Cuspir para cima

Comecei a refletir sobre esse assunto semana passada, quando me dei conta que pelo menos metade das coisas que jurei que “nunca, jamais” faria com o meu filho ou deixaria que meu filho fizesse – todas resoluções, claro, tomadas antes sequer de ter colocado uma criança nesse mundo – caiu por terra, uma a uma. A gente sempre se julga uma ótima mãe, até que tem filhos.

E quando as crianças chegam e a vida real se apresenta, vemos que existem aquelas nossas convicções inegociáveis, não, meu filho não vai comer doce antes dos dois anos por que não, e outras promessas e resoluções que a gente simplesmente não tem saúde, tempo ou disposição para manter, vida que segue, bora pegar uma toalhinha e deixar por perto porque a partir desse momento muito do que a gente cuspiu para cima a vida inteira começa a cair lindamente na nossa testa.

Eu sempre dizia que “nunca, jamais” em tempo algum daria chupeta ao meu filho. Nem comprei uma quando montei o enxoval. Sabia dos males que a chupeta causava aos dentes e à amamentação (é ela é a grande e maior responsável pelo desmame precoce, porque causa confusão de bicos). Fui uma daquelas crianças que sofreu demais para dar adeus a chupeta, usei aparelho ortodôntico a vida inteira e não, meu filho não vai usar chupeta, gritei aos quatro ventos, mas não alto o suficiente para que uma amiga querida, que mora no exterior, escutasse. E ela me mandou pelo correio uma chupeta linda, com o nome do meu filho gravado. Agradeci e guardei carinhosamente no fundo do guarda-roupa, pensei que ela poderia ser usada em um enfeite de porta, penduradinha no pescoço de um bichinho de pelúcia, quando tiver tempo, faço.

Uma madrugada em que nada, nada no mundo parecia consolar meu filho (e eu e meu marido pensávamos em suicídio) lembrei da tal chupeta. Enquanto ele tentava ninar o guri, sem sucesso algum, comecei a jogar no chão tudo o que estava no guarda-roupa e me separava daquele objeto proibido e místico. Nesse momento a escala de culpa materna marcava zero – descobri nesse instante que a culpa é um sentimento encontrado apenas em pessoas que estão descansadas e raciocinando-  esse não era o meu caso, definitivamente. Meu marido ensaiou uma cara de a-gente-não-tinha-combinado-que-não-ia-dar-chupeta?, mas a esperança de voltar a dormir fez com que ele engolisse a pergunta e até sorrisse. As pessoas que são privadas de uma noite boa de sono são capazes de tudo, até de abrir mão de suas convicções pessoais, e nós éramos a prova (morta-viva) disso.

Fervemos a chupeta e, ufa, o bebê aceitou a maledeta e se acalmou, nos concedendo umas duas horinhas de sono – o que parece um pequeno passo para o homem comum, mas é um grande descanso para quem está à beira do colapso mental. A culpa, claro, nos visitou pela manhã, quando estávamos mais calmos e descansados, mas sofrendo de uma enorme ressaca moral. A sorte foi que meu filho nunca foi muito fã da chupeta e consegui tirá-la da vida dele rapidamente, com menos drama do que quando entrou.

Eu também disse que nunca ia deixar que meu filho assistisse a televisão antes dos dois anos, mas fui eu que a apresentei a ele quando precisava desesperadamente de silêncio para conseguir trabalhar. Também achava um absurdo, onde já se viu deixar criança dormir tarde, mas hoje meu filho só vai para a cama depois que o pai chega do trabalho, quase dez da noite. Também não ia deixar que ele jogasse vídeo game antes dos dez anos, mas sucumbi: como proibir uma criança que tem dois irmãos adolescentes loucos por games e que têm um console na casa do pai de jogar pelo menos aos fins de semana? Definitivamente “nunca” é muito tempo. “Às vezes” ou “talvez” me parecem advérbios muito mais adequados aos desafios do dia a dia da maternidade – e eles podem facilmente virar também um “nunca mais” – já aconteceu de eu testar algo diferente do que acreditava inicialmente e ver que não, não foi bom para meu filho ou minha família. Se dou de cara com uma rua sem saída recalculo a rota, como o Waze.

Hoje me vi questionando um dos nunca mais fortes que já disse na vida, quem te viu, quem te vê, dona Rita. Assim que meu filho saiu de casa para seu primeiro dia em período integral na escola pensei em como seria legal se ele tivesse um celular para me mandar notícias por Whats App durante o dia. Eu sei do impacto ruim que o excesso de tecnologia pode causar na vida das crianças e adolescentes, mas estava ali toda derretida imaginando como eu seria feliz se pudesse conversar com ele pelo aplicativo. Um amigo meu foi certeiro: disse que esse questionamento nasceu mais de uma insegurança minha do que uma real necessidade tecnológica do meu filho, e ainda batizou esse meu aparelho imaginário de “celular umbilical”. Mas foi a mãe de um colega do meu filho que me deu a grande dica: “Rita, lembra do orelhão, aquele telefone público que ninguém mais usa porque todo mundo tem celular? Tem um na escola dos nossos filhos e já ensinei o meu a ligar a cobrar para mim e para casa!”

E assim recalculei a rota de volta para o passado: vamos nos falar pelo orelhão, por que não? Alguém sabe onde posso comprar fichas?

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