Quando uma criança se comporta mal, não está indo ‘bem’ na escola ou apronta para valer, o primeiro questionamento que se faz é outro, sempre oposto: “Mas cadê a mãe dessa criança?”  A pergunta mostra que, olha só, o mundo vê a mãe como a única responsável, ou melhor, a irresponsável que permitiu que a criança se comportasse de tal jeito, “sua mãe não te deu educação, não?”

Se quem perguntou pela mãe (e só por ela) pensasse um pouco e voltasse no tempo, mais especificamente às aulas de biologia da escola, lembraria que o bebê só existe porque houve o encontro entre o óvulo, da mãe, e o espermatozoide, do pai, e logo emendaria um segunda questão, envergonhado pelo esquecimento: “Mas cadê o pai dessa criança que também não está aqui para ver o que ela anda aprontando?”.

Claro que existe uma questão social e cultural profundíssima por trás dessa visão obtusa da sociedade de que a mãe é a principal, senão a única responsável pelo bem-estar e também pela educação dos seus filhos – e isso eu deixo para os antropólogos e psicólogos discutirem. Mas, como mãe, luto diariamente para deixar claro ao mundo que minha participação em toda essa aventura de transformar a criança que pari em alguém decente e de cuca legal não cabe só a mim. Eu não a coloquei sozinha no mundo, não vou cuidar dela sozinha, não vou ficar sem dormir sozinha, venha cá, pai do meu filho, estamos juntos de mãos dadas nessa caminhada.

Mas sei que muitas vezes a mulher não divide as tarefas simplesmente por não ter com quem dividir. Muitos pais ainda acreditam que existem “coisas de mãe” e “coisas de pai” e, por isso, se furtam a participar ativamente da criação dos seus filhos – que grande azar o deles, preciso dizer – mas também que grande infortúnio delas, que têm sobre seus ombros todas as demandas do filhos e muitas vezes da casa e, claro, sentem-se com isso sobrecarregadas, estressadas e frustradas por carregar nas costas um mundo que não foi construído somente por elas. Outras vezes a mulher não tem com quem dividir a criação dos filhos porque o pai “deu no pé” e não somente do relacionamento, o que pode acontecer, claro, ninguém é obrigado a ficar junto se o amor acabou, mas também sumiu da vida do filho e virou “pai quando dá”.

O “pai quando dá” é aquele que aparece quando dá, mas nem sempre dá porque ele tem que trabalhar, tem que viajar, tem que namorar, tem que descansar, tem que postar fotos nas redes sociais. Ele também muitas vezes só paga pensão “quando dá” e quase nunca dá, porque ganha pouco/está desempregado e a ex-mulher tem que entender e, se não entende, é porque é “recalcada”, “mal-amada”, que nunca se conformou com a separação. A Justiça muitas vezes é chamada a intervir e argumenta que como o filho foi feito por duas pessoas, as duas têm que arcar, em partes iguais, com suas despesas.

Mas existe também o outro lado da moeda, claro, sempre existe. Algumas mulheres afastam os filhos dos ex-maridos, acreditando que a criança também pode ser alçada à categoria de “ex”. Não, não pode. Não existe ex-filho, ainda bem. Pais e filhos têm o direito a uma relação saudável e amorosa apesar de toda a dor, mágoa e sofrimento que o fim de um relacionamento possa ter deixado pelo caminho.

Nenhuma mãe nasce mãe, mas ela é educada a vida inteira para ser mãe. Nenhum pai nasce pai, mas os meninos são desestimulados a vida inteira em se transformar em pais. Não podem brincar de boneca, nem de casinha, muitos nunca lavaram a própria roupa ou tiraram um prato da mesa, como esperar que eles entendam no futuro o que é uma vida a dois?

Muita coisa tem mudado, ainda bem. As mulheres e os homens já se deram conta de que pai não ajuda, pai cria junto. Quando ele troca fralda, dá banho no filho ou passa madrugadas insones tentando consolar o bebê, faz a mesma coisa que você faria, se estivesse na sua vez, ou seja, nada mais que a obrigação. Já pensou se a cada troca de fralda você ganhasse fotos e elogios nas redes sociais? São oito ou mais trocas por dia, ninguém ia aguentar tanta aparição nas redes.

Embora tenhamos as mesmas obrigações, não somos iguais. Os pais podem demorar muito mais que a gente para entender o que significa o nascimento de um filho. E tudo bem. O bebê foi gerado no nosso ventre e fez com que sentíssemos enjoo, tonturas, dores nas costas e mesmo com a barriga crescendo e a criança mexendo loucamente, a gente demorou mais de nove meses para entender do que se tratava tudo aquilo. Para os homens, o nascimento de um filho é um acontecimento abstrato durante muito tempo. Eles não ficam grávidos, não dão à luz, não são demandados nos primeiros tempos tempos do bebê (que só quer saber de peito e mais peito) e só virarão as pessoas favoritas dos próprios filhos quando os pequenos notarem que também existe um cara legal que está sempre cuidando da mamãe, “vamos sorrir para ele também”. É um exercício grande de paciência até a chegada do grande prêmio, o coração dos filhos. Mas estando do nosso lado por todo esse caminho, juntos ou separados, ganham nosso coração para sempre.

(Texto retirado do meu livro, Mãe sem Manual)

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