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Há quase um mês, boa parte dos alunos das redes pública e privada de todo o país voltou às escolas depois de um ano e meio no ensino remoto, mesmo sem que todos os professores tivessem sido imunizados com a primeira e a segunda doses da vacina ou os  adolescentes tenham sido vacinados. As crianças menores de 12 anos nem sequer constam no calendário do PNI, já que não há vacinas aprovadas para essa população. Mas estão nas salas de aula.

Calcados na máxima de que as crianças ‘não contraem formas graves da doença’, o que não é totalmente uma verdade, as instituições foram autorizadas a abrir as portas, cheias de protocolos e totens de álcool em gel por todos os lados. Os pais, claro, estão sobrecarregados e ansiavam por esse momento; as crianças idem, porque foram totalmente apartadas das instituições de ensino durante todo esse tempo, enquanto o comércio tenha se mantido pelo menos parcialmente aberto no último ano e meio, e muitas lidam com as consequências desse afastamento brusco.

Aderir ou não a essa volta? – eis a questão. A pergunta é legítima e a resposta não é simples, defende a doutora e mestra em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco, Mariana Arantes. Cada família tem uma realidade diferente, aponta, e os pais não podem se sentir culpados porque estão buscando o melhor para os filhos. “Todos temos que entender que hoje esse ‘melhor’  é confuso mesmo, o mundo está nessa dúvida.”

Blog: Foi uma escolha difícil mandar os filhos de volta à escola para algumas famílias, porque esse cenário da pandemia ainda está confuso, temos nova variante circulando e nenhuma vacina aprovada para as crianças. Como lidar com essas decisões difíceis que a gente está sendo obrigado a tomar?

Mariana: Ah, é realmente uma decisão muito difícil e aí eu falo como educadora, como consultora de várias escolas, e como mãe. A gente viu as crianças perdendo muito mais do que conteúdo e aí está o maior peso da decisão. A escola é um lugar de presença, para onde as crianças vão não só para aprender a ler, escrever, somar, elas vão para se relacionar, fazer amigos, crescer, para os olhos brilharem com tantas coisas que elas aprendem e tudo isso se perdeu em casa. Em casa são os mesmos brinquedos, as mesmas pessoas, os pais que nem sempre podem dar atenção porque estão trabalhando, então isso pesou muito. As crianças ficaram ansiosas, estressadas, tristes e deram muitos sinais de falta de saúde mental. Eu acho que esse foi o maior peso na decisão da família. Cada uma tem uma realidade diferente e os pais não podem se sentir culpados porque estão buscando o melhor para os filhos e todos temos que entender que hoje esse “melhor” é confuso mesmo. Mando ou não mando? Até onde vai o risco? O mundo está nessa dúvida. Está todo mundo querendo acertar, ninguém quer errar com a pandemia e ela está durando mais do que nós prevíamos, do que nós achávamos que iríamos aguentar, mas ainda não acabou.

Blog: E entre os pais que não mandaram os filhos de volta à escola, e eu me incluo nesse grupo, a sensação é que a gente está remando contra a maré, quem não mandou tem que justificar o porquê não mandou sendo que o fato de ainda estarmos em uma pandemia e as crianças e adolescentes não estarem vacinados deveria funcionar como autojustificativa.

Mariana: Eu conheço vários pais que não mandaram e estão se sentindo justamente assim, chegam para a gente e falam ‘olha, estou me sentido forçado, inclusive, pela escola a mandar’. Os pais que não mandaram não têm que se sentir culpados, é uma decisão da família que está fazendo com certeza o possível para acertar tanto quanto aquelas que estão mandando. Não tem que se justificar, mas tem que explicar para a criança. Se esses pais percebem que as crianças e os adolescentes não estão tendo perdas significativas em termos de saúde mental, que estão suportando essa pressão emocional de não estar na escola, tudo bem.

Se a sua família e a dos outros pais que estão nos acompanhando estão conseguindo manter a saúde mental das crianças e dos adolescentes em dia e conseguem se proteger do covid-19, acham mais adequado fazer isso em casa, não tem que ter culpa. Até porque não tem resposta pronta, quem é que tem a resposta para a pandemia? Quem é que tem a resposta certa no mundo? Não tem, no mundo não tem. Por mais que a UNESCO, a Organização Panamericana de Saúde, a OCDE e o Banco Mundial tenham feito muitos relatórios sobre as perdas para a educação, essa decisão continua a ser individual, assim como é a educação que a gente propicia para os nossos filhos. A educação é da família, a escola é alfabetização, o complemento, então não tem que ter culpa não, viu Rita?

Mariana Arantes, doutora e mestra em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco e criadora do Portal Educação Emocional.

Blog: E qual é a dica que você dá para esses pais que optaram por manter as crianças em casa?

Mariana: A primeira coisa é prestar atenção na qualidade do lazer dessa criança e adolescente. O eletrônico é, sim, uma alternativa. Pode eletrônico todo dia?’ Pode. Mas pode eletrônico o dia inteiro? Não. Essa é uma regra bem simples de entender. Os eletrônicos ajudam, distraem, nos distraem inclusive, mas pode passar o dia inteiro na frente da televisão, no tablet, nos aplicativos?  Não, porque aí não vai ser saudável, nem para a saúde dos olhos, nem para a saúde da mente, vai gerar mais ansiedade, mais estresse, então essa é a primeira dica.

A segunda é prestar atenção nos sintomas de ansiedade, porque a ansiedade não tem um único sintoma e nem a criança ou adolescente vão externar isso com total clareza, não vão dizer ‘mãe, eu estou ansioso’, ‘mãe, eu estou rangendo os dentes à noite, eu estou sentido minhas mãos frias ou suadas’ ou ‘eu estou comendo menos, estou com uma falta de apetite, eu estou ansioso porque não estou indo à escola’. A gente não pode esperar que as crianças e os adolescentes digam isso para a gente com tanta clareza, porque isso é difícil inclusive para nós adultos percebermos, então cabe aos pais notarem os sinais, os sintomas físicos, a manifestação de uma pressão emocional na infância e na adolescência.

A partir disso, buscar ajuda de profissionais especializados, psicólogos, terapeutas interativos e propiciar momentos de lazer em família. Aqui em casa a gente passou um período na pandemia onde a gente ficou muito isolado e a gente tinha ‘a semana do quebra-cabeça’, depois ‘a dos jogos de tabuleiro’. E na medida do possível descer de máscara, ir dar uma volta para passear com o cachorro, respeitando o isolamento. Outra coisa muito importante: distanciamento social não é isolamento afetivo, nós podemos e devemos continuar conectadas às pessoas que nós amamos, que são importantes para a gente, mesmo mantendo o distanciamento social, e aí vale tudo, vale ligar, fazer videochamada, fazer um vídeo engraçado, vale escrever uma carta e mandar, à moda antiga pra ver em quanto tempo chega, vale passar de carro e deixar um presentinho, fazer um amigo secreto das pessoas que estão isoladas.

A pandemia é um momento difícil para todo mundo, então os pais podem e devem dizer para as crianças e para os adolescentes assumirem isso, ‘olha, não é fácil, eu também não tenho todas as respostas, eu sei que o seu amiguinho está indo, mas na nossa família, essa decisão é assim. A gente tomou essa decisão porque a gente acha que para a nossa família vai ser melhor’.

Blog:  E os professores? Eles também estão passando por todos esses desafios e eu queria falar um pouquinho sobre eles. Tem professor que não teve escolha, teve que voltar para o trabalho e está vivendo todos os dilemas que a gente já conversou porque também é pai e mãe. Como está a saúde mental deles e como eles podem nos ajudar nessa empreitada que é ajudar a cuidar dos nossos filhos se não estiverem totalmente bem? 

Mariana: Essa pergunta é muito difícil de responder, porque a gente já estava numa situação em que professores não trabalhavam com total tranquilidade e em ambientes favoráveis antes da pandemia, não se pode tapar o Sol com a peneira e dizer que a educação estava ótima, porque não estava. E os professores, como você bem lembrou, também têm família e a maior parte do corpo docente no Brasil, principalmente na educação básica, é formada por mulheres. São mulheres-mães que também têm os mesmos problemas que nós temos para ir trabalhar, por isso temos que olhá-las com mais empatia e com preocupação também, fazer perguntas  que parecem óbvias, mas que não são.

A gente viu assim muitas famílias cobrando os professores assim ‘ah, eu mando mensagem para o Whats App da professora e a professora não responde’. Mas como é que está essa professora? Sabe, será que ela tem tempo de olhar as mensagens? Os educadores, tanto quanto os profissionais de saúde, passaram por mudanças significativas, extremamente significativas, porque não foi só trazer o trabalho para dentro de casa, o modo de dar aula também se modificou e os professores não foram preparados para isso. Os professores já tinham muitos problemas de saúde mental e emocional, a  gente já tinha um quadro de burnout, esgotamento físico e mental, de adoecimento por transtornos de ansiedade, por depressão antes da pandemia, quando eles trabalhavam com aqueles recursos que já estavam acostumados, da forma que estavam fazendo ao longo dos anos. Imagine com tanta mudança, como essas mudanças reverberaram no professor?

E o que eu tenho a dizer para pais e professores aliviarem um pouco é que eu acho que a Educação tem uma grande oportunidade nas mãos: repensar o ensino que nós estamos dando para as nossas crianças. Será que vale a pena ser tão ‘conteudista’ ou aprender a lidar com ansiedade, aprender a esperar, a ter paciência, a ouvir, adquirir habilidades como essa não farão total diferença daqui para a frente?

Blog: Agora para encerrar, ainda falando de saúde mental. No começo da pandemia a gente ouvia aquela frase cor-de-rosa: “Ah, a gente vai sair muito melhor disso”. O que você acha, depois de 1 ano e meio, a gente vai sair melhor disso ou a gente vai sair bem machucado?

Mariana: Todo mundo na pandemia teve aquele momento de ‘ai graças a Deus vou ter um período de folga que eu sempre sonhei’. Eu sou otimista por natureza, mas eu também sou muito pé no chão, eu acho que a pandemia nos deu uma oportunidade de repensar as nossas ações e as nossas escolhas e de perceber que as nossas escolhas determinam a nossa qualidade de vida. E qualidade de vida não é poupança, qualidade de vida é para hoje. Como eu estou vivendo hoje? A gente precisa parar com essa cultura de ‘ah, quando eu me aposentar’ ou ‘quando meus filhos estiverem grandes eu vou fazer isso, vou viajar e tal’ porque a gente joga esse viver bem, essa qualidade de vida para um futuro que a gente nem sabe quando vai ser.

A pandemia tem nos mostrado que talvez esse futuro não aconteça da forma que a gente sonha e deseja. Então, a gente está vendo pelas pesquisas que tem muita gente saindo pior em termos de qualidade de vida, de saúde mental, com mais transtornos de ansiedade, estresse e depressão. Mas a gente também pode olhar para tudo isso como uma oportunidade de repensar as nossas escolhas e rever as nossas atitudes. Quem é que na pandemia não percebeu que vive com menos, menos roupa, menos sapatos, menos saídas aos restaurantes, quem é que não descobriu novas habilidades? Acho que muita gente teve essa oportunidade e por que não implementar isso no dia a dia? E por que não perceber que qualidade de vida, bem-estar é para hoje? Eu acho que qualidade de vida e bem-estar não é uma poupança e algo que eu coloco lá para retirar no futuro. Todo dia importa, todo dia a gente precisa viver bem. Saúde mental não é recuperar-se de alguma doença, saúde é não adoecer, e para isso a gente precisa implementar novos hábitos.

Transcrição e apoio: Lucca Cerf Costa.

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