Foto: Banco de Imagem

As escolas fecharam as portas, assim como as brinquedotecas do Sesc, o playground do prédio, os museus, os teatros e as bibliotecas. As crianças estão em casa: as menorzinhas, entediadas, muitas vezes sem compreender direito porque não podem sair e se divertir. Ontem, a filha de uma vizinha tentava chamar a atenção de alguns dos poucos funcionários que têm acesso à área comum do prédio onde moro: ela gritava ‘menina, menina meu nome é Sofia, quer brincar comigo?’ Era de cortar o coração.

Já as maiorzinhas percebem que algo de muito grave está acontecendo no Brasil e no mundo e ficam angustiadas por não entenderem direito onde é que essa pandemia de coronavírus vai nos levar; muitas misturam ficção e realidade – e quem é que não está confuso? A vida real tem se mostrado mais absurda que as histórias que assistimos na tevê e nos cinemas, aquela sala com tela grande onde dezenas de pessoas se reuniam para verem juntas uma produção cinematográfica, lembra como era legal?

Meu filho completou dez anos no meio desse isolamento pelo Covid-19 e a gente queria que essa data tão marcante não fosse ofuscada pelos últimos acontecimentos, mas não teve jeito. Ele não pôde fazer uma festa e convidar os amigos da escola, os primos, os irmãos mais velhos, a família estendida. Deu para contar em uma mão higienizada com álcool gel quem cantou parabéns e soprou a velinha com ele que, mesmo assim, disse que esse foi ‘o melhor aniversário da vida’, vai entender. Talvez ele tenha enxergado aquilo que muita gente não consegue ver, mesmo quando adulta. Saúde, teto, cama quentinha, água potável e uma mãe que pode trabalhar em home office em tempos de crise são coisas a serem comemoradas, acho que meu filho enxergou seus inúmeros privilégios em tempos de coronavírus.

E são os privilégios que têm separado os que sofrem mais ou menos durante essa crise. Todas as instituições de ensino estão sem aulas, as públicas e as particulares. Muitas crianças e jovens dependem da merenda para se alimentar minimamente, ou seja, uma temporada sem aulas pode significar um período de pouca comida na mesa e até de fome. O Ministério da Saúde aconselhou, ainda, que as crianças sem aula não fiquem com seus avós, já que os idosos são as maiores vítimas do coronavírus e precisam ficar isolados. A mãe de uma colega de classe do meu filho desabafou no grupo de Whats app da escola: se a filha não ficasse com a avó teria de “ficar na delegacia”, porque ela e o marido tinham que trabalhar. O ideal na imensa maioria das vezes está anos-luz do que é possível.

Se a conta já não fechava durante os tempos normais, agora parece ainda mais difícil. Não paro de ler matérias sobre como nós temos que nos portar com as crianças durante o isolamento. “Manter a rotina” é a regra número 1, olha só a contradição. Elas teriam de dormir e acordar nos mesmos horários que estão acostumadas durante o ano letivo para que a volta às aulas (que será quando?) não seja tão difícil. Também precisam fazer atividades proveitosas e educativas como leitura, exercícios pedagógicos e acompanhar as eventuais aulas online que serão oferecidas por algumas escolas. Na minha caixa de e-mail e Whats App não param de chegar links com ‘brincadeiras para a quarentena’, jogos de tabuleiro, programas interessantes na tevê e no streaming. Nossos filhos também têm de se alimentar de forma saudável, não passar o dia no videogame, celular ou no You Tube, lavar as mãos a todo o momento e higienizá-las com álcool 70%, avisam.

Aposto que todos nós adoraríamos seguir todas essas recomendações saídas do manual da parentalidade perfeita. Mas, antes de tudo, precisamos cuidar do nosso emocional, abalado pela ameaça de doença ainda sem cura que está infectando e matando pessoas que estão cada vez mais perto de nós. Precisamos entender como vamos dar conta de trabalhar (quando temos o privilégio de ter um emprego) mesmo tendo filhos precisando de cuidados, atenção e acolhida, uma pilha de roupa e de louça para lavar em uma casa que está implorando por uma boa faxina. Também precisamos digerir a realidade de talvez não ter dinheiro para pagar todos os boletos que precisam ser pagos no final do mês e de conviver com uma despensa cada vez mais vazia por falta de recursos ou porque os supermercados estarão cada vez mais desabastecidos e perigosos de se frequentar.

Esse período pode marcar toda a nossa geração e a de nossos filhos, que com certeza vão contar aos filhos deles ‘como foram duros aqueles tempos do coronavírus’. Talvez eles lembrem que foi uma época em que seus pais andavam meio estressados e cabisbaixos, sem muito tempo para eles, e tudo bem. Existem muitas lições a serem aprendidas nesses tempos difíceis, entre elas a de que não somos perfeitos, não damos conta de tudo, fazemos apenas o que é possível dentro das nossas possibilidades. E esse pode ser um aprendizado e tanto, também para os nossos pequenos.

Leia mais: Estar sempre com os filhos não é o melhor para os filhos

Leia também: Grupo de especialistas voluntários lança cartilha para prevenir abuso sexual infantil