O meu pai sempre dizia que apanhava muito do meu avô, ‘de manhã, de tarde e de noite’. Já minha mãe não gostava de falar da própria infância, o que sempre me deu a certeza de não ter sido nada feliz. E o que meus pais passaram não é nada incomum, basta perguntar aos seus avós se as crianças de sua época eram ouvidas, consideradas, respeitadas. Salvas as raras exceções, a relação entre pais e filhos tinha muita violência e pouco diálogo. Mas as coisas têm mudado, ainda bem.

Quando a psicóloga Nanda Perim, 33, a minha entrevistada de hoje, deu à luz seu primeiro filho, Théo, hoje com 7 anos, percebeu que aquele jeito de educar de antigamente não servia mais para ela. “Eu ouvia as pessoas dizerem ‘não pega muito seu filho no colo’, ‘deixa chorando no berço’, elas sugeriam essas coisas que são bem tradicionais na nossa cultura, algo que na minha época era o que todo mundo fazia e aquilo me doía muito, doía a ideia de deixar o meu filho chorando, de querer pegar ele no colo e de não poder, eu achava que aquilo tudo ia muito contra a minha intuição”, conta. Mesmo tendo uma formação em psicologia e frequentado aulas sobre desenvolvimento infantil, Perim decidiu estudar conceitos e teorias que começavam a ser discutidos por alguns especialistas, como o da Disciplina Positiva e da Educação Não Violenta. Nascia uma nova mãe, uma nova psicóloga, uma influenciadora nas redes sociais (a @psimamaa, com 615 mil seguidores no Instagram) e a Nanda escritora, que lançou quatro livros infantis, como o ‘Dino Davissauro’, sobre a raiva sentida pelas crianças, e agora uma obra dedicada aos pais e cuidadores, o “Educar sem Pirar, um guia prático e didático de como tornar seus dias com as crianças mais leves”, pela Editora Record. Nanda Perim, que também é mãe de Gael, 5, conversou com a gente sobre o lançamento desse último livro, que tem prefácio da atriz Tainá Muller, ‘orelha’ escrita pela psicopedagoga Laura Gutman e quarta capa com depoimentos de Ivete Sangalo, Sabrina Sato e Thaeme Mariôto, todas no papel de fãs do jeito que a psicóloga aborda os assuntos relacionados à criação de filhos.

Blog: Você já era psicóloga antes do nascimento do seus filhos. O que mudou na sua forma de ver como cuidar e educar crianças depois que eles nasceram?

Nanda: Antes deles eu achava que a criança tinha que fazer o que você mandasse e que só no olhar ela tinha que te obedecer, via criança fazendo birra no shopping e achava que era ‘falta de palmada’, tinha uma visão muito tradicional da Educação e acredito que isso ajudou muito no meu trabalho porque hoje eu consigo enxergar e entender as pessoas que pensam diferente de mim. Eu consigo também convidar essa pessoa a olhar com outros olhos, já que eu sei exatamente o que é estar naquele outro lugar.

Blog: E como foi essa mudança, você consegue lembrar de quando ‘essa chave virou’ para você?

Nanda: Essa chave virou para mim quando o meu filho nasceu, a primeira experiência foi o puerpério em si, passar pelo pós-parto, quando eu estava nesse lugar eu ouvia as pessoas dizerem ‘não pega muito seu filho no colo’, ‘deixa chorando no berço’, elas sugeriam essas coisas que são bem tradicionais na nossa cultura, algo que na minha época era o que todo mundo fazia e aquilo me doía muito, doía a ideia de deixar o meu filho chorando, de querer pegar ele no colo e de não poder, eu achava que aquilo tudo ia muito contra a minha intuição, eu senti que havia alguma coisa no padrão cultural nosso que era muito diferente do que eu queria para a minha vida, sabe?

Blog: Então começou como um incômodo?

Nanda: Começou como um incômodo e então eu comecei a estudar, pesquisar autores e eu descobri que o que estava vivendo não era nada incomum.

Blog: Você já tinha uma formação de psicologia antes de ser mãe e sentir todos esses incômodos. Formações universitárias como a sua, ligadas à infância, acabam não entendendo os desejos dessas mães e pais contemporâneos e que tiveram os filhos nas últimas décadas?

Nanda: Quando eu me formei há dez anos isso não era considerado, não era uma coisa que era vista. Eu lembro muito claramente que quando eu comecei a estudar depois do nascimento do filho mais velho eu pensei na loucura de ter visto tanto sobre desenvolvimento infantil na faculdade e ainda sim não conhecer tão bem a realidade da infância. A gente só estuda em que época acontece cada coisa, mas não o que essa criança precisa, como lidar com essa criança, nada disso. E é muito curioso que eu já tive muitas professoras indo em palestras minhas, diretoras, donas de escolas e pediatras que me diziam ‘como eu nunca ouvi sobre isso antes?’ Como um pediatra não sabe disso, ele que lida com criança todos os dias? Como uma professora do primário não sabe dessas coisas? Então, realmente, há várias formações que têm esse déficit, não só a psicologia.

Blog: Onde você foi estudar?

Nanda: Eu fui estudar puerpério com uma autora argentina, a psicopedagoga Laura Gutman, depois eu fui fazer uma formação com ela. Aí eu me apaixonei pela Disciplina Positiva e também fui fazer uma formação, também me apaixonei pela Comunicação Não Violenta e o método Montessoriano.

Blog: E esse livro é fruto dessa nova Nanda, psicóloga e mãe. Qual a proposta do ‘Educar sem Pirar’?

Nanda: Eu convido os leitores a passarem por uma jornada junto comigo, a ideia é que ao longo do livro você faça coisas que vão mudar a forma que você vai enxergar a sua criança e que vão realmente mudar a rotina da sua casa, a estrutura da comunicação que você tem com a sua criança. Eu chamo de ‘inteligência parental’ essa habilidade de conseguir entender seu filho, se comunicar bem, fazer ele te entender, comunicar-se bem com você, você se conhecer e saber se regular na frente da criança. Então é toda uma proposta de você ir desenvolvendo habilidades, adquirindo conhecimentos e reflexões que vão te fazer entender melhor o porquê de fazer diferente do que fizeram com a gente.

Nanda Perim é psicóloga e tem mais de meio milhão de seguidores no Instagram, onde discute criação de filhos

Blog: O livro é dividido em pilares. Quais são eles?

Nanda: O ‘Educar sem pirar’ passa por três etapas: o conhecimento, o autoconhecimento e o relacionamento. O conhecimento é como se fosse a inteligência infantil, você entender sobre infância, desenvolver a capacidade de enxergar a criança sem ficar levando pro lado pessoal – sabe quando a gente acha que a criança está fazendo algo para irritar a gente, para testar a gente? Quando a gente acha que a criança está fazendo as coisas de propósito e, na verdade, é tudo só a imaturidade da criança? É só uma criança em desenvolvimento, tentando aprender as coisas e passando por dificuldades e às vezes a gente fica levando para o lado pessoal, fica rotulando a criança, dando nomes, e essa criança só está se desenvolvendo na sua frente, ela não está fazendo nada com você.

Na segunda parte, a gente vai para uma inteligência mais emocional no sentido de você se entender, conhecer seus gatilhos, conhecer seus contextos, saber o que te faz mal, o que te faz ser uma mãe mais estressada, que grita muito, que ameaça muito, quais são as coisas que você pode mudar na sua vida – às vezes você está há meses com um chuveiro quebrado que te irrita todos os dias de manhã na hora de tomar banho e aí já sai do banho irritada, já sai gritando com criança, sendo que se você consertasse aquele chuveiro seu dia já começaria muito melhor. Faz sentido isso para você?

Blog: Sim, é importante entender que algumas coisas que nos estressam no dia a dia muitas vezes não tem a ver com os nossos filhos. E o quê mais de autoconhecimento a gente tem que ter, só que em relação a nossa própria infância, para que a gente entenda o que mais pode impactar no nosso relacionamento com os filhos?

Nanda: O primeiro deles, e o que eu acho mais importante, é reconhecer quais foram os discursos da sua infância e que você tomou como reais e que hoje atrapalham na relação com o seu filho. Vou dar um exemplo que eu uso bastante que é o da ‘criança respondona’, a gente ouve muito na nossa infância, ‘ah, ele é muito respondão’, ‘não pode responder’, ‘criança tem que ser vista, não tem que ser ouvida’, ‘criança não tem que querer’ – então você traz todos esses conceitos para a sua vida e quando você tem aquela criança na sua frente e diz alguma coisa para ela, e ela te responde, é difícil não dizer ‘ah, respondão’. Vou dar um exemplo: dia desses eu falei várias vezes para meu filho colocar a meia que a gente estava atrasado para a escola e ele disse ‘mãe, eu já te falei mil vezes que não tem meia seca!’ Eu tinha me esquecido que tinha lavado todas as meias e poderia ter dito ‘você está respondendo para a sua mãe, eu te falei para botar uma meia se vira aí, coloca uma meia’. Só que num relacionamento de verdade, entre duas pessoas, como eu e você aqui agora, você fala e eu respondo, eu falo e você responde. Se só você falar e eu não puder responder porque eu posso ser considerada ‘respondona’ a conversa não acontece, o relacionamento não acontece.

Quando a gente consegue desconstruir esse conceito da ‘criança respondona’ e a gente começa a entender que a criança pode responder, mas que a gente tem que ensinar a ela responder com respeito, carinho, explicar, mostrar para ela como ela se sente mal quando alguém responde a ela de uma forma rude, você começa a entender que não é questão de a criança ser respondona, mas sim de abrir esse diálogo de uma forma respeitosa. Agora como a sua criança vai aprender a falar respeitosamente com você se você não tem esse hábito, está sempre tratando ela de uma forma rude, ameaçando, brigando, sempre gritando? Ela vai se espelhar em quem, qual vai ser o parâmetro dela?

Blog: Quais são os outros pontos da nossa infância que você aborda no livro?

Nanda: Eu abordo as feridas emocionais, que são coisas que te magoaram na sua infância e que você não tinha maturidade para lidar e que quando você se torna adulto ou continua se machucando com aquelas coisas ou reage a essas coisas, você exagera na reação porque ‘agora você pode’. Isso é uma reação a uma ferida emocional e às vezes a gente acaba tendo muitos gatilhos de feridas emocionais no relacionamento com os nossos filhos.

Blog: A gente está vivendo uma mudança de paradigma na relação com crianças, mães e pais que tiveram uma infância não tão legal querendo fazer diferente com os filhos. Mas muitas vezes quando alguém propõe um relacionamento mais horizontal e de diálogo com os filhos acham que você está sendo permissivo com a criança. Aposto que você já ouviu isso em alguma de suas palestras.

Nanda: Eu gosto da abordagem que a Disciplina Positiva traz para isso – a Jane Nelsen, que é a criadora da Disciplina Positiva, diz que a Educação precisa ser ‘firme e gentil’. A permissiva é só gentil no sentido de que não fala ‘não’, não diz para a criança que ‘não pode’. Já a educação autoritária é só firmeza. E o conceito de permissividade acaba sendo um conceito muito abstrato principalmente se você teve uma educação muito autoritária. Por que se os seus pais não te deixavam responder absolutamente nada, uma criança respondendo de forma respeitosa para você é permissividade. Eu trago isso para o meu livro, para a minha vida e para o meu método, de a gente sempre buscar esse equilíbrio. A gente vai ser respeitoso, vai ser gentil com a nossa criança, mas nunca vamos deixar de ser firmes porque as crianças precisam que a gente as ajude a aprender na vida, até onde ela vai, onde começa o outro, o que pode, o que não pode. Existe, claro, a necessidade de uma firmeza, mas essa firmeza tem que vir com muito respeito, consideração, compreensão, carinho e, principalmente, não pode vir de um lugar de violência. A gente tem que respeitar a integridade física, emocional e psicológica da criança.

Blog: Qual o grande objetivo do seu livro? O que você quer que os pais tirem dele? O que te moveu?

Nanda: O meu objetivo principal é fazer pensar lá na frente: seu filho com 30 anos, com 40 anos, vindo almoçar com você em um domingo, qual a relação que você quer ter com esse adulto? Qual o lugar que você vai ocupar na vida dessa pessoa? As novidades dele, ele vai querer compartilhar com você? Ele quer que você faça parte da família dele ou não quer?

Hoje a gente tem visto pessoas muito sofridas com as memórias de infância, com o relacionamento que elas têm com seus pais e mães, e quem é terapeuta sabe disso. O que eu tenho visto é que as crianças sofrem muito: de solidão, de se sentirem incapazes, de sentirem fora do lugar, de não se sentirem pertencendo a lugar nenhum. Quantos adolescentes estão vivendo um monte de coisa absurda na escola e não falam para os pais, não compartilham? E isso tudo se dá, na minha opinião, pela forma totalmente distante que a nossa cultura defende que seja a Educação.

As gerações anteriores à nossa, nossos pais e nossos avós, muitos deles sofreram muito na mão dos pais. Eu adoro conversar com senhorinhas, logo eu consigo falar sobre a infância delas, geralmente ajoelharam no milho, apanharam de vara, geralmente apanhavam por coisas que o irmão fez, eram responsáveis por cuidar dos próprios irmãos, não podiam sair para brincar com os amigos – você vai ouvindo a história dessas pessoas, e em geral são histórias muito sofridas e eu, como psicóloga, vou relacionando a história com os relacionamentos que elas viveram depois – um relacionamento abusivo que teve, um casamento difícil,  relacionamento difícil com os filhos, um que entrou no mundo das drogas e outro que sumiu e nunca mais apareceu na vida dela, e a coisa vai ficando muito clara de como as crianças sofrem muito e viram adultos muito sofridos. E esses adultos sofridos não conseguem lidar com os próprios filhos. É muito difícil você lidar com uma criança na sua frente quando você ainda está sangrando da infância que teve.

O meu principal objetivo é naturalizar que a gente está precisando rever isso urgentemente. O tempo todo eu tento abraçar quem está lendo o livro – tem gente que fala ‘nossa, em algumas partes do livro eu cheguei a chorar’ e eu pergunto ‘mas você se sentiu abraçada por mim?’ Porque a ideia é que você não chorar sozinho, é entender que se eu chorar agora nesse momento está tudo certo, estamos todos juntos. Não é o livro que você vai sentir culpa pelas coisas que você fazia antes, mas sim um livro para dizer ‘beleza, agora vamos olhar para frente!’, o que dá para fazer diferente e que vai fazer bem para você e para a sua criança?

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