TV Globo/Ramón Vasconcelos

Milton Nascimento é conhecido por sua timidez incorrigível, sempre disfarçada por bonés e óculos escuros, por sua dificuldade em se dirigir à plateia durante os shows e por seu absoluto silêncio sobre a vida pessoal. Mas foi ele quem pediu para falar sobre a adoção do filho, Augusto, 24 anos, me conta Pedro Bial, nos bastidores da gravação de seu programa na Rede Globo, que fui convidada a assistir semana passada. “A gente tinha vontade de falar sobre adoção, mas não sabia por onde, porque o programa não é jornalístico e sim de entretenimento, então a gente sempre pensa em como vai ‘entrar’ em determinado assunto. Aí no camarim, antes do programa com ele e com o Jorge Drexler (exibido no dia 13 de abril), eu vi o Milton e o Augusto, eu vi a relação deles e fiquei com aquilo na cabeça. Ai eu falei: “Milton, a gente tem que falar sobre adoção”. E ele concordou, ‘sim, sim, eu quero falar’. E daí quando eu tive a ‘deixa’ no programa, quando eu pedi para ele voltar e perguntei sobre o que ele gostaria de falar, ele falou: adoção”.

E foi esse tema que fez que Milton, figura bissexta nos palcos e nos programas de tevê, voltasse ao “Conversa com Bial” menos de um mês depois de sua última participação e para a edição que será exibida no próximo dia 25 de maio, dia nacional da adoção. Sua banda já ensaiava os primeiros acordes quando ‘Bituca’ entrou no palco, sem falar com o auditório, silenciosamente extasiado.  Começou a cantar a clássica “Bola de Meia, Bola de Gude” e logo lembrei que Elis Regina, paixão confessa do cantor, costumava dizer que “se Deus tivesse uma voz, seria a de Milton Nascimento”. Seria.

E foi com essa reverência que ele, Milton, foi abraçado pelos atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, também convidados para falar sobre adoção no programa: a filha deles, Titi, chegou à vida do casal depois de uma viagem de Giovanna ao Malawi. Os dois se juntam a Milton para declamar trechos da nova música do cantor, “Além de Tudo”, que saberemos durante o programa que foi composta para Augusto, que está milagrosamente sentado ao meu lado na plateia, me “sopra” um dos operadores de câmera do programa, meu colega anos atrás em outra emissora de tevê. “Você é o filho do Milton?”, pergunto. O rapaz assente, tímido como o pai. Digo que sou do Estadão e que quero entrevistá-lo. Ele diz que tudo bem.

Augusto Nascimento, filho de Milton. Foto: Ramón Vasconcelos, Globo.

Pergunto a Augusto como é ser filho de Milton Nascimento e ele me diz apenas que é algo que ainda “não digeriu”. Embora eles convivam há mais de dez anos, o documento que o transformou em ‘Augusto Nascimento’ saiu apenas ano passado. A gravação da entrevista começa e ‘Bituca’ conta a Pedro Bial que sempre quis ter um filho. “Tentei várias vezes, nunca deu certo, até que finalmente apareceu alguém na minha vida. Eu conheci o Augusto quando ele tinha 13 anos através de uns amigos de Juiz de Fora e a gente ficou amigo. Soube que ele não tinha uma boa relação com o pai biológico e perguntei: você quer ser meu filho?”. Augusto sorri com a lembrança.

Pergunto como está a saúde de Milton e ele me conta que, ano passado, uma depressão afastou o pai dos palcos e da música “mas agora está tudo bem”. Desde que os documentos que regularizaram a adoção finalmente saíram, há pouco mais de um ano, o pai está ainda melhor. “Isso trouxe vida para ele”, conta Augusto, que responde com evasivas quando eu insisto para saber como era a vida antes do  pai. Ou como é sua rotina com Milton.  ‘Bituca’, visivelmente mais expansivo que o costume, sorri no palco ao falar do filho para Bial. “Esse menino é uma maravilha na minha vida”, revela, feliz da vida.

Milton se emociona em diversos momentos, mas fica profundamente tocado quando assiste no telão à mãe, Lília, e o pai, Josino, já falecidos, falarem sobre a adoção e a infância dele em Três Pontas, Minas Gerais, em um depoimento de 1997 resgatado dos arquivos da emissora. “Eu não entendo minha vida sem ele”, diz Dona Lília. Milton chora e Augusto, do meu lado, segura as lágrimas. Pedro Bial pergunta ao filho de Milton se ele “herdou” algo do pai. “Tô aprendendo a ouvir mais e falar menos”, brinca. Algo que eu já tinha percebido, aliás.

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