Ilustração do livro “Quem é você? Um livro sobre tolerância”, Pernilla Stalfelt, Companhia das Letrinhas

A maioria de nós não sabe direito como as crianças aprendem o que aprendem. Algumas teorias defendem que é por imitação e reforços positivos, outras apostam que os pequenos têm habilidades inatas que fazem com que um dia acordem sabendo coisas que nenhum adulto os explicou. Mas existem certas coisas que as crianças repetem observando o comportamento de seus pais, pode ter certeza.

Elas começam a dizer ‘bom dia’, ‘boa tarde’ e ‘boa noite’ ao entrar no elevador porque veem nosso comportamento e não demoram a entender que é assim que se faz (também podem aprender a não dizer nada se seus cuidadores forem daqueles que não dão nem um ‘olá’ para quem não conhecem). Podem aprender que homens e mulheres têm as mesmas obrigações dentro de casa se observarem os pais dividindo as tarefas e o cuidado com as crianças (ou o contrário, no caso de lares onde cabe à mulher cuidar de tudo). Aprendem a respeitar o próximo e a serem tolerantes com as diferenças se forem ensinados, no dia a dia, que formas de pensar, de agir e de sentir, mesmo sendo diametralmente opostas às nossas, são válidas e devem ser respeitadas – ou não, dependendo dos exemplos que assistem ao seu redor.

Tolerância devia ser um conceito básico, aprendido pelas crianças desde os cueiros, como dizia a minha avó. Mas não é assim que acontece, pelo contrário. Ainda no berço muitos ouvem que ‘negros são inferiores’, que ‘pobres são preguiçosos’, que ‘umbanda é coisa do diabo’ e por aí vai. E basta olhar ao redor, dar uma espiadinha no grupo de whats app do prédio ou parar em uma rodinha de bate-papo na porta da escola para perceber que não, o brasileiro não é tão cordial quanto acha que é, e a tal tolerância está em falta, se é que um dia realmente existiu por aqui.

E foi nesse contexto de desesperança que ganhamos “Quem é você? Um livro sobre a tolerância” da escritora sueca Pernilla Stalfelt, publicado pela Companhia das Letrinhas. “Usamos coisas diferentes, gostamos de coisas diferentes, temos diferentes cores de pele e cabelos diferentes – algumas pessoas nem cabelos têm!”, Pernilla pontua, ainda no prefácio, mostrando do que trata a obra. A escritora, que também é pedagoga e trabalha no Museu de Arte Moderna de Estocolmo, vai além e lembra, ainda, que não somos iguais apenas quando é a aparência que está em jogo. “Agimos de maneiras diferentes quando ficamos bravos ou tristes. Podemos sofrer ou não. Podemos ter algum tipo de necessidade especial. Podemos vir de países diferentes. Podemos morar em cidades diferentes. Podemos ser ricos ou pobres, jovens ou velhos”, completa. E tudo bem. Que mal pode haver nisso?

Livro da escritora e pedagoga sueca Pernilla Stalfelt, da Companhia das Letrinhas

Samuca, meu filho, abriu o livro e veio se aconchegar ao meu lado, porque sabe que eu gosto de conversar sobre as coisas que lê. Não demorou muito para que me presenteasse com algumas das suas reflexões sobre o assunto. Disse que pode ser simples entender o próximo se a gente apenas perguntar “por que você pensa desse jeito?”. “Dependendo da resposta, mamãe, talvez a gente mude até o nosso jeito de pensar. A gente não está dentro da cabeça do outro para entender o que tem lá. Então o melhor jeito é escutar o que ele tem a dizer”, disse, sabiamente.

Pernilla explica, ainda, o que é preconceito –fazer um julgamento antes de saber mais sobre o assunto e sem consultar ninguém que entenda disso” – e dá exemplos com máximas preconceituosas simples e fáceis das crianças entenderem, como “todos os americanos são gordos”, “todos brasileiros são bagunceiros”, “crianças suecas são mal-educadas”. “As pessoas que têm preconceito têm uma opinião estereotipada sobre algo que não sabem ou não conhecem. E decidem achar alguma coisa, mesmo sem saber muito sobre o assunto”, explica o livro. Samuca reagiu fortemente à explicação. “É como se as pessoas achassem algo ruim de mim, mesmo sem me conhecer, né, mãe?”. Exatamente, filho. É isso mesmo.

Do preconceito à intolerância é um pulo. “Às vezes encontramos grupos de pessoas que cultivam os mesmos preconceitos, pois se sentem mais seguros e ficam mais à vontade assim”, explica Pernilla. “E às vezes as pessoas podem ser realmente más umas com as outras”, completa. “São que nem os valentões do desenho, né, mãe? Isso é um horror, eles humilham as pessoas. Eu nunca vou ser assim”, prometeu Samuca.

Lembrei desse livro porque uma ex-chefe me pediu dicas de presentes de Natal para os sobrinhos. “Queria algo que abrisse a cabeça deles”, confessou. E se a gente acredita que as crianças podem aprender a serem melhores, mesmo olhando ao redor e tendo exemplos horríveis, esse livro é uma ótima pedida. Vale apostar, assim como fez a Pernilla Stalfelt, que um mundo mais tolerante é, sim, possível. E desejável. E pode começar pelos nossos filhos.

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