GravidezAtualizado às 23:40*

Nesta segunda-feira, 06/07, dia que a ANS, Agência Nacional de Saúde Suplementar colocou em vigor mudanças para diminuir os índices de cesarianas praticados dentro dos planos de saúde, a jovem Wellia Martins, 20 anos, completou 40 semanas de gestação. De “presente”, a convocação de seu médico do convênio para uma cesariana na próxima quinta, 07/07, porque, segundo ele, “o bebê não pode passar de 40 semanas”. A OMS, Organização Mundial da Saúde, afirma que uma gravidez normal, ou “a termo”, pode terminar entre 37 e 42 semanas, ou seja, Wellia ainda pode esperar pelo parto normal pelo menos por mais duas semanas, já que ela e o bebê estão saudáveis.  Wellia sabe disso e decidiu que vai “faltar” na cesárea agendada pelo seu médico à revelia dela. “Minha filha vai nascer a hora que ela quiser!”, afirma. Ela me conta, também, que avisou desde o início do pré-natal que queria parto normal e o médico sempre disse que ela tinha tudo para ter um.

Entre as novas regras que entraram em vigor ontem, agora é necessário que o médico anexe um partograma ao prontuário da gestante, mostrando toda a evolução do trabalho de parto. A ideia é acabar com as cesarianas eletivas que chegam a 84% nos planos de saúde e garantir que a mãe pelo menos entre em trabalho de parto, um sinal claro de que o bebê está pronto para nascer. Quando houver indicação de cesariana sem o trabalho de parto, um relatório médico detalhado deve ser apresentado justificando porque se optou pela cirurgia em vez do parto normal, mais seguro para mãe e para o bebê.

Mas não foi apenas o médico de Wellia que virou as costas para as novas regras da ANS. Nas redes sociais, não foi difícil encontrar outros médicos criticando e se articulando contra a nova resolução da Agência Nacional de Saúde Suplementar.

Esse médico, que vou chamar de Dr. T, tem uma página no Facebook e nela expôs seu “ponto de vista” sobre as novas regras. Foi quase um tutorial de como burlar o novo sistema e, de quebra, como colocar na cabeça dessas mulheres algumas dúvidas sobre a segurança do parto normal. Primeiro Dr. T. enumerou uma série de perguntas que a gestante deve fazer ao seu médico: “Esclareçam suas dúvidas em relação aos riscos do parto vaginal em gestações de risco, risco do parto normal em apresentação pélvica, retardo de crescimento, hipertenção (sic), macrossomia, 12 horas de bolsa rota, etc, etc.” Note que ele pede às gestantes que perguntem aos seus médicos sobre todos os supostos riscos de um parto normal. Sobre os riscos de uma cesárea desnecessária, como maiores índices de prematuridade (12% dos bebês nascidos de cesariana vão para a UTI enquanto apenas 3% dos que nascem de parto normal), infecção, hemorragia e mortalidade materna, nenhuma palavra ou alusão. O médico continua. “Se a decisão for fazer uma cesárea por indicação médica ou opção, a paciente vai assinar um termo de consentimento livre e esclarecido e o médico pode tranquilamente fazer a cesárea! Não há objeção nenhuma nessa situação, e não vai ser essa ANS cheia de petistas e malucos que vai mudar o que for uma decisão de médico e paciente!”. Ele termina lá pelas tantas, afirmando: “Não tenham dúvida. Essa idiotice vai ser derrubada logo! Se seu médico não estiver tranquilo para fazer sua cesárea, podem ter certeza que vão ter milhares de obstetras como nós que vão fazer!”

 

 

A Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, SOGESP, enviou uma newsletter a todos os seus médicos associados com o “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido”, prontinho para ser impresso, para ser entregue às gestantes que querem uma cesárea mesmo sem indicação médica. Embora haja uma linha dizendo que é para deixar a gestante ler o termo e “respeitar sua decisão”, o informativo parece um guia de como continuar a fazer todas as cesáreas que eram feitas antes, só que agora de forma legal. Não há pedidos para que os médicos se unam contra os planos de saúde (já que o valor baixo pago ao parto normal sempre foi dado como motivo para a epidemia de cesáreas), não há reflexão sobre qual deve ser o papel do médico no nascimento. Nada. O único momento em que o parto normal é citado na newsletter é para introduzir um outro Termo de Consentimento, para àquelas que optarem pelo parto normal tomarem ciência que esse parto também pode virar cesárea. Mas, verdade seja dita: no Termo de Consentimento a ser assinado pela gestante há todos os riscos implicados em uma cesárea. Se a mãe ler atentamente antes de assiná-lo, vai pelo menos pensar um pouco na escolha que acabara de fazer ou que foi levada a fazer, nem sempre pelos motivos corretos. (Leia um post sobre indicações reais e fictícias de cesariana no blog da Dra. Melania Amorim).

Wellia vai faltar à cesárea agendada à revelia pelo seu médico. "Minha filha vai nascer a hora que ela quiser!"

Wellia vai faltar à cesárea agendada à revelia dela. “Minha filha vai nascer a hora que ela quiser!”

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Febrasgo, também se posicionou oficialmente, afirmando que “é a favor do incentivo ao parto normal no Brasil, desde que seja assegurada a saúde da mãe e do bebê”. Mas, na sequência, a Federação desqualifica uma das ações da Agência Nacional de Saúde de divulgar os índices de parto normal e de cesariana de cada obstetra, “porque existem profissionais especializados em partos de alto risco que podem ter índices maiores de cesárea, mas isso não significa que não fazem parto normal”. A matemática comprova que se um médico tem altíssimos índices de cesárea, isso significa, na outra ponta, que tem baixos índices de parto normal. E contra números, não há argumentos. Ele pode até saber fazer. Mas não é um expert. E o medo das mulheres é um só: conseguir o tão sonhado parto normal com um médico que desde a faculdade tem aprendido a só fazer cesárea. Essa falta de prática pode virar, facilmente, intervenções discutíveis como cortes no períneo ou até desaconselhadas como manobras agressivas para apressar o nascimento do bebê, que já são, reconhecidamente, consideradas violência obstétrica.

Resta saber agora se as novas regras irão “pegar”, como se diz por aqui. E se alguém for fazer uma fiscalização, divida os resultados com a gente. Adoraria saber os motivos pelos quais uma menina de apenas 20 anos com uma gravidez saudável e sem intercorrências teve uma cesárea eletiva agendada. Adoraríamos entender, também, porque ser medalha de ouro no quesito cesarianas dá tanto orgulho, em vez de vergonha, a um médico como o Dr. T.

* ATUALIZAÇÃO às 23:40:

O ginecologista e obstetra Túlio Tomas do Couto, embora não tenha sido identificado neste post, decidiu identificar-se nos comentários do portal do Estadão como sendo o Dr. T mencionado no artigo. Ele enviou um email ao blog pedindo para que alguns esclarecimentos fossem dados sobre sua postura em sua página pessoal e pública no Facebook de onde os “prints” foram retirados. Por isso, abrimos espaço a ele. Primeiramente ele quis que se deixasse claro que ele não é o obstetra da paciente Wellia Martins. Embora o blog acredite que essa informação esteja clara, decidiu acrescentar a palavra “outros” na seguinte frase: Mas não foi apenas o médico de Wellia que virou as costas para as novas regras da ANS. Nas redes sociais, não foi difícil encontrar outros médicos criticando e se articulando contra a nova resolução da Agência Nacional de Saúde Suplementar.”

Dr. Túlio afirma que o texto compartilhado em sua página profissional, Dr. Túlio, e que foi utilizado neste artigo foi compartilhado de uma outra página, não sendo de autoria dele. “Não fui em que escrevi apesar de concordar com muitas colocações que foram feitas pelos autores do texto”, afirmou. O blog argumenta que quando se compartilha um texto em página pública e profissional, sem nenhum adendo, sem citar a fonte ou fazer um comentário criticando-o ou contradizendo, estamos subscrevendo o conteúdo do texto, ou seja, pondo-se de acordo com ele.

Dr. Túlio faz uma série de argumentações sobre vias de parto e as resoluções da ANS, as quais eu reproduzo a partir de agora, da forma como me foram enviadas:

“A literatura médica atual tem mostrado cada vez mais que a morbimortalidade em recém-nascidos de parto normal ou Partos Cesárea em pacientes higidas não difere de maneira estatisticamente significativa ! Em relação a norma da Agência Nacional de Saúde eu vejo como uma tentativa desesperada de impor a médicos e pacientes qual a melhor maneira de seus filhos nascerem,  e vejo que as gestantes tem todo o direito de desde que devidamente esclarecidas optarem por seus filhos nascerem de parto normal ou cesárea ! Tanto que no mesmo dia a Agência Nacional de Saúde divulgou que depois da gestante assinar um tempo de consentimento livre e  esclarecido poderia realizar seu parto cesárea , se assim o quisesse! Da mesma maneira que acredito que a gestante que opta por ter parto normal deva ter sua opinião respeitada desde de que o parto seja realizado em ambiente hospitalar e com toda segurança, também tenho convicção de que é um direito da gestante desde que devidamente esclarecida opte por ter parto Cesárea! Sou  frontalmente contra a assistência de parto domiciliar ! O parto domiciliar no mundo inteiro está sendo abandonado pois os riscos para mãe e para o recém-nascido são muito claros e evidentes !”

O blog deixa claro que é um espaço de artigos opinativos e não apenas de matérias jornalísticas, embora sua autora seja jornalista de formação. Em um artigo há comentários, análises, críticas, contrapontos, opinião e reflexão. Foi isso o que o blog fez e continuará fazendo.

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