Foto: Pixabay

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Esqueça os grupos de Whats App onde jorram memes sem sentido, apitam vez em sempre informações inverídicas sobre política e economia ou piadas sem graça daquele tio do pavê.

Eu quero conversar com vocês sobre os grupos de mães no Whats App. Se o seu filho tá entrando na escola agora, pre-pa-ra: você mal piscou e… pííí. Foi incluída em uma dessas comunidades virtuais.

Mas esqueça as matérias que mostram grupos descontrolados, onde mães falam mal de outras mães, da escola, das professoras ou de crianças “novas” da classe, que são vítimas de bullying materno e excluídas das atividades da turma (sim, isso existe). Eu quero contar pra vocês que essas comunidades podem ser lugares de cooperação e ajuda e podem servir como uma rede de proteção igual àquelas de antigamente, quando nossas avós podiam contar com todas as irmãs, tias e vizinhas para a criação dos filhos, bastava apenas bater na porta.

Tenho apenas o Samuel, 6 anos, e, por isso, faço parte apenas de um grupo no Whats App, administrado pela mãe de uma colega de classe do meu filho. Nunca rolou mensagem de “bom dia!” e nem memes de gatinhos fofos, porque a mulherada é focada e sabe que lá o objetivo é outro: tornar nossa vida corrida mais prática:

“Gente, o casaco de frio do Samuel foi na mochila do filho de vocês?”.

Essa troca de mensagem é clássica. As crianças ainda são pequenas, muitas vezes tiram as peças do uniforme e saem enfiando em qualquer mochila. Troque Samuel por Clara, Lucas, Matheus, Yasmin, Pedro. Todas as mães do grupo já fizeram essa pergunta básica depois de abrir a bolsa do filho e sacar que… tá vazia.

“Não, Rita, aqui não tem nada!”

“Nada na mochila da Yasmin”

“Nada na do Matheus, Rita”.

E por aí, vai. Putz, ele perdeu na escola. Manda bilhete.

Epidemias mil. Piolhos (sim, eles ainda existem). Se você mandar um alerta no grupo, dizendo que seu filho pegou, todas ficam espertas. Sem julgamentos, pípol. Se cuspir pra cima cai na testa, essa é a lei número 1 da maternidade.

“O Pedro tá doente, não vai para a aula, pegou com escarlatina. O primeiro sintoma foi uma infecção de garganta, meninas, fiquem de olho!”

“Tadinho! Melhoras para o Pedro!”

“Se precisar de alguma coisa, avise!”

Mas nem sempre somos assim, tão pragmáticas. Todas estamos sempre imersas em alguma culpa e não estar na porta da escola em dia de passeio para tirar aquela foto e dar aquele tchauzinho básico dói pra caramba. Foi aí que inventamos uma moda entre nós: fotografar loucamente todas as crianças da classe quando sobem no ônibus, lancheirinha nas costas, e postar no grupo. Começou sem querer: “Dá um tchauzinho aqui que eu vou mandar essa foto para sua mamãe!”, avisou a que inventou a parada, ao sentir que o quórum na porta da escola estava baixo, mas a tristeza estava alta no grupo do Whats App. Receber aquela sequência de imagens dos nossos guris no meio do expediente – nem sempre na melhor pose ou ângulo, já que eles estão agitados demais para fazer pose – sempre dá uma acalmada e tanto no coração, olha como estão felizes! A chegada do ônibus foi registrada por outra mãe e assim criamos um hábito, um acordo silencioso de cooperação nosso. Quem puder e estiver com a bateria do celular carregada fotografa algum momento especial da turma e compartilha.

Todas mães do grupo são diferentes, dá para notar. Talvez algumas não se frequentassem se os filhos não estudassem juntos, afinal a vida é assim: a gente não simpatiza com todo mundo que cruza nosso caminho. Mas temos algo em comum, que nos une: nossos filhos estudam juntos, se gostam, talvez sejam amigos até o final do ensino médio, já pensou? Estamos uma na vida da outra, mesmo sem querer. Então que valha a pena nossos caminhos terem se encontrado.

Aos poucos fomos ficando mais íntimas, claro.

“Vou levar o Lucas para brincar na pracinha, quem quer ir com a gente?”

“Meninas, estou procurando trabalho. Se vocês souberem de algo, me avisem?”

Sabe aquele momento que você fica presa no trânsito, seu chefe inventa uma reunião de última hora e você, simplesmente, não tem a quem recorrer?  O grupo do Whats App é o caminho, a verdade e vida.

Dia desses salvou minha pele. Fiquei presa em um evento, marido trabalhando à noite, avô na aula de dança.

“Socorrooooo. Vou ter que trabalhar até mais tarde! Quem adota meu filho essa noite?”

Ficou até difícil escolher com quem meu Samuca iria embora da escola, porque muitas mães do grupo se propuseram a ajudar. E ele foi para casa de uma amiguinha que já tinha ficado aqui em casa, em uma situação semelhante. E eu recebia, de tempos em tempos, fotos e áudios: “Oi, mamãe! tudo bem, viu? Eu e a Flor vamos comer comida japonesa com a mamãe dela!”

Horas depois encontrei meu filho de banho tomado, barriguinha cheia e brincando, feliz da vida. Como agradecer àquela mãe que levou mais uma criança pra casa no final do dia? Ela sorriu, disse que não era nada,  sabia que eu faria o mesmo por ela. Faria mesmo. Viva o WhatsApp e suas boas práticas que podem trazer à tona, também, tudo o que temos de melhor.

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