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O coronavírus chegou, mudou todos os nossos planos, separou-nos de quem amamos, passou a chave na porta de casa e colocou os nossos filhos (e a gente) em frente a uma tela de computador. Todos perdemos muito, mas as crianças ficaram sem aquilo que fazia seus olhos brilharem: a hora do recreio e a lancheira cheia de coisas gostosas, as brincadeiras no parquinho, o ar puro, o contato com os amigos, a empolgação da hora da entrada da escola e o cansaço satisfeito da hora da saída. Para elas, todos os dias são completamente iguais, com horas e mais horas de aulas online que encaram um dia mais animadas, noutros mais entediadas e ansiosas. Por outro lado, há ainda as que tiveram seus laços com a escola completamente cortados pois não tem celular, computador ou acesso à internet, e de uma hora para perderam o contato com o mundo lá fora.

Os professores foram pegos de surpresa como nós e estão se esforçando arduamente para que as crianças ‘não percam o ano’ – uma frase que ouvi a primeira vez ainda na infância. “Fulaninho perdeu o ano”, anunciava a vizinha, ar de crítica, para falar do menino do prédio que tinha sido reprovado na escola. O atual conceito agora é mais amplo: as crianças poderiam ‘perder o ano’ por ser humanamente impossível cumprir com tudo o que estava previsto ou planejado para 2020. Como sentar em frente ao computador para aprender a divisão com chaves da matemática, entender quando se usa ‘s’, ‘ç’ ou ‘ss’ no português ou o movimento de rotação e de translação da Terra no meio de uma pandemia, quando seus pais estão desempregados ou sobrecarregados com uma jornada tripla, quando as pessoas próximas a você estão morrendo, quando se tem que dividir o único computador da casa com um monte de gente?

O medo de que um filho esteja ‘atrasado’ em relação as outras crianças da mesma idade é um sentimento normal, por isso sempre mantemos um olho em suas conquistas diárias e outro na tabela com os chamados ‘marcos de desenvolvimento’, um cuidado necessário para uma intervenção rápida se algo não parecer bem. Ter um filho que cumpra todas as etapas no ‘tempo certo’ é uma alegria, e as expectativas e as cobranças podem escalar a partir daí.  Sim, as crianças têm a capacidade de começar a ler cedo, podem aprender vários idiomas se forem expostas a eles nos primeiros anos de vida e os adolescentes podem até entrar na Faculdade sem ‘perder tempo’ em um cursinho pré-vestibular. Mas não há nada de errado em não aprender inglês na infância, ter mais dificuldade em matemática ou língua portuguesa ou demorar anos para conseguir a vaga na Universidade desejada, ou nunca conseguir. Assim como não há nada de errado em não ter as habilidades socioemocionais necessárias para conseguir manter os estudos em frente a uma tela de computador.  Escola não é só conteúdo, mas sim olho no olho, afago, presença, tudo o que foi retirado dos nossos filhos há mais de cem dias.

E foi com a faca no pescoço que os colégios tiveram que manter o bonde andando às vezes na mesma velocidade de antes, porque não demorou nada e o pagamento e o valor das mensalidades começaram a ser questionados. ‘Eu pago por seis horas de aula e quero seis horas’, cobrou um pai depois da proposta do colégio de seu filho por uma jornada online menor, afinal as crianças da sala têm apenas cinco anos (história que me foi contada por uma amiga, incomodada pela pressão por mais conteúdo e pela relação comercial que muitos insistem em ter com a escola). Mas será que os pequenos aguentam ficar tanto tempo assim em frente a uma tela? (Atenção, spoiler: não, não aguentam). Será que a escola aguenta se manter aberta e pagando seus professores se tiver de enfrentar uma inadimplência em massa? (Não, não aguentam). Então a gente mantém as coisas do jeito que elas estão, mesmo que o resultado disso seja uma legião de crianças infelizes, estressadas e com a sanidade mental abalada?

É difícil até para nós, pais, entender o que é melhor nesse momento. Nossos filhos ficarem totalmente sem aulas pode significar, para muitos deles, momentos de ainda mais solidão em um período tão desafiador. Crianças dentro de casa ‘sem ter o que fazer’ e sem a possibilidade de gastar energia do lado de fora pode nos preocupar e sobrecarregar ainda mais. E escola sem criança, mesmo do outro lado da tela do computador, pode ser sinônimo de fim. E tudo o que eu mais quero é que meu filho tenha para onde voltar depois que tudo isso passar.

Dia desses meu filho veio me contar que entendeu por que não estava dormindo direito. “É ansiedade, mamãe”, concluiu, do alto dos seus dez anos de idade. Parecia bem mais aliviado quando ouviu que a mesma coisa estava acontecendo com seus amigos, e foi a professora que deixou o conteúdo de lado para puxar uma roda (online) de conversa quando entendeu que eles queriam desabafar. Ela pontuou dizendo que estava difícil para todo mundo, mas que eles tinham de enfrentar essa fase juntos, confiando um no outro. Acho que é a única coisa que sabemos é que, sim, isso vai passar. E um ano com tantas dores e ensinamentos nunca pode ser classificado como um ano perdido.

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