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Lembro quando há uns 15 anos minha mãe teve um infarto e ficou internada em um hospital de São Paulo. Os médicos fizeram um cateterismo para decidir se ela teria de fazer uma cirurgia de peito aberto, a ponte de safena, ou se uma angioplastia para a colocação de um stent seria o suficiente. Vibramos quando soubemos que ela não precisaria da cirurgia, que tem uma recuperação bem mais difícil por motivos óbvios. Olhe ao redor e veja pacientes perguntando aos seus médicos se existem opções menos invasivas para qualquer procedimento ao qual serão submetidos: “pode ser por videolaparoscopia, doutor?”

Mas quando o assunto é gravidez (que não é doença, diga-se de passagem) muitos parecem perder essa referência tão óbvia. A cirurgia cesariana é ‘vendida’ por muitos como uma opção mais segura que o parto normal, um fenômeno fisiológico comum aos mamíferos. É com base nessa ilusão que foi aprovado ontem na Assembleia Legislativa, 14/08, o projeto de lei 434/2019 de autoria da deputada estadual Janaína Paschoal dando “o direito” à parturiente, ou seja, à mulher que já entrou em trabalho de parto, em optar pela cesariana nos hospitais públicos de São Paulo a partir da 39a. semana “ainda que não haja orientação médica”. O que levaria uma mulher a escolher um procedimento que corta pele, gordura, fáscia muscular, músculo, peritônio parietal, peritônio visceral e útero “mesmo sem orientação médica”? A dessasistência, a solidão, a dor.

O obstetra Bráulio Zorzella, membro da Rehuna, Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento, deu entrevista hoje pela manhã à Rádio Eldorado, do grupo Estado. O médico é conhecido por taxas que giram em torno de 90% de partos normais em seus atendimentos e é fonte conhecida aqui nesse blog. Bráulio contou que se encontrou com a deputada juntamente com a Sogesp, a Associação de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo, para apresentar evidências científicas que mostravam os equívocos no projeto de lei, mas tais argumentos não foram considerados e o PL aprovado rapidamente, sem passar sequer por comissões específicas onde os PL´s costumam ser discutidos. “Eu entendo muito de medicina e pouco de política”, afirmou, ao ser perguntado sobre os motivos pelos quais acredita que a lei tenha sido aceita em regime de urgência pelo legislativo paulista. “A gente se assustou muito com isso, os especialistas foram completamente desacreditados. A gente espera que o governador veja que é absurda essa lei, que ele não sancione”, completou.

O obstetra e membro da Rehuna, Rede pela humanização do parto e do nascimento, Bráulio Zorzella

“Tem vários erros tanto na ideia da lei quanto na forma quanto foi escrita. Ela está bastante incompleta e gera uma confusão no seu texto, fora os riscos que traz para as mulheres”, garante. “A lei vai contra todas as evidências e, ela (Janaína), argumenta que não existem argumentos científicos contra sua lei. Realmente não existe nenhum trabalho científico sobre esse assunto porque seria um ilícito ético a mulher que já está com dor, implorando por uma cesárea, ter direito a essa cesárea. A gente mostrou para ela que nossa causa é a mesma, a gente também quer melhorar a assistência ao parto, a gente quer que (a mulher) tenha autonomia no pedido pelo melhor parto possível, só que o melhor parto não é ter o direito a uma cesárea quando estiver com muita dor, isso está completamente comprovado na literatura médica. A mulher tem que ter direito à anestesia ou analgesia de parto, ter direito a esse alívio de dor”, completa. Sobre os partos violentos que acontecem no SUS, Bráulio afirma que concorda com a deputada de que eles realmente são perigosos, mas que isso não é motivo para promover o aumento nas cesarianas. “Nossa proposta é pegar leis que já existem e que promovem o parto humanizado e fazer com que sejam cumpridas. O parto que a Janaína está acostumada é o parto violento do século passado, que a gente também quer que acabe”, completa.

Tuítes de Janaína Paschoal no último dia 08 de agosto

Bráulio lembrou que já há lei que garante o direito à anestesia nos hospitais públicos, mas apenas 15% das maternidades do SUS têm anestesia disponível para a gestante. Disse ainda que gostaria que “toda a energia” colocada pela deputada nesse projeto tivesse sido colocada na luta pela melhoria ao atendimento ao parto. Quando o médico fala em ‘energia’, basta olhar o perfil de Janaína Paschoal no microblog Twitter para entender sua colocação: as críticas ao projeto foram colocadas como parte de uma suposta guerra ideológica da esquerda contra a direita.  “Por que as esquerdistas querem que o SUS pague o aborto, mas não a cesariana? Cultura da morte, é disso que se trata“, escreveu. Janaína ignora todos os argumentos contrários a sua lei, inclusive as indicações da OMS, Organização Mundial da Saúde, que garantem que o parto normal é mais seguro para as mulheres e para os bebês.Por que as crentes do Parto Normal não se ocupam das próprias vaginas? Quem as nomeou tutoras das vaginas alheias?”, tuitou.

O obstetra ainda explicou à apresentadora da Rádio Eldorado, Carolina Ercolin, que países que têm maiores índices de cesariana não têm menores ocorrências de mortes maternas e neonatais, pelo contrário. “Se a gente colocar em um gráfico em ordem crescente a porcentagem de países que fazem cesáreas, começando com os países africanos como Ruanda, Somália, Etiópia, com apenas 1% de cirurgias, depois subindo para os 10 a 15% dos países europeus, passando pelos 25 a 30% dos países norte-americanos e chegando à faixa de 50% de cesarianas realizadas pelos países latino-americanos e o Brasil, com 56%, líder mundial de cesáreas em números absolutos, as evidências científicas mostram os países com apenas 1% de cesárea apresentam muita mortalidade, que vai diminuindo conforme aumenta o número de cesáreas. Mas chega um momento em que essa curva de mortalidade começa a subir de novo pelo excesso de cesáreas, começa a aumentar a morte devido às muitas cirurgias. E esse ponto que começa a subir essa curva é entre 10 a 15% de cesarianas. Por isso que a Organização Mundial da Saúde preconiza que (o seguro) é entre 10 e 15% de cesáreas. Esse número não é aleatório, não foi sorteado. Esse número foi estudado. Por isso que essa lei vai totalmente contra as evidências científicas, porque ela visa aumentar o índice de cesáreas no Brasil, que já é muito alto. E aí consequentemente vai aumentar o número de mortes. Se essa lei realmente for aprovada ela vai ser conhecida como a lei da morte materna no Brasil”, encerrou.

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