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Assim que você anunciar sua gravidez para a família, os amigos e a galera da firma, prepare-se: sua gestação será tema das rodinhas do escritório, das reuniões de família, das salas de espera dos consultórios. E não existe nada que dê mais vontade de puxar assunto que uma barriga de grávida – perdeu, previsão do tempo! Se você entrar em um elevador e as pessoas não tiverem dúvidas de que sua barriga cresceu porque um bebê lindo e fofo está a caminho, as chances de que o tema da conversa naqueles próximos trinta segundos seja você e sua gestação são grandes.

– Está grávida, que linda!

– É menino ou menina?

– Para quando é o bebê?

– Que notícia maravilhosa, parabéns!

Óbvio que a maioria desses comentários vem do coração e é muito, muito bem-vinda. A chegada de um bebê é uma das poucas coisas que ainda comovem as pessoas nesses dias tão bizarros, tiram-nas do piloto automático, enchem-nas de esperança. Mas, lembre-se: não serão apenas as pessoas legais que serão tocadas pela sua gestação. Os palpiteiros de plantão também saem da toca quando uma grávida entra em seu raio de visão. Respire fundo e aperte os cintos porque assim que sua barriga der o ar da graça a temporada de opiniões não solicitadas e comentários sem pé nem cabeça estará oficialmente aberta!

-Que barriga redonda! É uma menina, né?

-Não, não! É um menino, vai se chamar Samuel.

-Não, não. Essa barriga é de menina, eu nunca erro.

Fiz cara de alface e voltei ao livro que estava lendo, de onde não devia ter tirado o olho, aliás. Logo a dentista me chamou, livrando-me daquela mulher na sala de espera que, em vez de ler mãos como as ciganas, lia barrigas e acreditava saber da minha gravidez mais do que eu, os médicos e o ultrassom, veja só.

Se você está grávida, a barriga despontou, mas ainda não foi abordada por gente sem noção, não respire aliviada: sua hora de escutar bobagens vai chegar e está bem próxima, eu posso sentir a vibração. E vai ser quando você estiver bem distraída no corredor do supermercado, na fila do caixa eletrônico, no restaurante ou, pasme, em uma festa da família onde acreditava estar segura e livre de intrometidos. Ledo engano. Sempre terá um sem noção com um comentário completamente dispensável e indesejado na ponta de língua, só esperando você (e sua barriga) aparecerem no radar.

“Nossa, como você está gorda! Tem certeza que só está grávida de um?” (Comentário clássico feito na maioria das vezes pelos tios do “é pavê ou pacumê?”) Nove em cada dez grávidas ouvem essa observação tosca e, se não acharem graça, a culpa nunca é da qualidade discutível da piada e sem de seus hormônios à flor da pele, “cadê o seu senso de humor?” – pergunta o tio inconveniente, fazendo beicinho, magoado porque tomou uma “voadora” da sobrinha grávida.

Engordou nada na gravidez e acha que por isso está livre dos comentarios? Nã-nã-ni-nã-não. Grávida nenhuma está em segurança.

“Que barriga pequena! Magra desse jeito você não vai parir um bebê, mas sim um ratinho!”, ouviu uma amiga durante um daqueles exames que os obstetras pedem nas últimas semanas de gestação. A comentarista de gravidez alheia era mãe de outra gestante que fazia o mesmo exame no leito ao lado. A palpiteira, que pena, não estava na área quando o “ratinho” nasceu uma semana depois com três quilos e quatrocentos gramas, o peso de um bebê normal.

Constranger a grávida e seu marido ao lembrar em alto e bom som que o casal, pasme, faz sexo (aliás, não é graças ao sexo que os casais engravidam?) também é um clássico e está no top 1o dos comentários sem noção.

“Grávida de novo? A televisão de vocês está quebrada?”

“Mais um filho? Vocês estão sem energia elétrica em casa?”

Eu tentei, juro que tentei, mas não consegui encontrar uma explicação lógica além de falta de semancol pura e simples para os outros comentários feitos a algumas amigas:

“Tão novinha e já grávida?”, escutou uma amiga, de 28 anos.

“Você sabe quem é o pai do seu filho?” (Como assim, gente? Quem pergunta está se candidatando a assumir a criança, é isso?)

“Tomara que essa gravidez agora vá para a frente!”, observação feita a uma colega de trabalho, grávida meses depois de ter perdido um bebê. (Se alguém encontrar a sensibilidade dessa pessoa perdida por aí, favor avisar onde que a gente manda buscar com urgência.)

“Já está grávida de quatro meses? Mas você sabe que é possível perder o bebê até o sexto mês, né?” (Mais uma da série “cadê a noção, meu povo?”)

“Está grávida? Agora você sabe que então vai ter que doar seu cachorro, né?”

“Perdeu um dos bebês? Melhor assim, você não ia dar conta de gêmeos!”

Alguns desses comentários, embora completamente inoportunos e inconvenientes, afetam muito pouco a sua vida – na maioria deles um simples ahãm + uma cara de alface encerram o assunto. Mas existem algumas observações feitas às grávidas que são tóxicas, danosas mesmo, porque podem atingir em cheio a confiança delas em sua capacidade de gestar, parir e amamentar e cuidar dos filhos. E talvez não haja ahãm suficiente em estoque para lidar com comentários como esses:

“Você não vai conseguir amamentar! Olha o tamanho do seu peito!”, decretou a moça, que trabalhava no caixa do restaurante onde uma amiga almoçava com o marido.

“Nossa, você é nova demais, não tem maturidade para ser mãe. Esse bebê vai acabar sendo criado pela avó, coitado dele!”

“Grávida a essa altura da vida! Você está velha, já! Vai se arrepender de largar as mordomias de sua vida de executiva!”

Ninguém poderia definir melhor a palavra ‘palpite’ do que o Aurélio – ele mesmo, aquele Buarque de Hollanda do dicionário. Segundo ele, palpite é a “opinião de quem se intromete, ou não entende do assunto”. A minha amiga “sem peito” amamentou três filhos muito bem, obrigada por perguntar, mas confessa que quando a moça do restaurante disse que ela não ia dar conta, que “não adiantava nem tentar”, ficou balançada. A moça “novinha demais” me contou que tem muita vontade de acertar com o bebê que ainda está gestando, mas de tanto ouvir que “não é capaz” já pensa em desistir e realmente delegar os cuidados com a bebê para a mãe, “mais experiente”. Já a mulher com mais de 40, grávida depois de quase duas décadas dedicadas exclusivamente à carreira, não dá bola nenhuma para a torcida, “quem sabe de mim sou eu”, disse, enquanto levantava o dedo médio para deixar claro seu desprezo pelos comentaristas seriais da vida alheia.

Maturidade, sua linda.

(Esse é um dos capítulos do meu livro ‘Mãe sem Manual’, da Editora Belas Letras.)

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