A publicitária Elisabete Junqueira, 63, criadora do portal Avosidade

Há pelo menos 25 anos surgiram os blogs na internet. Essas páginas começaram como diários digitais, espaços super democráticos que podiam ser abertos por qualquer um, bastava um computador e uma conexão à internet. Logo surgiram os blogs de política, viagem, educação, criação de filhos. Esses espaços maternos me ajudaram muito quando meu filho nasceu, depois eu assisti aos pais se juntarem a nós nessa discussão online maravilhosa sobre criar e educar as crianças nesse mundo de hoje. Mas, falha minha, só muito recentemente eu me dei conta que os avós também estavam nesse espaço digital, não só reivindicando seu papel nos debates sobre a criação dessas crianças, mas também por mais espaço dentro das famílias.

“Será que a gente está tão superada quanto vocês imaginam que nós estamos?”, pergunta a publicitária Elisabete Junqueira, 63, criadora do ‘Avosidade’ (que já é uma plataforma multimídia com diversos colaboradores), quando afirma que hoje em dia a opinião dos avós não é mais tão levada em conta, ao contrário do que acontecia antigamente.  Ela é mãe de Tiago, 41, e Vitor, 38, e avó orgulhosa de Mateus, 9, Sofia, 7, e Rafael, 6. Elisabete deixou uma carreira de sucesso na Comunicação Corporativa para se dedicar inteiramente ao ‘Avosidade’ – ela foi diretora da CDN, uma das mais maiores agências de comunicação do Brasil, e trabalhou para importantes jornais, como Gazeta Mercantil e Valor Econômico. “Nós não somos mais aquela avó Dona Benta – que é adorável, mas aquilo ali é uma coisa que ficou no passado”, afirma.

Blog: Faz muitos anos que a gente vê mãe e pais fazendo blog e escrevendo sobre as crianças, mas você é a primeira avó que eu vejo nesse papel. Por que você decidiu se dedicar ao assunto, escrever sobre isso?

Elisabete: Essa história começou há 9 anos com o nascimento do Mateus, meu neto mais velho. Eu percebi que as relações familiares tinham mudado muito e não existia o que eu costumo chamar um pouco em tom de brincadeira, o ‘manual de avó’. Existem muitas publicações para as mães e eu fiquei intrigada com aquilo, a minha experiência como mãe e como neta na minha família de origem tinha sido muito diferente da que eu estava experimentando com o meu primeiro neto. E também eu comecei a conversar com outras avós e percebi que elas também tinham essa dificuldade de entender a dinâmica das famílias, que tinha mudado muito e muito rápido. Eu levei dois anos pesquisando se havia um veículo que tratasse de forma regular a questão de avós e netos no Brasil e fora do Brasil.  Não tinha. E essa vontade de falar de intergeracionalidade foi maior do que tudo e o projeto do ‘Avosidade’ tomou conta de mim. Resolvi me dedicar inteiramente a ele e deixei minha vida na comunicação corporativa para escrever sobre isso.

Blog: Quando você afirma que essas relações mudaram, o que você notou e que achou que precisava ser discutido? O fato de você ser uma avó jovem e que escreve no digital – e não lança um livro impresso – já mostra como os avós de hoje são diferentes dos de antigamente, não?

Elisabete:  A maioria dos avós de hoje são da geração baby boomer ou seja, nasceu em 1945 até 1964 mais ou menos. Nós somos de uma geração que acompanhou e ainda acompanha muitas mudanças, então o digital para a gente não é novidade, ao contrário do que pode estar no imaginário de muitas pessoas, talvez até das mães. Nós não somos mais aquela avó Dona Benta – que é adorável, mas aquilo ali é uma coisa que ficou no passado. E o que eu acho que o que mais levou a tentarmos entender isso é que há uma nova configuração do papel da mulher na sociedade. As mulheres de hoje são mães mais tarde, depois de já terem trabalhado, estudado, e às vezes essa maternidade é muito demandante, um pouco diferente para a nossa geração, que fazia tudo junto. E ainda na minha geração você tinha uma condescendência para aceitar a interferência das suas próprias mães. No meu caso, como eu fui uma mãe jovem, eu estava estudando e trabalhando e tudo mais e quando a minha mãe opinava isso não soava tão grave como hoje, quando uma avó hoje interfere na criação do neto isso é muito mais pesado para essa mãe.

Blog: Quando você foi mãe pela primeira vez o conselho da sua mãe era algo esperado, certo? Não era visto como ‘invasão’?

Elisabete: Você esperava o conselho, esperava o apoio e aceitava aquilo com alguma naturalidade, com uma certa felicidade até, porque sua mãe estava ajudando você naquela trajetória. Mas as mães de hoje são muito bem informadas e às vezes a informação que elas têm não vem de uma fonte tão boa, ou às vezes até vem, mas as metas são tão altas que tornam essas mães angustiadas. E a melhor maneira de você ajudar essa mãe de hoje é compreender essa mudança, ao invés de se colocar num lugar de crítica, de ressentimentos, colocar-se no lugar do apoio. Se você não entende isso você não tem como apoiar e nem como criar essa relação fantástica com os seus netos, porque a mãe fica realmente na defensiva.

Foto: Pexels

Blog: Você acha que é mais difícil ser mãe hoje do que há 40 anos, quando você foi mãe pela primeira vez?

Elisabete: Eu fui mãe até antes das minhas amigas, meu filho veio até um pouco mais cedo do que eu imaginava que viria. Mas ser mãe não era um plano de carreira, o meu plano de carreira foi o meu plano de carreira e foi o que eu fiz a vida toda, mas a maternidade era uma decorrência natural da vida, vamos dizer assim. E na época eu usei muito o instinto, muito, o que sentia que era bom eu fazia e eu não tinha aquela quantidade de informações absurdas que se tem hoje, a única coisa que a gente tinha era o livro do Dr. Reinaldo Delamare, ‘A vida do bebê’.

Blog: Eu me lembro desse livro, minha mãe tinha esse ‘guia’, que era ainda maior do que uma Bíblia.

Elisabete: Eu confesso aqui e um pouco envergonhada que eu praticamente não li esse livro. O que eu fazia? Eu seguia religiosamente as coisas que o pediatra mandava, eu era muito cuidadosa, mas se a minha mãe dizia para eu fazer alguma coisa e eu via que dava tudo certo eu não tinha essa resistência. Hoje você tem uma resistência – e essa é uma reflexão que eu peço às mães: será que a gente está tão superada quanto vocês imaginam que nós estamos? Será que de repente algo já testado por muitas gerações não pode dar certo, trazer conforto, não ajudar passar por aquela situação de forma mais suave? Para você criar uma criança é necessária uma aldeia e eu acho que as mães poderiam recorrer muito mais a essa rede de apoio para ter uma maternidade mais tranquila, mais feliz. Mas também a gente, os avós, temos que respeitar as escolhas dos pais para seus próprios filhos, isso é quase um mantra para mim. Os seus filhos se casam com pessoas diferentes e cada família vai funcionar de uma forma diferente – por que uma coisa é quando você tem seus filhos todos em casa e a família tem um ritmo, mas a partir do momento que sua filha ou seu filho saem de casa e tem o seu companheiro, isso muda. E aí você tem que aprender como é que funciona aquilo ali.

Blog: A disponibilidade desses avôs e avós de hoje é diferente, a maioria tem uma vida bem ativa. Meu pai, por exemplo, sempre me ajudou demais com o meu filho, mas ele não pensa nem meia vez de me dizer ‘nesse horário eu não posso, hoje eu tenho aula de dança de salão/música/ginástica’. 

Elisabete: Eu vejo sim isso acontecendo e eu acho muito importante que o avô e a avó enquanto indivíduo tenha a sua vida, porque tendo a sua vida ele vai ser uma pessoa feliz. Se ele for feliz, ele pode devolver coisas melhores para o neto. E hoje tem algumas outras mudanças bem importantes, por exemplo: a minha avó materna teve 23 netos e eu sou a décima sétima neta. Eu me lembro dela com muito carinho, ela cuidou de mim o quanto pôde. Mas ela teve uma quantidade absurda de netos então ela não se ligava tanto em cada um deles, porque nem que ela não fizesse nada da vida não conseguiria. Já a minha mãe só teve dois netos, eu até tenho mais netos que a minha mãe, mas esses netos de hoje, como são em quantidade muito menor do que foi no passado, os avós tem uma ligação muito maior. Não que os avós amassem menos os netos antigamente, mas eram muitos netos para amar.

E os avós hoje vão conviver por muito mais tempo com os netos do que os avós de antigamente. Então eu vou ter um avô up-to-date ali, acompanhando tudo o que está acontecendo no mundo e ele pode ser um importante apoio para o neto adolescente e até adulto, nós temos muitas histórias, já fizemos muitas matérias relatando isso: esse avô, embora talvez não tenha se dedicado dias e dias a fio ao neto porque ele tem as suas coisas para cuidar, tem uma qualidade de relacionamento muito forte com o neto, porque quando ele está presente, está inteiro.

Blog: A pandemia tem sido dolorosa para avós e netos, o isolamento social antes da vacina foi muito duro, já que os mais velhos eram aquele grupo de risco maior para as complicações do coronavírus. Vocês acompanharam isso no ‘Avosidade’?

Elisabete: Sim, temos muitos relatos. E eu mesma sou uma experiência viva disso, tem quase dois anos que eu não vejo o Mateus e a Sofia. Eles moram em Portugal e eu, como talvez uma boa parte das pessoas, esperávamos que a pandemia não fosse ser assim tão longa. Todas às vezes que  tentamos nos ver ficou impossível e agora mesmo está assim ainda, mesmo que os voos estejam abertos para lá a gente tem que ficar de quarentena e pela postura brasileira na condução da pandemia o Brasil não está bem colocado no mundo, isso todo mundo sabe. A gente teve muitos e muitos relatos de o quanto isso foi sofrido, especialmente entre aqueles que estavam sendo avós pela primeira vez.

A tecnologia ajuda muito, mas não substitui o contato – eu queria estar hoje com a minha neta e não estou, o aniversário do meu neto foi dias atrás e eu queria estar com ele, eu realmente perdi dois anos de convivência com eles vida deles e isso foi uma tragédia. Temos muitos relatos tristes desses avós mas também dos pais, temos relatos lindos, foi uma coisa muito doída, muito sofrida que ainda não está resolvida.  Algumas avós desafiaram as evidências e foram ficar com suas filhas, outras infelizmente não puderam, e as mães passaram maus bocados, a chegada de uma criança é uma coisa linda e poder dividir essa criança com a família foi algo tirado das mães, das famílias, foi uma coisa muito triste, né? Tenho muita esperança que isso passe, que a gente possa recuperar.

Blog: Eu já ouvi que é mais gostoso ser avô do que ser pai, que é mais gostoso ser avó do que ser mãe. Você também acha isso ou acredita que são amores diferentes e complementares?

Elisabete: Quando você tem um filho – e você tem o seu e também pode me dizer – você pensa que não pode amar mais do que já ama aquela criatura, o filho é um coisa que arrebata muito a gente. E quando você vira avô isso vira uma grande lição da vida, porque você tinha achado que já havia experimentado todas as formas de amar possíveis, o amor com seu companheiro ou companheira, o amor pelos seus filhos e tudo mais, mas chega aquela criaturinha, o seu neto, e descontrói tudo. E é um amor completamente diferente, é um amor sereno, intenso mas sereno, se é que isso pode não ser uma coisa meio contraditória. Ele é intenso como a maternidade e é sereno como a maturidade. Então é um negócio muito bonito de sentir e é muito diferente, e eu acho que ser avó é uma coisa completamente diferente do que ser mãe. Ser avó é uma coisa sublime, é um amor que você pensou que não ia mais sentir e e sente. E sente por cada criança que nasce, por cada conquista dela. E muitos avôs e avós sentem uma renovação absurda da vida com a chegada de um neto e de uma neta, é um estímulo absurdo, uma vontade de viver, vontade de que as coisas deem certo, de ter novos projetos. É uma coisa muito boa de sentir.

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