Catarina nasceu de 5 meses e com apenas 505 gramas

Quando a fotógrafa Marina Brancaglion, 34, viu-se grávida, não imaginava o desafio que teria de enfrentar. Quando os enjoos finalmente passaram e ela começava curtir a gravidez, foi surpreendida pela pré-eclâmpsia, um perigo durante a gestação e uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil. Foi internada no quinto mês de gravidez e avisada que iria ficar no hospital, sob monitoramento, até o nascimento da filha. Depois de sua pressão chegar a 21 x 13 e uma série de exames apontarem que ela e o bebê corriam risco, o parto teve de ser feito e Catarina nasceu com apenas 505 gramas, aos cinco meses de gestação. “Ela era muito pequeninha, muito pequeninha mesmo”, lembra Marina, emocionada. “Estatisticamente, as crianças que nascem de 25 semanas tem apenas 15% de chances de sobrevivência. E como não deu tempo nem de tomar corticóide (para ajudar os pulmões do bebê), suas chances eram ainda menores”, conta.

Marina se tornou uma “mãe de UTI”, expressão comumente usada para definir as mulheres que assistem seus filhos lutarem pela vida em uma incubadora, muitas vezes sem sequer poder pegá-los no colo para dar carinho ou amamentar. As mães de UTI passam dias do outro lado da redoma, às vezes meses, como no caso de Marina, vendo os filhos lutarem pela vida entre tubos, sondas, alarmes e fios. Catarina foi para casa cinco meses depois do nascimento graças ao atendimento domiciliar disponibilizado pelo convênio, já que a menina precisa de suporte de oxigênio 24 horas por dia, necessidade que pode dispensar em breve graças à fisioterapia respiratória que faz três vezes por semana.

Se Catarina tem superado todos os desafios impostos pela vida nos últimos sete meses, Marina ainda guarda marcas do que passou na UTI neonatal do hospital onde deu à luz. Tudo o que via e sentia era anotado em um caderno, uma forma de processar o que estava acontecendo. “À medida que a Catarina foi sobrevivendo e surpreendendo todo mundo, à medida que eu fui vendo que ela era uma criança super resiliente e forte, sempre que acontecia alguma coisa que me deixava triste ou revoltada eu escrevia. Escrever sempre foi um hábito que eu tive, meio que para organizar o que estava acontecendo. Aí eu fui escrevendo e chegou num ponto que eu achei que dava um texto”, explica. “Eu fiquei pensando como eu poderia contribuir não só com outras mães que inevitavelmente iam passar por isso – dez por cento de todas as crianças nascem no mundo são prematuras – mas também com os funcionários (da UTI). São pessoas que, assim como eu, estão lidando com a ideia que o bebê que eestá ali ao lado não vai sobreviver, porque tem um dano cerebral grave. É difícil conviver com essa realidade. E se eu que sou mãe de paciente fiquei sem apoio emocional, quem é funcionário tem menos ainda”, explica.

A fotógrafa Marina Bracaglion: Ela só conseguiu pegar a filha no colo depois de 35 dias do nascimento

O texto de Marina foi publicado em sua página no Facebook (a íntegra está no final deste post). Dizia o quanto ela era grata por sua filha ter sobrevivido sem sequelas, mas também apontava falhas no atendimento e como muitas coisas poderiam ter sido feitas de outra forma. “Eu sou grata pela sobrevivência da Catarina, mas eu não acho que a minha gratidão é suficiente para eu não enxergar, para achar que (na UTI) é tudo perfeito. Não é porque eu sou grata que eu não posso achar que o atendimento precisa melhorar”. Marina conversou com o blog entre uma soneca e outra da filha.

Blog:  Você conseguiu fazer uma análise muito propositiva de como esse atendimento na UTI neonatal pode melhorar. Como você fez isso, foi no dia a dia? Como foi a construção desse olhar na rotina da UTI para você?

Marina: A princípio eu estava escrevendo para mim, à medida que o tempo foi passando eu decidi que ia publicar. Eu coloquei no Facebook, mas me causou um cansaço emocional tão grande, eu já estava com a Catarina em casa, um bebê que requer cuidados porque está em atenção domiciliar. Eu nem cheguei a publicar no meu Instagram. Em geral a resposta foi muito positiva – coordenadores de UTI até de fora da minha cidade entraram em contato comigo dizendo que fizeram reuniões para observar alguns pontos do que eu escrevi e fizeram mudanças estruturais. Muitas pessoas da área da saúde entraram em contato comigo, professores de faculdades de enfermagem e medicina, pedindo autorização para usar meu texto nas aulas.

Blog: E teve alguma repercussão negativa?

Marina: Teve. Um médico desmarcou uma consulta da Catarina e o hospital (onde a bebê ficou internada) se sentiu agredido, dizendo que o texto falava a respeito deles. E eu tomei muito cuidado no que eu escrevi, antes de publicar meu marido teve receio de que pudesse ter alguma repercussão legal pra gente. Eu conversei com dois amigos advogados que me orientaram a mandar o texto pro hospital e dar um prazo de pelo menos dez dias para eles responderem pra gente. Era o mínimo que eu podia fazer: mandei e esperei por doze dias. Não tive nenhum retorno. Quando o texto foi publicado e começou a repercutir, aí o hospital me ligou e quis marcar uma reunião para me acolher. Para mim era muito complicado, a minha rede de apoio é pequena, todos ficam apavorados em cuidar da Catarina porque ela usa oxigênio. Eu não posso me afastar muito tempo de casa e disse isso a eles. A pessoa que ia me atender no hospital só podia um certo dia e horário, era completamente impossível para nós.

Blog: E por que você acha que houve essa repercussão negativa entre os profissionais de saúde que te atenderam?

Marina: E muito difícil você questionar a classe médica. Mas eu não questionei, sugeri mudanças. E mesmo assim eles se sentiram atacados. E eu não falei nada de médico, de enfermeiro, de fisioterapeuta, de técnico de enfermagem. Eu falei de uma questão estrutural: esses funcionários têm que ter treinamento para lidar com essas famílias. Eu acho que quando você monta um hospital você tem que pensar na estrutura física, tem que separar essa pessoa que acabou de ter um bebê prematuro de quem teve o bebê a termo. Na enfermaria em que eu estava eu fiquei ao lado de uma mulher que teve gêmeos, que ficaram apenas algumas horas em observação. Ela estava completamente sem lugar, porque eu não parava de chorar, eu não estava vivendo um momento alegre da minha vida, eu estava apavorada com a minha filha, que tinha nascido super frágil. Eu estava vendo todas as coisas que eu planejei desmoronarem na minha frente. E todo mundo que vinha me visitar estava tenso, enquanto ela estava em um clima de festa. Falta sensibilidade até nisso. O acolhimento aos pais pode ser diferente, tem que ser diferente.

Blog: Como foi a sua chegada à UTI?

Marina: Eu só pude ver minha filha no dia seguinte ao nascimento e a médica me disse coisas que ainda não estava pronta para ouvir. Disse que minha filha era prematura extrema, que nasceu muito antes da hora e que era muito difícil que sobrevivesse, mas que iam fazer tudo para salvar a vida dela. Ela me também me falou muitas coisas técnicas que eu não entendi muito, só compreendi depois porque eu li sobre o assunto, sobre as sequelas que ela poderia ter, como poderia ser o desenvolvimento dela. A primeira abordagem tem que ser essa, eu sei, mas ela podia ter me sentado, perguntado como eu estava, porque eu ainda estava com a pressão alta. A primeira abordagem tinha que ter sido feita por uma psicóloga, na verdade faltou uma psicóloga já no quarto onde eu estava, eu fiquei em um canto em observação, do lado de mulheres que tiveram o bebê no tempo certo, que estavam com o filho ao lado. Passava um médico, enfermeiro, eu perguntava ‘como é que está a minha filha?’ e eles falavam ‘ah, eu não sei te informar’. E eu fiquei umas quatro horas em observação.

Blog: Sua filha passou por muita coisa, mas você já conseguiu processar tudo pelo quê você passou?

Marina: Eu não vi nada do momento do nascimento, eu só vi a Catarina no dia seguinte, meu primeiro contato com ela foi alguém me apontando a incubadora depois que eu me identifiquei, ‘olha, ela tá ali’. Eu só peguei minha filha no colo 35 dias depois do nascimento. A UTI é o lugar onde os pais se descobrem pais. A Catarina nasceu de cinco meses e eu me descobri mãe lá dentro. É difícil você pegar no colo um bebê que está ligado a um milhão de aparelhos, contar histórias quando você está em uma ambiente aberto com todo mundo te olhando. E as pessoas comentam, fazem piadinha, a interação fica um pouco restrita. Ela é minha filha, eu sou apaixonada por ela, eu tenho uma consciência de que ela é minha filha. Mas no meu emocional é meio bagunçado isso. Tem muita coisa que eu só vou poder resolver na terapia. No período em que eu fiquei lá mais quatro crianças nasceram prematuras como a Catarina. Nenhuma delas sobreviveu.

Blog: E você não acha que acha que é por isso que os funcionários da saúde que trabalham em UTI neonatal mantêm essa distância de pacientes e familiares?

Marina: Sim, é por isso que se mantém essa distância, as pessoas ficam endurecidas. Então conforme eu fui escrevendo e lendo os relatos de outras pessoas eu ia chegando a conclusão que aquelas pessoas que assistem a óbitos de várias crianças têm uma vida muito sofrida. Eu comecei a me ver fora da curva porque minha filha não tem nenhuma sequela, sobreviveu a um parto com apenas 25 semanas, eu estou agradecida, eu sou grata pela sobrevivência dela, mas eu não acho que a minha gratidão é suficiente para eu não enxergar, para achar que (na UTI) é tudo perfeito. Não é porque eu sou grata que eu não posso achar que não precisa melhorar.

Blog: Como está a Catarina hoje, sete meses após o nascimento?

Marina: Ela foi para casa por uma escolha minha e ainda faz uso de oxigênio, não consegue respirar o ar ambiente, precisa de um ar mais concentrado de oxigênio, tem displasia broncopulmonar, causada pelo muito tempo de ventilação mecânica.  Ela também faz acompanhamento com muitos especialistas, faz fisioterapia três vezes por semana. Nos 155 dias que ficou internada, Catarina enfrentou problemas respiratórios, duas paradas cardíacas, retinopatia da prematuridade, três infecções generalizadas – a temida sepse – uma hepatite e uma hemorragia cerebral grau 2 – se fosse grau 3 deixaria sequelas. A Catarina ‘bateu na trave’ quando estava na UTI, ela ficou entre a vida e a morte várias vezes, mas deu conta.

Blog: Catarina é uma mulher-maravilha, não?

Marina: Sim (risos).

Leia agora o texto de Marina, na íntegra. (*O único trecho omitido foi o nome do hospital onde Catarina ficou internada).

Minha filha Catarina nasceu de 25 semanas de gestação e 505g.

Foram 155 dias de UTINeo.

Os médicos que a acompanharam eram altamente capacitados, a equipe experiente, os exames rápidos, os recursos abundantes. Minha filha, que nasceu em condições pouco otimistas, foi salva por esse competente time. Para esses profissionais, toda a minha gratidão.

Ter um filho que pode não sobreviver, pode ter sequelas, não tem os órgãos completamente formados, em que não se pode tocar, não se pode pegar no colo, não se pode acalmar quando chora… não é nada fácil. As pessoas que não vivem isso dificilmente conseguem entender a complexidade dos sentimentos dos pais de UTI. As incertezas, a falta de prazo, a falta de respostas, os medos e paranoias.

Apesar da longa estadia, sempre me senti uma invasora, um incômodo, não bem-vinda quando estava dentro da UTI. A falta de acolhimento, grupo de apoio, empatia e sensibilidade foi a parte mais difícil deste processo para mim. A solidão de ser uma mãe de UTI deixou marcas mais profundas do que o parto prematuro e o medo de perdê-la somados.

Em diversos momentos, tentei me colocar no lugar dos profissionais que lá trabalham. A rotina, longos plantões, pouco descanso, as perdas, o apego, as notícias difíceis, a gravidade dos quadros e a convivência com pais em puerpério e estado emocional alterado. O entendimento das dificuldades deles me levava ao esforço. Esforcei-me diariamente para aprender nomes, saber mais sobre aquelas pessoas, ser agradável, calma, compreensiva e grata durante essa jornada.

Sem dúvida, houve anjos, pessoas pacientes, cuidadosas, atenciosas e até carinhosas. Mas também fartura de comentários maldosos, irônicos, piadinhas, falta de sensibilidade, de bom senso, de empatia, de paciência. Ter respeito pela dor dos pais e pela forma como eles lidam com a situação vivida não me pareceu ser uma preocupação da instituição.

Conto um pouco da minha experiência a fim de trazer luz sob o tema acolhimento e escrevo sobre mudanças que podem acontecer dentro da UTI que fariam uma grande diferença para quem é de fora. Mudanças que podem contribuir para a cura dos pais e para que sejam transmitidos amor, calma e coragem aos bebês ainda internados.

– Valores Humanizados: Não deveria haver lugar para rir da dor e julgar a forma como lidamos com um momento tão delicado. A Neonatologia deveria promover e estimular o vínculo do recém-nascido com a família. Foram muitos desrespeitos, grosserias e deslizes. Não irei enumerá-los aqui ou dissecar o assunto, apenas sinalizo: há muito a melhorar.

– O primeiro contato com a UTI: Os pais deveriam ser recepcionados na unidade por um psicólogo (no meu caso, nem no quarto/pós-parto houve a visita de tal profissional). Além da falta do apoio emocional, explicações do que acontece em uma UTI – como funciona a rotina, o que são os equipamentos, qual profissional chamar, o que é permitido fazer e o que é proibido naquele espaço – teriam sido úteis. O meu marido recebeu um papel no primeiro contato. Eu, nem isso. Admiro o ser humano que teve um filho 15 semanas antes do previsto, preocupado com o bebê correndo risco de vida, e consegue ler instruções.

-Psicólogo: Nem sempre temos energia para procurar tal profissional frente à agressividade dos acontecimentos. Pais têm uma tendência a pensar que precisam cuidar dos filhos, e que os próprios sentimentos não são prioridade. Um profissional qualificado, com formação específica no enfrentamento da prematuridade, luto, sequelas, que esteja presente, inteirado do quadro, das evoluções e complicações, dando suporte nas notícias e mediando conflitos, teria feito uma enorme diferença no meu caso.

– Flexibilidade: Apenas os pais da criança podem entrar na UTI. O pai da Catarina precisou trabalhar durante a maior parte do período de internação. Logo, a maioria das notícias foi escutada por mim SOZINHA. Muitas vezes eu precisei de colo, abraço, companhia. E não tive. Eu ia ao hospital sozinha de dia e com ele à noite. Não era possível substituí-lo nas visitas do dia sem excluí-lo das visitas da noite. Num certo momento, a Catarina teve uma grave piora. Minha mãe foi ao hospital comigo e, mesmo estando vivendo um dos piores dias da minha vida, eu tive que me expor e implorar para que a entrada dela no prédio fosse permitida. Detalhe: eu não pedi para que ela visitasse a neta. Foi necessário conversar com 4 pessoas diferentes para conseguir que a minha mãe esperasse por mim na porta da UTI. Essa regra me parece extrema.

– Visitantes: Minha mãe e sogra puderam conhecer a Catarina no dia das mães. Somente nesse dia. Poder dividir aquela realidade com alguém, além do meu marido, foi um alívio maravilhoso e revigorante. Em internações longas como a dela, as exceções deveriam existir de forma mais frequente. Às vezes, permitir uma visita no mesversário da criança melhoraria o astral dos pais.

– Comemorações: Muito foi dito sobre os riscos de morte, de sequelas, e sobre as pioras da minha filha durante a internação. NADA foi comemorado. Algumas UTIs Neo ao redor do mundo usam plaquinhas: “Hoje eu ganhei peso pela primeira vez”, “Saí do tubo”, “Tomei o meu primeiro banho”, “Pesei mais de 1 kg”, “Completei um mês de vida”… É simples, barato, e dá a sensação de progresso, de vitória, e principalmente de apoio, de que não se está sozinho. Mas tem que haver um real envolvimento. Dizeres comemorativos de mesversário não podem permanecer esquecidos por semanas no leito. A torcida tem que ser verdadeira.

– Grupo de apoio: Simplesmente deveria existir. Conversar com quem entende a nossa dor alivia o sofrimento. Nada melhor do que a sensação de pertencimento quando se está perdido. Na falta de recursos, é possível um sistema de apadrinhamento. Tenho certeza de que muitos casais que já passaram pela internação de um filho estão dispostos a conversar e acolher com carinho os novos entrantes neste universo.

– Exemplos: Assim que a Catarina nasceu, eu procurei exemplos de bebês tão novos e tão pequenos que sobreviveram sem sequelas. Li livros de casos brasileiros e estrangeiros, entrei em grupos de prematuridade no Facebook, comecei a seguir hashtags no Instagram. Foi quase um vício. A esperança que exemplos bem-sucedidos trazem é maravilhosa. A falta de referência dentro do hospital é devastadora e difícil de entender, já que são tantos os casos de sucesso. Existe um mural com fotos recebidas dos bebês já com alta, mas parece destinado apenas aos funcionários. Além de ficar em uma área de acesso ruim para os pais, não tem explicações ou nada que conte a trajetória da criança. Eu gostaria, sim, que a equipe que cuidou da Catarina acompanhasse o seu desenvolvimento, se orgulhasse das vitórias dela, mas, mais do que isso, quero que a história dela aqueça o coração de outros pais. Que a trajetória dela inspire palavras de confiança como as que um dia eu disse em cima de uma incubadora.

– Primeiros Cuidados: É difícil administrar a ansiedade quando se espera meses pelo primeiro colo, banho, roupa, choro… Houve pouca liberdade para a minha interação com a Catarina. Eu queria cantar, contar histórias, fazer carinho, mas o ambiente não era propício. Eu gostaria de ter tido apoio, e sido mãe de primeira viagem sem ter me sentido julgada pela inexperiência e insegurança. Os cuidados deveriam ser mais calorosos, confortáveis, claros e didáticos. A UTI além de uma unidade de tratamento intensivo, também é o local em que muitos casais se descobrem pais. Sugiro começar permitindo que se beba água quando se faz um canguru de 3 horas.

– Recepção da UTI: A UTI é uma constante espera. Pelo fim de um procedimento, pelo horário do banho, do canguru, da abertura da unidade, do boletim médico, pelo fim de uma cirurgia. Viver dia após dia essas incertezas cercados de pessoas que estão eufóricas com o nascimento de um bebê saudável a termo é cruel. É impossível ignorar os fotógrafos, balões, telefonemas, e os abraços alegres. O nascimento da Catarina foi coberto de lágrimas, preocupação e medo. Presenciar diariamente o “como deveria ter sido” foi um exercício doloroso.

– Lactário: Tirar leite para um bebê que você não sabe quando vai sentir o cheiro ou beijar é difícil. Por questões de higiene, a dieta do bebê só pode ser tirada no espaço apropriado do hospital. O estresse do risco de morte nos primeiros meses da Catarina levou o meu leite a secar. Somado a isso, as vezes em que eu estive no lactário nunca coincidiam com a presença da estagiária que deveria me auxiliar na ordenha. Os horários restritos de funcionamento e entrega das dietas me pareciam confusos e não foram elaborados pensando nas mães, que têm suas casas e precisam se deslocar até o hospital. E, para completar, a falta de um grupo de apoio e suporte psicológico sobrecarregava a sala de ordenha. Lá no lactário as mães têm a privacidade necessária para desabafarem. Estão longe da equipe, dos filhos, dos maridos, e não precisam ser fortes. Choram. Falam coisas raivosas. Confidenciam os medos, contam sobre as relações desgastadas com os profissionais. O clima ruim daquela sala foi o pior inimigo do meu leite materno.

– Cadeiras: A UTINeo possui 28 leitos e apenas 6 poltronas disputadíssimas para amamentação e canguru. Acredito que seja o mínimo exigido por lei. Além dessas, há carteiras escolares com os dizeres “Para uso exclusivo dos profissionais”. As notícias difíceis foram dadas em pé. A espera pelo boletim médico também em pé. As palavras de motivação que eu disse para ela. As lágrimas que eu segurei. Tudo foi em pé. Não é à toa que eu não me sentia bem-vinda na UTI.

– Silêncio: Mesmo que breves e em tom baixo, as interações entre pais eram interrompidas por pedidos, geralmente grosseiros, de silêncio. Surpreendia-me ter palavras de conforto e apoio tão frequentemente reprimidas. Eu sempre soube da importância do silêncio para o bem-estar da minha filha, e realmente gostaria que os exageros não existissem. Todavia, os pedidos a pais me pareciam injustos, uma vez que comumente membros da equipe conversavam em voz alta sobre assuntos pessoais, riam e brincavam sem a mesma rigidez. Dava-me a impressão de que o barulho era permitido, proibido mesmo era pais que se apoiam. Muitas vezes me disseram que uma mãe ansiosa/revoltada contamina todo o grupo. Mas não se esqueçam de que uma mãe forte e esperançosa também tem este poder. Foi me sentir compreendida por outras mães o que me sustentou de pé nesta trajetória.

– Equipe: Saber quem faz o quê, quem é responsável pelo bebê, quem está de plantão. Essas informações me traziam conforto. Seria útil se instalado nos leitos um quadrinho, como o existente nos quartos, com os nomes dos profissionais daquele turno. O comum era as pessoas chegarem sem aviso, abrirem a incubadora e não se apresentarem. A maioria dos nomes que eu aprendi, foi porque perguntei: “Como você se chama?”; “O que você vai fazer com a Catarina?”. Seria educado um: “Oi, eu sou a fulana enfermeira/médica/fisioterapeuta, vou medir a temperatura dela/ trocar a fralda/ medir a pressão/ colher sangue/ aspirar/ examinar”. Os procedimentos são importantes e necessários, porém, observar que as pessoas podem fazer o que quiserem com o seu filho sem a sua permissão ou conhecimento fazia com que eu me sentisse impotente, às vezes até inexistente. Incluir os pais é essencial.

– Sala dos pais: Os pais de longas internações não estão internados no hospital. A falta de infraestrutura para nós é cansativa. Cortava o meu coração saber que haviam mães que comiam marmita fria no escuro da escada de incêndio, ou abrir a porta do banheiro e encontrar alguém chorando sentada no chão. Em minhas pesquisas sobre prematuridade, descobri que vários hospitais contam com uma sala destinada aos pais de UTI. A existência desse espaço resolveria muitas das questões que eu citei aqui. Aumentaria a sensação de pertencimento e acolhimento. Melhoraria o clima do Lactário, daria privacidade para as orações, além de eliminar o compartilhamento da recepção com o bloco.

– Higiene: A internação da Catarina me deixou muitos traumas. Foram 2 paradas, 2 cirurgias, 7 transfusões, 3 sepses, um exame positivo de Hepatite A e uma queimadura acidental. Além destes, o fato de em alguns momentos os profissionais realizarem procedimentos na minha filha não estando paramentados por luvas, touca e máscara, também a presença de unhas compridas, de gel, com apliques de strass, e o constante uso de celulares, causavam-me muita insegurança e desconforto. Essa era uma preocupação comumente dividida por pais na porta da UTI. Para apaziguar a minha ansiedade, solicitei uma reunião com o coordenador do local e relatei o estresse que a situação causava em mim. Não é a minha expertise, e nunca duvidei que os procedimentos estivessem dentro das normas de higiene, mas, frente ao pedido, acredito que cuidados extras podiam ser tomados. Ou ao menos uma atenção dada. Na ocasião, prometeram um retorno que não aconteceu. Após essa reunião, alguns funcionários passaram a me olhar de cara feia. Então, além de enfrentar a minha insegurança, tive que lidar com a raiva alheia.

Os itens listados aqui têm objetivo construtivo. A fim de que essa excelente instituição seja cada dia melhor e que os cuidados com os pais sejam integrados e reconhecidos como parte importante do cuidado ao bebê. Que o acolhimento às famílias e ao psicológico abalado seja levado em consideração no processo evolutivo da internação.

Tentei não me esquecer que o hospital é uma empresa com fins lucrativos, que a UTI é gerida por uma terceirizada com os mesmos fins, que os funcionários são seres humanos passíveis de falhas e que os recursos financeiros são limitados e geralmente provenientes de planos de saúde.

A prematuridade é um assunto sério e pouco conhecido por mim antes desses 155 dias. Segundo a OMS, 10% dos bebês do mundo nascem antes do termo. Eles são responsáveis por 35% dos gastos com saúde e por 80% da mortalidade neonatal. 1 em cada 5 pais de prematuros consideram o suicídio. Eu sou uma das sortudas, chamadas nos grupos de prematuros de “mães de milagres”. Acho milagre uma palavra inadequada e que não dá o crédito à minha pequenininha de coragem e vontade de viver gigantes. Defino-me como mãe de alguém muito muito muito forte (praticamente superpoderes!) e privilegiada por ter acesso a uma instituição com tantos recursos e profissionais excelentes. O hospital possui vários funcionários incríveis, calorosos e humanizados, que realizaram esforços individuais de acolhimento ao que eu vivi. Ressalto mais uma vez a minha gratidão por esse time maravilhoso e meus votos para que as posturas de acolhimento se multipliquem.

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