Praia

Lembra quando você estendia sua canga na areia, tomava sol de frente, depois de costas, ouvia música ou colocava a leitura em dia deitada na praia, sem compromisso com nada? Esses dias ficaram em um passado distante, que não volta mais. Quando os filhos nascem, mas ainda são pequenos, conseguimos manter tudo relativamente em paz e ‘sob controle’ na praia. Eles não andam, têm medo do mar e se contentam com uma piscininha inflável perto da gente. Você consegue até contemplar a beleza daquela cena – até que o combo calor/areia/fome chega, desestrutura tudo e pede uma intervenção rápida. A dupla baldinho e pá também faz com que projetos imponentes como castelos gigantes de areia ganhem forma, mas sempre debaixo do nosso guarda-sol.

Mas depois que nossos filhos aprendem a andar e perdem o medo do mar, você nunca, nunca mais, poderá contemplar o pôr do sol pelo tempo que gostaria e tirar um cochilo despreocupado será impossível, tamanha a carga de adrenalina que uma praia lotada pode disparar na nossa corrente sanguínea de mãe e pai de seres caminhantes e desbravadores. Se a praia com filhos bebês era sinônimo de dengo e descobertas, com crianças maiores vira um campo minado, um lugar onde tudo (tudo mesmo) pode acontecer em uma fração de segundos, não ouse se distrair – se piscar não respire, se respirar, não pisque.

Meu filho decidiu que queria ir à praia minutos depois que a gente chegou ao litoral. O pai estava cansado da viagem, os irmãos dele, meus enteados, trocaram o mar por um cochilo, então fomos nós, só nós dois, para a praia mais perto de onde estávamos hospedados.

Mal deu tempo de encarar a primeira luta – a de encontrar espaço na areia para o guarda-sol, a cadeira e a bolsa lotada com produtos de primeira necessidade, como protetor solar, toalha, troca de roupa, frutas, água e dinheiro para o sorvete – e me dei conta que meu filho já corria para o mar, seu novo melhor amigo. Em poucos minutos percebia que tinha me metido em uma enrascada sem precedentes: a de encarar a praia sozinha com uma criança. A maré puxava o guri para a direita, para a esquerda, para o fundo. Joguei tudo na areia para gritar e gesticular como aquele cidadão que ajuda os aviões a estacionarem no aeroporto, vem mais para a esquerda, filho, mais, mais, aí tá bom. Fica aí! Não saia daí!  Ao abrir a cadeira vi que a maré já tinha puxado ele para o lado,  filhoooooo, venha mais para o raso! Para o rasoooooo! Uma rápida olhadinha ao redor para reconhecer o ambiente e vi um marmanjo empinando uma pipa na areia, todo empolgado, porque iria ‘cortar’ outra pipa. Meu Deus, A LINHA DELE TEM CEROL, gritei. Meu filho correu em minha direção, achando que o papo era com ele, e estava pronto para passar debaixo daquela linha mortal.  Não, filho, vamos ficar longe dessa pipa, a gente pode se machucar. O guri voltou para o mar e só deu tempo de gesticular para o salva-vidas e avisar que o marmanjo em questão poderia, em breve, cortar a cabeça dos banhistas mais desavisados. (A vontade era de chamar a polícia, mas quem vai sozinha com o filho à praia lotada não pode nem se dar ao luxo de discar 190 já que a correnteza está lá, puxando o guri para os lados e para o fundo, de novo.)

Sabe aqueles carrinhos de sorvete, milho, açaí, pizza e churrasquinho que nunca aparecem quando você está na praia, sozinha e morrendo de fome? Eles estacionarão sempre na frente da mãe solo, aquela que mal consegue piscar e respirar de forma sincronizada, com medo de perder a próxima batida da onda. Casais de namorados também escolhem dar aquele beijo caprichado em uma angulação que a impede de ver que seu filho, veja só, tomou um caldo e está lá, tentando cuspir todos os litros de água salgada que engoliu. (Nessas horas aquela Coca-Cola proibida o ano inteiro é mais do que bem-vinda. Se desentope pia, pode destruir tudo de ruim que entrou no corpo do seu filho junto com a água do mar – oremos).

Duas horas depois, o sol que começa a cair no horizonte é a sua deixa para ir embora. Vai escurecer, filho – você mente, fingindo não lembrar que o horário de verão garante pelo menos mais uma ou duas horas de diversão para ele e de inferno para você. Ao redor, a praia continua cheia. Amanhã tem mais, promete, enquanto jura para si mesma que só se aventura no dia seguinte se tiver a presença do pai, dos irmãos, dos tios, do avô e de todos os braços e olhos disponíveis.

Segundo dia de praia e agora são os adolescentes que se jogam no mar, sem medo de serem felizes, deixando o marido de cabelo em pé. Você pensa que sim, sempre pode piorar. O avô nos vê correndo cada um para um lado e instala o guarda-sol, as cadeiras, senta e abre sua latinha de cerveja, olhando calmamente o horizonte. Na praia só os avós estão tranquilos, pode reparar.

Leia mais: ‘Escola demais faz mal às crianças’, garante psicólogo português

Leia também: ‘Mas você aceitaria que seu filho fosse gay?’