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Antigamente, na época das nossas avós e talvez das nossas mães, quando aparecia uma dificuldade nos primeiros tempos com o bebê bastava tocar a campainha da vizinha, aquela com dois filhos pequenos, e pedir ajuda. Estava difícil amamentar? Vem cá, deixa eu te mostrar uma coisa. Além de te ensinar alguns jeitos de colocar o bebê no peito, ela ainda te dava umas dicas para combater cólicas e assaduras e, de quebra, oferecia um pedaço de bolo quentinho e uma promessa: sempre que as coisas ficarem difíceis é só me chamar, eu cuido do seu bebê para você dormir umas horinhas!
Hoje temos pouquíssimas campainhas para tocar e a maternidade anda meio corrida, uma atividade a ser encaixada entre uma reunião e um projeto, entre um desaforo no trabalho e outro na vida, que insiste em sugerir que a mãe é a maior, senão a única responsável pelo bebê. E essa parcela do mundo que acredita que cabe à mãe o trampo todo, porque é ‘quem leva jeito’, é a que ‘nasceu pra isso’, diz ainda que ela tem de estar também bem disposta, linda e bem-vestida, nada de deixar a peteca cair, penteia esse cabelo!  Também não permite que deseje ser mãe em tempo integral, você tem um MBA no curriculum, vai ficar em casa apenas cuidando de um bebê?
Dia desses encontrei uma vizinha que ainda estava gravidíssima da última vez que nos vimos –  e eu podia jurar que tinha sido ontem. De tailler, salto, olheiras e sem o bebê na barriga, conta que está atrasada para chegar ao escritório. Foi obrigada a voltar ao trabalho antes do fim da licença-maternidade, desabafa meio chorosa, meio conformada, porque sempre há boletos e mais boletos a serem pagos. Os chefes deixaram escapar nas entrelinhas que ou ela retornava depois de um mês ou perderia os projetos que tocava desde antes da gravidez e, de quebra, o emprego. O projeto mais importante da sua vida, o filho, estava sendo entregue a uma babá que deve ter deixado os próprios filhos com outra babá que deixou os próprios filhos com uma vizinha. O pai? Também não pode abrir mão do trabalho e teve uma proposta de home office recusada pelo chefe.
Colocar um novo ser-humano no mundo é um projeto coletivo, pelo menos deveria ser. Porque os bebês precisam da mãe, isso é sabido, também das amigas da mãe e da avó. Mas também do pai, (sim, do pai), dos avôs, dos padrinhos, dos vizinhos, dos chefes do pai, dos chefes da mãe, do prefeito, do governador, do Congresso, do presidente da República (sim, deles também). A família pode e deve dividir as responsabilidades, os empregadores podem e devem flexibilizar o horário de trabalho, os representantes do poder público podem e devem criar vagas nas creches e nas escolas e discutir, com seriedade, a licença parental estendida, dividida igualmente entre o pai e a mãe. Se ninguém se engajar nessa aventura que é formar um cidadão, quem vai sofrer é a mulher. E a criança, porque nós, mulheres, não conseguimos dar conta de tudo o que ela precisa.
Mas o filho não é meu, oras, quem pariu Mateus que o embale! O que eu vou ganhar ao ajudar na criação desse bebê?, pergunta o leitor. Você, pessoalmente, nada. Mas o mundo onde você está inserido, tudo. A sociedade vai receber, como pagamento, no futuro, um cidadão emocionalmente mais seguro, solidário, equilibrado, daqueles que a gente se ressente tanto por não encontrar aos montes por aí. E uma mulher mais feliz, porque pôde fazer escolhas baseadas também em seus desejos – ser mãe em tempo integral tem de ser uma escolha, não uma obrigação, assim como decidir se manter no mercado de trabalho, mesmo com filhos.
Não, não somos super-mulheres. Não, não somos heroínas, se você começou a criar um meme com esse texto, pode parar. Ah, também não queremos flores e bombons no dia internacional da mulher, toda mulher gosta de chocolate, decretou o gerente do RH ao propor aquela ação marota de 8 de marçoSabe que a gente gosta mais? É de igualdade de direitos e de deveres, amigo.
Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, decidimos eu, Nana Soares e Ruth Manus, três blogueiras, três amigas, criar três textos amigos, três textos irmãos. Todos eles falando sobre a importância da união feminina, cada um sob um ponto de vista diferente. Queremos, nessa semana, mostrar o avesso da competitividade entre mulheres – poderíamos estar disputando likes, shares e leitores, mas não é nisso que acreditamos, nem é isso que queremos ser. Nossa condição de mulher nos une, nossas diferenças nos enriquecem. Como diria a poeta: “se juntas já causa, imagina juntas”. Se individualmente já somos fortes, imagine unidas.