Quando a esmola é demais o santo desconfia, sempre dizia a minha mãe. E foi dela que lembrei quando assisti ao ministro da Cidadania, Osmar Terra, defender em audiência pública na Câmara Federal que as mulheres tenham uma licença-maternidade de um ano. E quanto tempo os pais teriam direito a ficar em casa cuidando dos filhos que também são seus? Silêncio.

Claro que muitas mulheres sofrem com a volta ao mercado de trabalho depois de uma licença-maternidade de apenas quatro meses. A OMS, Organização Mundial da Saúde, recomenda a amamentação exclusiva até o sexto mês de vida do bebê, por exemplo. Sem ajuda ou apoio da maioria das empresas, que ignoram a importância de construir salas de apoio à amamentação para que essas mulheres possam ordenhar e conservar leite materno para ser levado para casa no fim do expediente, a amamentação naufraga – e as fabricantes de leite artificial comemoram, claro.

Mas a maioria de nós precisa trabalhar e gosta do que faz. Decretar que “temos direito” a ficar em casa por um ano para cuidar dos bebês assim, sem pensar que não cabe apenas a nós a função de cuidar de um filho, é nos condenar a perder ainda mais espaço no mercado de trabalho: 48% das mulheres não estão mais em suas funções exercidas antes da gravidez dois anos depois do nascimento dos seus filhos, segundo a FGV, que descobriu que a maior parte dessas profissionais foi demitida sem justa causa, mas não só: muitas delas não retornam às atividades simplesmente porque não têm com quem deixar os filhos pequenos. Faltam creches, escolas e interesse das empresas para que esse retorno seja viável.

Se formos institucionalmente nomeadas como as únicas cuidadoras dos nossos filhos por um ano, nem contratadas seremos. A nossa taxa de participação no mercado de trabalho já é bem mais baixa se comparada a dos homens, segundo dados da PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, conduzida pelo IBGE. O motivo? Adivinhe! Filhos pequenos. E a diferença salarial entre homens e mulheres, que já é relevante, pode virar um abismo intransponível, fazendo com que realmente valha mais a pena a gente ficar em casa. Se você tem um currículo robusto e mesmo assim ganha menos do que a mensalidade da escolinha em tempo integral a conta não fecha, nunca vai fechar.

Segundo Osmar Terra, “os países nórdicos, que são os mais desenvolvidos do mundo na educação, têm licença-maternidade de um ano.” Isso não é verdade. Países como Suécia e Noruega tem licença parental de mais de um ano, ou seja, oferecem uma licença para ser compartilhada entre mães e pais – e na Suécia, por exemplo, os homens têm de ficar, no mínimo, três meses cuidando do filho em casa (bom lembrar que tal licença também é concedida aos casais do mesmo sexo e adotantes.) Já na Noruega, os pais passam pelo menos dez semanas afastados do trabalho formal para cuidar exclusivamente da criança que acabou de chegar.

Os benefícios dessa prática, que nada tem a ver com esse aceno feito pelo ministro brasileiro, são inúmeros: as crianças e seus pais estabelecem vínculos mais profundos e as mulheres podem voltar em paz ao mercado de trabalho, que oferece salários mais justos por saber que a mãe não é a única que se afasta para cuidar desse bebê. Islândia, Noruega, Finlândia e Suécia se revezam no top 5 do ranking divulgado pelo Fórum Econômico Mundial com as mais altas taxas de participação das mulheres na força de trabalho e salários menos discrepantes entre homens e mulheres que desempenham a mesma função. Já o Brasil amargou ano passado o 95.º lugar da lista de 149 países. Basta saber juntar lé com cré para entender que a tal licença-maternidade de um ano, se deixar de ser uma ideia e sair do papel, vai piorar ainda mais a desigualdade entre homens e mulheres no nosso país.

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