Por Emanuel Bomfim, diretor artístico da Rádio Eldorado e apresentador do programa ‘Fim de Tarde’. Marido da Marianna e pai da Maria Alice, 9, e da Isadora, 5. (O espaço do blog foi oferecido a ele, que me telefonou para contar essa história.)

 

Vivia um dia comum, do que ainda pode ser considerado comum nos dias de hoje. Minto, era um dia de sorte. A agenda da minha esposa conciliava com a minha e, por isso, ela pôde me buscar no trabalho, junto com as minhas duas filhas, em plena quinta-feira. Entrei no carro e a gente começou a conversar sobre assuntos corriqueiros, como a ida de uma das meninas ao médico, as pequenas conquistas, as frustrações, as notícias de familiares e alguma impressão sobre os fatos do cotidiano. Apontamos o carro diante do portão automático, desses típicos que separam a entrada dos condomínios do espaço público da rua, em São Paulo. Não houve tempo para pressionar o botão do controle remoto. Da janela do passageiro, vi um carro que avançava com a porta aberta. Estranhei. Quem anda assim, com uma das portas abertas? Não precisou muito tempo para perceber que algo mais grave acontecia. “Socorro, socorro, alguém me ajuda!”, gritava a mulher que estava dentro do veículo. Desci do meu carro, sob protestos de minha filha mais velha, Maria Alice, 9, já assustada com os gritos. Ela mal sabia que testemunharia uma cena ainda pior, que talvez deixe marcas para o resto de sua vida.

Fui lentamente em direção ao carro que ziguezaveava, sem controle. De repente, uma mulher conseguia sair do automóvel e fugir, aos prantos.  ‘Seria um assalto?’, pensei. Em São Paulo, estamos sempre sujeitos a presenciar crimes. É uma roleta russa, para usar uma analogia tétrica. Já tive arma apontada para minha cabeça certa vez.

Não era assalto. Percebi quando vi que um homem descia enfurecido do carro, em busca da mulher que fugia. Ele a alcançou, jogou-a no chão e, sem dó ou piedade, começou a chutar suas costas, como se fosse uma bola daquelas de capotão, com a mesma força que fazíamos na infância, na rua lá de casa, em Mogi das Cruzes. Ele chutava a mulher repetidamente, com a perna direita, a boca crispada, os olhos cheios de ódio.

Apesar das pernas bambas, parti em direção ao agressor, gritando. Era preciso intervir, ainda que não soubesse o que me aguardava. Teria que brigar fisicamente? Minha esposa buzinava, numa tentativa bem-sucedida de alertar a vizinhança para o que acontecia ali. Um rapaz que esperava pelo ônibus naquela rua veio comigo. Logo, alguns motoqueiros apareceram. Cada vez mais acuado, o agressor entrou no carro e fugiu.

A boca da mulher estava inchada e sangrava, os braços e as costas muito machucados, havia sangue por toda a roupa. “Ele iria me matar, ele queria me matar!”, dizia. Liguei para a Polícia Militar. Talvez o flagrante ainda fosse possível, mas acima de tudo eu sabia que ela precisava ser levada rapidamente ao hospital. A moça, uma jovem negra na faixa dos 20 anos, estava vestida de forma casual: tênis, calça jeans e camiseta.  Chorava muito e contava que o agressor era seu ex-marido, que tinha ido buscá-la na saída do trabalho.

Tudo o que eu já tinha lido sobre violência contra mulher passou rapidamente pela minha cabeça, de como em casos como esse é comum a vítima ser tratada como culpada. Dito e feito. Alguns dos curiosos que se aproximavam insistiam em perguntar “por que você entrou no carro dele?”. Ela tentava se explicar, como se precisasse. Eu comecei a repetir uma espécie de mantra, ‘você não tem culpa, você não tem culpa.’

Ela reclamava que o corpo doía e que temia que o agressor retornasse. E seu medo se concretizou, porque ele reapareceu. Temi que estivesse armado. Cheio de pompa, veio em nossa direção, nada arrependido. “Bati porque ela me traiu”, gritava, tentando justificar o injustificável, usando uma variação simplória da tese da legítima defesa da honra, um clássico desde os anos 80, quando aventada como argumento jurídico para tentar livrar um homem, no caso o playboy Doca Street, da condenação pelo assassinato de sua namorada, a socialite Ângela Diniz. Mas antes que uma nova confusão se instalasse, três viaturas da Polícia Militar apareceram e o homem foi preso.

Quem vai testemunhar?

A ação dos policiais foi serena e profissional, bom ressaltar. Quando vi que um dos soldados era uma mulher, senti um alívio – porque, infelizmente, há uma chance de que homens, mesmo os agentes da lei, não compreendam que a vítima de violência doméstica e familiar é… a vítima. Não foi esse o caso, porque eles foram exemplares – e acompanhei de perto todo o protocolo. Enquanto dois deles socorriam a mulher, um PM cuidava da viatura e outros três interrogavam o agressor.

Nesse momento, com a presença da PM e a comoção gerada pela pirotecnia do giroflex, a audiência local estava elevada: vários motoqueiros parados, moradores desciam dos prédios ou acompanhavam atentos pelas janelas. Muitos gritavam. Era uma torcida, que agia como as plateias do Coliseu de Roma algumas décadas antes de Cristo: queriam mais violência, que acreditavam ser sinônimo de justiça sendo feita. Pediam que a PM aplicasse um “corretivo” no agressor. Que fosse espancado, humilhado e – por que não? – morto ali mesmo. Mas a verdadeira justiça se faz seguindo a lei e, por isso, um dos policiais perguntou quem ali “poderia ir até a delegacia testemunhar a favor dessa mulher?” O silêncio se impôs e foi seguido por uma série de salvos-condutos, elencados por pessoas agora cabisbaixas. Todos tinham compromissos sérios e inadiáveis. Eu me prontifiquei. E fui.

 

“Isso não é flagrante”

Eram quase dez da noite quando cheguei à 4ª Delegacia da Mulher, que integra o 28º DP, na Freguesia do Ó, zona norte de SP. Levei um livro comigo, porque estava certo que só sairia de lá muitas horas depois, já na madrugada. Em São Paulo, estamos acostumados com a demora no atendimento em delegacias e, talvez por isso, muitos não topem o desafio de encarar o cansaço aplicado pela burocracia estatal. Vi o agressor mais uma vez, no camburão da viatura da PM. ‘Qual será o destino dele? Ficará preso?’, pensava. Estava confiante que o desfecho do caso seria o melhor possível, pois estava numa Delegacia da Mulher, um lugar especializado em crimes como aquele que o homem tinha cometido. Ali, todos conheciam a lei do feminicídio, aprovada há cinco anos alterando o Código Penal. Ali, todos sabiam que muitas mulheres sofrem violência doméstica e familiar todos os anos, sendo mortas por seus companheiros e ex-companheiros. Ali, todos sabiam que o feminicídio é circunstância qualificadora do crime de homicídio. Ali, todos sabiam que aquela mulher poderia ter sido morta se eu e aquele rapaz do ponto de ônibus não tivéssemos intervindo a tempo.  Ali, todos sabiam que essa mulher poderá ser assassinada se o poder público não fizer algo por ela. Pelo menos era o que eu achava até então.

Quando vi que era uma delegada que iria conduzir a ocorrência fiquei orgulhoso de um aparelho do Estado que, em geral, aprendemos a desconfiar. ‘Qual é o caso?’, ela perguntou para os policiais presentes. Depois de ouvir um breve relato, deu seu parecer, rápido: “isso não dá flagrante”. Não sou um letrado da lei, mas achei conveniente questionar. ‘Ora, delegada, se não fôssemos em direção ao agressor, ele a espancaria até a morte. Isso não é flagrante, já que a PM chegou na sequência ao ato e o prendeu?’. Ela devolveu com mais perguntas: “O senhor, por acaso, sabe em que contexto se deu a agressão? Quem garante que ela não o provocou? Ou até não bateu nele antes?”. E prosseguiu em seu julgamento, antes mesmo que todos fossem ouvidos. “Depois elas acabam se reconciliando, voltam aqui, para retirar a queixa. Isso, no máximo, vai dar uma ‘protetiva’ para ela”, concluiu, encerrando o assunto.

Confesso que tinha romantizado encontrar uma delegada feminista que atuaria com o objetivo de proteger essas mulheres, dando a elas suporte legal e psicológico. Afinal, estava em uma uma delegacia da mulher.  Eu não estava preocupado apenas com o destino do agressor, mas com a proteção da vítima. Aquela moça que estava no hospital e que, portanto, a delegada ainda nem conhecia era a vítima e precisava de meios de proteger daquele antigo relacionamento, ainda abusivo.

Emanuel Bomfim, diretor artístico da Rádio Eldorado

A delegada pediu que o meu testemunho fosse dado aos policiais militares na porta da delegacia, que eles registraram num sistema da polícia integrado ao smartphone. Até a assinatura é registrada no touch screen do aparelho. Fui liberado logo em seguida.

Sem saber o desfecho do caso, voltei para casa mais rápido do que previa e não conseguia dormir pensando nessa mulher, no que teria acontecido. Estaria bem? Depois de fazer o exame de corpo de delito teve de encarar mais uma vez seu agressor na delegacia? Quem a levou para casa? Como a delegada afirmou que “isso não dá flagrante” o agressor foi solto?  A Justiça conseguirá impedir que ele a agrida novamente ou até que a mate?

Sei que, de alguma forma, cumpri meu papel de cidadão. E não há nada de heroico nisso, porque fiz o que acreditava ser o certo: fui à delegacia contar a agressão que testemunhei. Fiz isso pela vítima, mas também pelas minhas filhas, que talvez não soubessem até então que este mundo abrigava este tipo de crueldade. Elas são pequenas e o assunto ‘violência contra mulher’ ainda não havia sido tema de nossos bate-papos diários. A redoma onde viviam até então havia sido quebrada naquela noite e de maneira crua, real, sem o filtro das ficções audiovisuais ou do telejornalismo de cada dia. Eu não tive tempo de explicar o que acontecera, pois corri para delegacia logo após a agressão. Mas a Mari, minha esposa, disse a elas que ‘o papai fez o que que precisava ser feito’. Explicou que não podemos jamais deixar alguém em situação de perigo sem ajuda. E que, sim, infelizmente, existem homens que cometem esse tipo de violência, algo que elas jamais podem aceitar. Quando voltei para casa, minhas filhas não tinham mais perguntas e pareciam serenas. Apenas queriam saber se eu estava bem.

Decidi publicar esse relato em um blog de uma grande amiga para contar que talvez a vítima, aquela atendente de loja, tenha sofrido mais uma violência naquela delegacia, a segunda na mesma noite.  Não sei o que aconteceu depois que saí de lá, mas temo pelo destino dessa mulher. Na confusão, não tive tempo de perguntar pelo seu nome. E se pudesse falar com ela mais uma vez, gostaria de lembrá-la que ela não tem culpa de nada. Os culpados são seu ex-marido e o Estado, que não talvez não tenha a acolhido como deveria.

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