Foto: Arte/Estadão

Você está acostumado a ler sobre minhas reflexões sobre maternidade nesta coluna. Hoje, excepcionalmente, abro espaço para a história da Suzy Liz*, 38 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Quando eu descobri que estava grávida, morava nos Estados Unidos. Eu não queria ter meu filho longe da minha família e como algumas amigas me contavam que lá as mulheres sofriam muito durante o parto, decidi dar à luz no Brasil. Com sete meses eu viajei para Curitiba e fiquei perto da minha mãe, que estaria ao meu lado no parto. Comecei a fazer pré-natal com um médico particular, que logo começou a me pressionar para marcar uma cesárea. Eu não queria fazer uma cirurgia e minha mãe me apoiou, ela teve cinco filhas de parto normal e sempre me contou que a recuperação era boa. Ela não deixava que eu me esquecesse quanto era jovem e saudável e dizia que eu podia muito bem dar à luz sem passar por uma cirurgia.

Daí eu segui o conselho de uma enfermeira amiga da minha mãe e fui ter meu filho pelo SUS. Ela me contou que a maioria dos médicos que atende pelo convênio tem altos índices de cesarianas e que a chance de eu escapar de uma cirurgia era indo parir em um hospital público.

Assim que eu entrei no hospital começou a violência. Minha mãe foi impedida de ficar comigo, disseram que eu não tinha direito a um acompanhante. As enfermeiras me levaram para uma sala de triagem e fizeram o primeiro “exame de toque”* de um jeito extremamente grosseiro. “Por que você tá gritando?”, perguntou uma enfermeira. Eu estava apenas gemendo de dor, a cada contração. “Para de gritar, onde já se viu ficar gritando desse jeito!”, ela continuou reclamando alto, para todo mundo ouvir. Depois fui levada para outra sala e um médico disse: “abaixe as calças, deite e abra as penas”. Mais um exame de toque, esse bem mais doloroso.

Cerca de uma hora depois fui levada a outra sala. Mais um exame de toque, desta vez de uma médica plantonista, que disse que iria colocar uma sonda do meu ânus para uma lavagem intestinal.  Como eu não concordei, começaram a me tratar de um jeito ainda pior. Fui levada para a sala do pré-parto e fiquei junto a outras duas mulheres que também estavam em trabalho de parto. As dores foram ficando insuportáveis e eu comecei ficar desesperada. Ninguém vinha me acudir, nem me dar qualquer tipo de analgesia. Eu levantei da maca e fui pedir às enfermeiras algum alívio para dor. Elas negaram e começaram a gritar: “Você está fazendo muito barulho, você tem que calar a boca!” Eu também pedi água, estava com muita sede, e me negaram, disseram que eu não podia beber nada.

Eu voltei para minha cama e comecei a delirar de dor, estava sofrendo muito. Eu me lembro de pouca coisa, mas sei que comecei a gritar pedindo socorro e uma outra grávida, que estava no mesmo quarto que eu, decidiu levantar da cama para buscar ajuda. Ela conseguiu que uma enfermeira e uma médica viessem me ver, mas as duas logo começaram a me ameaçar, disseram que se eu “não parasse” iam me trancar num quarto sozinha. “Na hora que você foi fazer seu filho você não gritou desse jeito, gritou?”, disseram. Os xingamentos continuaram, elas mandavam eu calar a boca. “Você não foi mulher para abrir as pernas? Então seja mulher e fique quieta!”

Quando elas saíram do quarto eu aproveitei para arrancar o soro do braço e andei até o banheiro. Comecei a beber água da pia, estava há horas sem poder beber nada, sentia sede como se estivesse no deserto. Passei água no meu cabelo, no meu rosto. As enfermeiras viram e me puxaram pelo braço, me chamaram de irresponsável e me levaram para outra sala, o tal lugar onde prometeram “que iam me deixar sozinha”. Fiquei lá por mais algumas horas, sem assistência, sem ajuda, sem nada. Eu implorava, “meu filho vai nascer, alguém me socorre”, mas ninguém vinha, ninguém me ouvia, eu devo ter ficado lá umas três, quatro horas sozinha. Foi quando entrou um médico que me disse que finalmente íamos para a sala de parto e que tinha que me examinar. Fez mais um exame de toque, acho que foram dez nas oito horas que eu já estava lá. De repente ele me comunicou que os dois estudantes que estavam com ele também iriam fazer o toque. Eu recusei, não deixei que me examinassem. O médico começou a me ofender, disse que eu “não estava colaborando” com o hospital, que eu era uma paciente “muito difícil” e, assim, eu “só estava piorando as coisas” para o meu lado.

Quando eu finalmente cheguei à sala de parto, me deitaram em uma maca e prenderam minhas pernas com uma espécie de uma presilha. Eu olhei ao redor e tinha umas vinte pessoas. Minha mãe não estava na sala, mas havia vinte estudantes assistindo ao meu parto. Todos eles fizeram exame de toque em mim. Eu gritava, pedia para que eles parassem com aquilo, mas eles não me escutavam. É como se eu não existisse. Só a minha vagina importava ali.

Depois que todos me examinaram, uma enfermeira subiu na minha barriga, para “empurrar” o bebê enquanto eu fazia força. Eu ficava sem ar, sentia muita dor e, na época, não sabia que esse tipo de manobra era contraindicada e perigosa. Mas eu fazia força, eu precisava sair dali, estava apavorada.  Foi quando ouvi um som de tesoura e senti o médico me cortando. Eu dei um grito, “o que é isso, o que é isso?”. Daí o médico explicou aos estudantes que meu deu um pique*, para “ajudar” o meu filho a nascer. Aí ele fez mais um corte no meu períneo*, sem anestesia, sem nada. A cada contração a enfermeira subia na minha barriga, eu fazia muita força, eu precisava que aquilo acabasse logo.  Quando meu bebê finalmente nasceu eles me mostraram apenas de longe, não deixaram que eu segurasse, dizendo que eu estava tendo uma hemorragia, não pude cheirá-lo, beijá-lo, nada disso. Eu gritava “meu filho, me dá meu filho!”, mas a enfermeira levou o bebê para o berçário e eu só pude vê-lo mais de seis horas depois, porque uma enfermeira se compadeceu de mim. Acho que tomei uns 20 pontos, que inflamaram e eu demorei meses para poder voltar a ter relação sexual, foi horrível.

Os anos passaram e eu estava decidida a nunca mais ter filhos. Eu me separei, mudei para a Inglaterra e quando me casei de novo, meu marido disse que queria um bebê. Eu descartei essa possibilidade, não queria parir nunca mais, preferia adotar. Quando engravidei por acidente fiquei desesperada, estava decidida a abortar. Meu marido chorou muito e o médico que me atendeu no posto de saúde do bairro onde moramos aqui em Londres me acalmou, disse que o parto não precisa ter dor. Fui encaminhada para a midwife, a parteira, que é quem faz os partos de baixa complexidade no Reino Unido. Ela percebeu que eu tinha todos os sintomas de stress pós-traumático, cuidou muito de mim durante toda a gestação. Fui muito bem tratada e consegui ter minha filha de parto normal, sem dor e sem violência. Foi maravilhoso, minha bebê veio direto para mim, para o meu peito. Ali eu vi que o parto pode e tem que ser um momento de alegria. Por isso eu decidi estudar e virei midwife. Nos últimos anos fiz mais de 500 partos normais respeitosos e hoje sou ativista pelo parto humanizado. Porque parir é bom, pode ser bom.”

Exame de toque*: o médico introduz dois dedos na vagina para tocar no colo do útero e avaliar a evolução do parto.

“Pique” ou episiotomia*: corte no períneo*, região entra a vagina e o ânus.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.