Uma vez ao ano, mais especificamente no dia 08 de março, muitas mulheres do Brasil ganham flores em casa, no trabalho, nas ruas e até nos grupos de Whats App que participam. É como se todo o trabalho invisível ou mal remunerado que executamos e a desigualdade e violência que enfrentamos nos outros 364 dias do ano pudessem ser esquecidos com gifs, emojis, sorrisos e boas intenções, até que um novo ciclo comece já na manhã seguinte à comemoração.

O dia internacional da mulher nasceu como mobilização para a conquista de direitos em casa, no trabalho e na sociedade, para a discussão sobre as discriminações e violências físicas, morais e sexuais sofridas pelas mulheres. Rosas vermelhas e bombons não chegam nem perto do que realmente precisamos – e é claro que quem decide nos presentear não tem isso em mente, está apenas tentando ser gentil ao reagir ao alerta dado pelo calendário. Em fevereiro e março se compra confete e serpentina, na sequência flores e depois ovos de chocolate – exatamente nessa ordem, acredita.

O comércio surfa nessa onda, claro. E no dia 08 de março tenta se desovar aqueles romances e publicações de autoajuda encalhados nas livrarias (mulher é sensível!), faz promoções de cremes de rejuvenescimento e oferece até cupons de desconto no pacote manicure + depilação, “para todas as mulheres guerreiras e trabalhadoras que mesmo quando se dedicam aos outros não abrem mão de cuidarem de si mesmas”, anunciava um site há pouco, distribuindo eufemismos para tentar justificar a exploração de todos os dias.

E como a gente se dedica aos outros, viu? Segundo o IBGE, trabalhamos dez horas por semana a mais que os homens porque temos essa “qualidade” de oferecer um tempo que não temos para que muitos tenham o privilégio de descansar mais do que a gente. Muitas de nós não se dão conta de como esse saldo é injusto porque têm companheiros que “até ajudam” e trocam a fralda do próprio filho (menos a de cocô!) ou lavam a louça do próprio jantar, na maioria das vezes sob nosso comando ou pedido, verdade seja dita.

Mas, olha, esse ano eu quero ampliar a comemoração e propor uma troca. Em vez dessas lembrancinhas, queremos uma divisão justa das tarefas – lavem uns banheiros, façam o jantar para as crianças, passem suas camisas e assumam o controle da casa várias vezes na semana, só para variar, enquanto a gente vai a academia/à pós-graduação/lê um livro/assiste à novela/dorme. Abrimos mão da caixa de bombons na mesa de trabalho pelo compromisso de que as reuniões nunca, nunquinha serão marcadas depois do horário que temos que sair para buscar filho na escola, como foi combinado previamente, lembra, chefe? Também não queremos ganhar menos que os colegas que exercem a mesma função que a nossa e nem ter nossa fala interrompida, menosprezada, ter ideias e/ou projetos roubados. Trocamos os rapapés oferecidos uma vez ao ano pelo respeito diário ao nosso eventual “não”. Não, não queremos ser tocadas, não, não queremos ser assediadas, hoje não queremos sexo, nosso relacionamento acabou, sim, quero o divórcio.

Precisamos dar esse passo urgentemente.

Ao distribuir flores e bombons, os homens sinalizam que ainda não entenderam do que se trata o dia internacional da mulher e vocês já são adultos, têm acesso aos jornais, contas nas redes sociais. E se chegaram até o final do texto demonstram que pelo menos estão interessados em saber o que pensamos e esperamos do dia de hoje. Que tal me deixar chegar em casa sem ser cobrada, andar na rua sem ser importunada e sair do bar sem ser estuprada? Mas podemos começar devagar, com você não vindo à caixa de mensagens do meu blog ensinar para uma mulher “para quê” serve esse dia ou para me dizer que não, “não é bem assim”, “você está exagerando”.

Que tal?

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