores e psicólogos, mas os médicos aprendem apenas sobre diagnóstico e tratamento de doenças.

Blog: Tem algum arrependimento como pai, algo que faria diferente?

González: Não sei. Mudar o passado é complexo e pode ter consequências inesperadas. E o resultado foi tão bom, meus filhos são tão maravilhosos que eu teria medo de mudar alguma coisa. É claro que fiz coisas erradas, perdi a paciência, gritei … Mas talvez a culpa e o arrependimento que senti tenham sido o que me impediram de fazer coisas ainda piores.

Blog: Muitos pais e mães precisam trabalhar e acabem deixando as crianças em creches ou escolinhas muito cedo, às vezes antes de completarem seis meses. É possível investir no vínculo e no apego tendo se separar tão cedo das crianças? O que fazer quando só há essa opção para os pais?

González: Você tem que tomar decisões. Enquanto você cuida do seu filho, você não está trabalhando; enquanto você trabalha, não está com seu filho. Você não pode dizer ao seu chefe: “Eu irei trabalhar duas horas por dia, mas será um tempo de qualidade e você me pagará como se fossem oito”. Mas querem que você acredite que duas horas com seu filho valem o mesmo que oito.

Blog: Como fazer quando os pais precisam da ajuda de outros cuidadores – como os avós – e eles não compartilham dos mesmos valores que os pais em relação a criação com apego?

González: Se o problema for grave, se os avós, por exemplo, baterem na criança, deve-se impedir que isso aconteça. Você não pode deixar seus filhos com alguém que os maltrata. Agora, se for um ponto menos importante, você terá que resolver. Os avós já fazem o bastante quando cuidam dos netos de graça, não dá para exigir que eles façam tudo do jeito que você faria. E mesmo quando você paga alguém para cuidar do seu filho não tem certeza de que eles fazem tudo do que jeito que você quer.

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Blog: Embora muitas mulheres venham lutando para que o direito a amamentar seus filhos seja respeitado, o Brasil ainda sofre com índices muito baixos de aleitamento materno (apenas 52 dias). Na sua opinião, por que algo que era tão comum na época das nossas avós e bisavós se tornou algo tão difícil?

González: Há muitos fatores combinados: negligência social, econômica, cultural, médica … e, é claro, tremendos interesses da indústria de alimentos infantis. Os mitos de que o leite materno “é fraco”, “não alimenta” também nasceu, em grande parte, da publicidade feita pela indústria. E para que isso mude é importante que se mudem as práticas hospitalares e melhorem o treinamento dos profissionais da saúde, além de se prorrogar a licença-maternidade.

Blog: O momento da introdução alimentar é de estresse para muitos pais, que se ressentem porque a criança “não come direito”. O que é comer direito quando o assunto é uma criança, na sua opinião?

González: Comer corretamente é comer comida normal (o que os pais comem, ou, melhor, o que bisavós comiam, sem refrigerante ou junk food) e comê-la de maneira normal, sem esmagar, mastigar, levando o alimento à boca, sem ninguém forçar, enganar ou distrair a criança.

Blog: Qual o efeito de usar chantagem emocional, gritos ou ameaças para que a criança coma? Qual deveria ser a postura dos pais no momento das refeições?

González: Os pais que agem assim estão cometendo uma infâmia, porque assim a criança sofre e começa a odiar comida. Os pais devem seguir as regras da educação ao longo da vida: não apoiar os cotovelos na mesa, não fazer barulho com a sopa e, acima de tudo, não gritar, distrair, ameaçar ou perturbar os outros que estão à mesa.

Blog: É possível consertar os hábitos alimentares de uma criança que foi acostumada a açúcar e alimentos ultraprocessados? Até que idade que podemos mudar esses hábitos?

González: Enquanto seu filho viver em sua casa ele come o que você servir, a decisão é sua. Não há desculpa. Quando ele for mais velho, ele comerá o que quiser, como todo mundo.

O encontro do pediatra espanhol Carlos González com os pais terá quatro horas de duração e será realizado no dia 10 de novembro, domingo. Haverá tradução simultânea, espaço para perguntas e respostas e interação do público. Famílias que têm bebês de colo ou criança pequena serão recebidas pela equipe de recreação da Casa do Brincar. Informações e ingressos aqui.

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