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Por que é tão difícil conceber que a mulher do príncipe William teve um parto normal e foi para casa poucas horas depois? Talvez porque seja mais fácil acreditar em coisas surreais como a barriga de quadrigêmeos de um metro de diâmetro da grávida de Taubaté ou na história da criança que morreu enforcada por três voltas de cordão umbilical enrolado no pescoço contada pela “tia da prima da vizinha”. Eu fiz uma “enquete” entre minhas amigas no Facebook para saber quem teve um parto à la Kate Middleton e ajudar assim uma amiga jornalista de tv. Veja alguns dos depoimentos que colhi, mesmo não sendo sequer amiga de uma Orleans e Bragança:

“Eu me identifiquei. E olha que o meu foi parto natural em hospital público, super punk. Depois de 6 horas já estava de pé, no banho e cuidando da minha filha sozinha”, contou uma.

“Eu tive parto natural, mas em hospital, no mesmo horário da princesa Kate, às 8:30 da manhã! No mesmo dia tava tomando banho sozinha, almocei numa boa, fiquei perambulando pelo quarto e só não voltei pra casa porque não é praxe, porque vontade não me faltou”, contou outra.

Agora a história de parto de uma advogada amiga minha que seria capaz de deixar a própria Duquesa Kate com inveja:

“Eu tive dois partos domiciliares. No primeiro a Mariana * nasceu às 03h47hs de uma sexta-feira e às 11hs eu já estava no computador trabalhando, porque meu cliente teve o salário bloqueado e eu tive de fazer as petições para liberação. Já Pedro* nasceu às 13h15 de um sábado. Às 14h30 eu já tinha tomado banho quando fui comer e receber as visitas.”

Recebi, no total, mais ou menos vinte depoimentos parecidos. Ou tenho muitas amigas da realeza ou o que aconteceu com a Kate Middleton não é nada demais e só chama a atenção porque muitos não se dão conta que desde que o mundo é mundo os bebês sabem nascer e as mulheres sabem parir.

Um jornal russo foi longe na teoria da conspiração. Bem longe. O “Komsomolskaya Pravda” deu ouvidos à opinião dos leitores, esses especialistas em tudo, inclusive em obstetrícia. Uma mulher disse que Kate tinha parido há pelo menos três dias, outra concordava e jurava de pés juntos que a prova disso era o bebê “que não tinha cara de recém-nascido” e até uma hipótese de barriga de aluguel foi aventada. Kate teria usado uma “barriga falsa” (igual a da grávida de Taubaté?). Vamos bater palmas de pé para esses leitores cheios de criatividade da terra dos Irmãos Karamazóv. Aqui no Brasil também temos leigos cheios de opinião, criatividade e com muita experiência em ginecologia e obstetrícia. Dei uma passeada rápida no twitter e olha o que eu encontrei:

“Há rumores que a princesa Kate Middleton nem grávida estava”, sentenciou uma.

“Deve ter nascido uns dois ou três dias antes do divulgado. Existe um risco de complicações pós-parto”, opinou outra.

“Cheguei a pensar que ela usou barriga de aluguel, porque humanamente é possível estar assim após de cinco horas de parto”, especulou.

Muita gente destacou que Kate teve maquiadora, cabeleireira e figurinista à disposição e por isso estava linda. Claro que teve. Todas as celebridades levam seu staff para a maternidade, um membro da família real britânica não faria diferente. A discussão que proponho aqui nada tem a ver com  o cabelo escovado, a maquiagem suave ou o vestido bem escolhido da mulher de William (que deixava à mostra uma barriguinha pós-parto). Por que causa tanto frisson uma mulher ir embora caminhando horas depois de seu parto normal?

Se você chegou até esse ponto (ainda) duvidando que é possível parir e se sentir bem minutos depois, vamos a um depoimento pessoal. O trabalho de parto que trouxe meu filho ao mundo demorou dez horas. Quando fui para o quarto, depois dele nascer, estava me sentindo tão disposta que sentei em uma cadeira com as pernas cruzadas enquanto recebia algumas pessoas da família. A enfermeira chegou e não sabia quem era a “paciente”, já que eu estava fora da cama, papeando animadamente e com um pijama preto que parecia uma roupa de passeio. Ela perguntou para o padrinho do meu filho, sentado ao meu lado: “A mãe está no banheiro?”. Ele deu um tapa orgulhoso no meu braço, dizendo: “A mãe é ela!”. A enfermeira, estupefata e feliz, logo me propôs um desafio: “Vá dar um passeio pelo corredor para mostrar ao mundo como é bom o parto normal!” Eu ri e só agora me dei conta que Kate foi quem fez essa caminhada, por todas as mulheres e ao vivo para o mundo.

*O nome das crianças foi trocado para dar destaque ao fato, e não aos personagens

PS: Você que fez cesárea não é “menos mãe” que a Kate. Todos sabemos que essa cirurgia, quando bem indicada, salva vidas.

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