Andrea foi "abandonada" pela obstetra quando insistiu no parto normal

Andrea foi “abandonada” pela obstetra quando insistiu que Clarice nascesse de parto normal

A professora Andrea Magnanelli, 35 anos, conta que Diana, sua primeira filha, nasceu de cesárea. Ela queria parto normal, mas foi convencida pela médica do contrário. “Estava fragilizada e aceitei”, lembra. Quando engravidou de Clarice, pouco mais de um ano depois, avisou à mesma médica do seu desejo de que o parto fosse normal. “O tempo foi passando e naquela que seria minha última consulta eu ouvi que havia chance de rompimento da cicatriz da cesárea, que a bebê estava grande, que se não agendasse horário não ia ter vaga na maternidade e até que, se fosse parto normal, ela não estaria aqui na data prevista”, lembra. “Eu disse ‘não’ pra cesárea. Não. Não. E as últimas semanas foram de uma briga praticamente solitária. Desta vez não abriria mão do meu parto normal”, lembra.

Em um sábado começaram os pródromos, aquelas contrações espaçadas que podem durar dias. Andrea mandou mensagem para a obstetra e foi para a maternidade. Voltou para casa porque o trabalho de parto ainda não tinha engrenado. Apenas na segunda-feira as contrações começaram a ganhar ritmo e o trabalho de parto realmente tinha começado. A mãe de Andrea ligou no consultório da médica, mas só conseguiu falar com a secretária. Já na maternidade, o plantonista conseguiu conversar com a profissional que tinha acompanhado Andrea durante todo o pré-natal. “Ouvi um lado da conversa. Ouvi que eu estava em ‘pré’ trabalho de parto. Que Clarice estava pronta pra nascer”, lembra. “O médico desligou o telefone e me disse: sua médica não vem”, lembra. “Naquele momento não percebi a gravidade daquela falta. Daquele abandono”, conta. Andrea conseguiu seu parto normal nove horas depois com a ajuda do plantonista e de uma obstetriz. “Eles me ajudaram, me fortaleceram e me elogiaram a cada passo”, lembra.  O médico que a apoiou e que ela até então nem conhecia hoje é seu ginecologista.  A obstetra que fez seu pré-natal e que não foi ao hospital nunca mais a procurou.

Graziella se recusou a marcar cesárea antes do carnaval e nunca mais foi atendida pelo seu obstetra. Foto: Gabriela Franzoni

Graziella se recusou a marcar a cesárea antes do carnaval e o obstetra nunca mais a atendeu. Nem pelo telefone. Foto: Gabriela Franzoni

O nascimento de Pedro, filho da corretora de imóveis Graziella Zanetti Richter, 34 anos, estava previsto para o meio do carnaval de 2013. Quando estava no sexto mês de gestação o obstetra insistiu para deixar a cesárea já marcada. Graziella não quis. “Falei para o médico que meu filho iria nascer quando fosse a hora dele”. Uma nova tentativa de marcar a cirurgia antes da folia também não foi aceita. As contrações começaram no meio do carnaval e o médico estava viajando. “O plantonista disse que até faria meu parto normal, mas que eu ia sentir todas as dores porque ele não ia me anestesiar”, lembra. Graziella se rendeu à cesárea e, quando procurou seu obstetra dias depois para um consulta de pós-parto, não foi recebida. “Ele não me atendeu nem pelo telefone”, lembra.

Thaís Silva insistiu e conseguiu seu parto normal. Mas a médica que a atendia não apareceu no hospital.

Thaís Silva insistiu e conseguiu seu parto normal. Mas a médica que a atendia não apareceu no hospital.

“A verdade é que não compensa para o médico ficar esperando a paciente entrar em trabalho de parto, que vai ser qualquer dia do mês. Não interessa para ele financeiramente perder um monte de consulta, um dia inteiro de consultório porque ele vai ganhar uma ‘mixaria’ do plano de saúde que não cobre esse dia inteiro que ele perdeu”, afirma a obstetriz Ana Cristina Duarte, uma das fundadoras do GAMA, Grupo de apoio à maternidade ativa. “Por isso quando a mulher não concorda com a cesariana que ele está indicando, marcada com antecedência para organizar a agenda dele, o médico prefere dizer para a mulher procurar outro médico ou o hospital”, completa.

Segundo o presidente da Febrasgo, Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Dr. Etelvino Trindade, o médico não pode fingir que concorda com parto escolhido pela mãe para depois “abandonar” a grávida no final. “Ele não é obrigado a fazer parto normal, mas isso tem de ser esclarecido desde o início, de preferência na primeira consulta do pré-natal”, afirma.

Foi o que fez o médico que atendeu a professora Thaís Silva, 27  anos. Logo na primeira consulta ele deixou claro que não faria o parto de Thaís pelo convênio, só se ela “pagasse por fora”. Thaís encontrou uma médica que disse que sim, que faria seu parto normal pelo convênio. “Mas no último trimestre de gestação ela começou a dizer que meu bebê era grande e que se ele não nascesse até a 40.a semana ela faria uma cesárea”, lembra. Thaís entrou em trabalho de parto com 38 semanas de gestação e, mesmo contactada, a médica não apareceu no hospital. “Não apareceu e nem ligou nos dias seguintes para saber se tinha dado tudo certo”, conta. “E o meu bebê ‘grande demais’ para o parto normal nasceu com apenas 2,5 kg”, lembra.

“Na relação médico-paciente, há vínculos que não podem ser quebrados. O paciente tem que confiar em seu médico”, afirma o presidente da Febrasgo. “Quando a informação não é clara, o que não deu a informação é passível de punição”, completa.

“Todo o sistema está errado. A atitude está errada e ela é baseada em um sistema que não funciona e não vai funcionar jamais”, explica Ana Cristina Duarte.  “A verdade é que essa conta não se fecha e o modelo vai ter que mudar. Se não mudar o modelo, pode esquecer que a gente vai continuar com essas altas taxas de cesarianas e as mulheres vão ter que continuar a brigar com seus médicos para ter um parto normal”, completa.

O Brasil é o campeão mundial de cesáreas: 52% dos partos são cirúrgicos, em média. Na rede privada 8 em cada 10 nascimentos são por cesariana, enquanto a OMS, Organização Mundial de Saúde, recomenda que sejam no máximo 15%.

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