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Até na guerra há regras. De acordo com leis internacionais assinadas por diversos países, entre eles o Brasil, é proibido ataques a civis não envolvidos na batalha. Não pode haver violência sexual. É crime matar indivíduos que baixaram suas armas e declararam estar rendidos. É proibido usar armas químicas, torturar prisioneiros, destruir monumentos históricos. E, mais importante: não se pode recrutar crianças e menores de 15 anos nas forças armadas ou colocá-las no front de batalha. São crianças, oras.

Só que no Coliseu digital não há civilidade, parece não existir princípios. Os que são colocados nessa arena têm de enfrentar os animais selvagens. Não gostaram do seu post, posicionamento, reportagem, coluna ou artigo? Não se iluda pensando que tal discordância será oportunidade para um bom debate de ideias, não mais. Em vez disso tranque as portas e suas redes sociais, desinstale seu whats app, mude seu caminho para o trabalho, tire a smartv da tomada, renove a receita do seu estabilizador de humor e coloque as crianças dentro de casa porque a tendência é que você seja atacado fortemente na linha abaixo da cintura. Um exército de seres irracionais pode revirar seu lixo, furar o pneu do seu carro, ameaçar seus filhos. Sim, ameaçar aquilo o que você tem de mais precioso só para te desestabilizar e assim ganhar uma guerra onde as crianças foram enfiadas sem nem mesmo entender a razão.

Há uns anos, depois de publicar um texto aqui no blog, recebi uma série de mensagens com a mesma ameaça: ‘eu sei onde seu filho estuda’. Embora eu apostasse que a pessoa não conhecia a rotina da minha família, quase enlouqueci. Minha vida virou de pernas para o ar e, ainda bem, essa lembrança amarga é só minha e do meu marido. Já a pequena Laura, filha da ex-candidata à vice-presidência Manuela D´Ávila, não teve a mesma sorte. Com apenas poucos meses de vida sentiu o peso do ódio dos dias atuais levando um tapa no rosto, desferido por uma mulher que acreditou em uma notícia falsa sobre a sua mãe (Manuela foi “acusada” de fazer enxoval em Miami, uma mentira, mas qual seria o problema se ela realmente tivesse ido?). A menina tem crescido sem aquela ilusão infantil de que a maioria dos adultos gosta de crianças, já que vira e mexe ela e mãe são hostilizadas na rua, em aeroportos e até em zonas que deveriam ser “livres de guerra”, como pracinhas cheias de pais e crianças.  Triste, não?

As histórias se acumulam: depois de uma matéria jornalística que desagradou alguns apoiadores do presidente, a jornalista Vera Magalhães teve o endereço da escola dos filhos divulgado. Há alguns meses, a vítima foi a mãe do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que participou de uma série de reportagens sobre a Operação Lava Jato. Arlene, que enfrentava um câncer terminal, foi atacada digitalmente por haters que acusavam de mentir sobre o próprio estado de saúde (ela morreu meses depois das ofensas e injúrias). Outra que sofreu meses de ataques foi a filha da deputada federal Maria do Rosário: uma falsa imagem sua “drogada e perdida” rodou os whats apps de todo o Brasil com o objetivo de desestabilizar sua mãe, uma congressista super combativa pelos direitos humanos.

“Ah, mas eles são comunistas, abortistas, jornalistas, esquerdistas, merecem o que estão passando!”, dirão vários comentaristas de internet – todos sem rosto, mas com uma família para chamar de sua, aposto. Colocar a culpa na vítima faz com que a gente não enxergue o absurdo que é ver, todos os dias, pessoas inocentes serem jogadas às feras sem nunca ter clicado em qualquer quadradinho “eu concordo com os termos de uso” ou “tenho maturidade ou disponibilidade para aguentar o jogo sujo das redes sociais”. 

Uma amiga querida professora e escritora contou uma vez que seus alunos ficavam espantados quando ela revelava que uma das aulas que ministraria seria sobre Direito de Guerra, já que o senso comum diz que um conflito como esse seria, na essência, a falência do Direito. Sem leis o passo seguinte é a barbárie, explicou. Todo combate, sangrento ou não, tem de ter regras. Há de se ter ética. Ao contrário do que vemos todos os dias nessa guerra digital.

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