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O útero repete o mesmo processo todos os meses: o tecido que reveste esse órgão, o endométrio, descama e é eliminado com o sangue da menstruação – isso, claro, quando a mulher não engravida. Algumas vezes essa menstruação reflui, levando endométrio para outros órgãos do aparelho reprodutor feminino, como trompas, útero e ovários ou algumas vezes até o intestino e bexiga, causando uma reação inflamatória crônica. É a endometriose, que além de provocar dores muitas vezes incapacitantes na mulher, pode ainda causar infertilidade. Segundo a Febrasgo, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, estima-se que 50% a 60% de adolescentes e adultas com dores pélvicas e até metade das mulheres diagnosticadas com infertilidade sejam afetadas pela doença.  “A endometriose é uma doença muito comum. E quando você fala que ele atinge de 10 a 15% de mulheres em idade reprodutiva, isso significa mais de sete milhões de mulheres brasileiras”, explica Maurício Abrão, coordenador da Ginecologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ele conversou com o blog sobre sintomas, tratamento e formas de prevenir a doença.

Blog: Quais são os sintomas da endometriose, como é que ela evolui, quais são os sintomas, como é que as mulheres podem ser diagnosticadas?

Dr. Maurício:  Essa doença tem um grande impacto na vida da mulher: É a principal causa de dor pélvica, é a principal causa de absenteísmo, que é a ausência  ao trabalho, e uma das causas principais de infertilidade feminina.  São seis os principais sintomas da doença, é o que a gente chama de ‘6 d´s’: dismenorreia, que é a cólica menstrual, em geral severa ou incapacitante; a dor entre as menstruações; a dificuldade pra engravidar; a dor na relação sexual na profundidade; a dor pra evacuar na menstruação e a dor pra urinar na menstruação.

Blog: Quando as mulheres identificam esses sintomas elas têm que buscar o ginecologista ou só se os sintomas se repetem durante muito tempo? Por que a cólica é uma coisa comum, às vezes a mulher sente um pouco de dor no período menstrual. Qual o principal sinal de alerta?

Dr. Maurício: O alerta ele pode vir da combinação dos sintomas, da severidade ou persistência deles. Então isso passa a ser super importante. Para você ter uma ideia, 40 a 50% das adolescentes que têm cólica incapacitante podem ter endometriose. Então é importante que o médico e o agente de saúde observem isso e que a própria paciente procure assistência médica quando houver essa combinação ou sintomas com uma intensidade um pouco maior.

Blog: Quais são os tipos de tratamento que existem hoje pra endometriose?

Dr. Maurício: Os tratamentos da doença podem ser clínicos ou cirúrgicos. O tratamento clínico se baseia no uso de analgésicos, anti-inflamatórios, medicações hormonais e até algumas medicações alternativas que podem tratar o sintoma da doença. Mas o problema é que o tratamento clínico não costuma tratar a doença em si. A gente não espera de um tratamento clínico uma redução dos focos de endometriose. Então, baseado nisso, existem hoje situações em que a gente indica o tratamento cirúrgico da doença e isso normalmente é feito por laparoscopia, que é uma cirurgia minimamente invasiva em que a gente vê os focos da doença e retira. Mas aqui temos um ponto importante: não é sempre que a cirurgia deve ser indicada e é o especialista que deve saber indicar ou não o procedimento cirúrgico. Outro ponto importante: a doença tem que ser vista por um especialista em endometriose e não pelo ginecologista geral ou pelo não-especialista, porque senão o risco de um tratamento incorreto é muito grande.

Blog: As cirurgias evoluíram nos últimos tempos, ou seja, estão menos invasivas?

Dr. Maurício: Houve uma incrível evolução das técnicas cirúrgicas pro tratamento das doenças, há a laparoscopia, que é uma cirurgia minimamente invasiva, a qualidade da imagem melhorou, os instrumentos que se utiliza melhorou também. Em situações específicas como, por exemplo, quando há endometriose ovariana, a gente consegue usar alguns tipos de laser. Existe, ainda, os chamados algoritmos terapêuticos pra se definir quem precisa de cirurgia e quem não. Esses algoritmos vão contemplar a intensidade do sintoma, o local da doença, e tudo isso lastreado por um bom exame clínico e exame de imagem, que é a grande evolução que aconteceu nos últimos anos, principalmente aqui no Brasil.

Blog:  Endometriose é sempre sinônimo de infertilidade?

Dr. Maurício: A endometriose pode gerar infertilidade numa frequência variável. Estima-se que talvez 50% das pacientes com endometriose possam ter infertilidade. E por que essa infertilidade acontece? Por aderências. A tuba uterina, que são as trompas, ficam obstruídas, seja por fatores hormonais, por dificuldades do embrião em grudar na cavidade uterina. Em situações avançadas, quando a paciente engravida, há um risco aumentado de abortamento. Então o binômio infertilidade-endometriose a gente sempre tem que considerar, por isso que eu citei que é possível que essa seja uma das, se não a principal causa da infertilidade feminina. E aí a gente vai selecionar o tratamento não só olhando pra dor, mas olhando também pra dificuldade pra engravidar.

Blog: As mulheres estão tendo mais endometriose ou elas estão sendo mais diagnosticadas com a endometriose? Dr. Maurício: Dentre as possíveis causas da doença, a gente tem que lembrar de dois fatores importantes. Primeiro é o refluxo menstrual, quando a mulher menstrua e essa menstruação pode refluir pelas tubas uterinas, levando o endométrio pra fora do útero e ele acaba se implantando em vários sítios na cavidade abdominal, gerando o que se chama endometriose. Mas como mulheres normais podem ter esse refluxo também, percebeu-se nos últimos anos que existe um gatilho, que é o gatilho do sistema imunológico. Então, com isso, a mulher de hoje acaba tendo mais endometriose porque ela menstrua mais, demora mais pra engravidar, tem menos filhos, amamenta menos, e consequentemente tem mais este refluxo e tem o background da imunidade também.  Imunidade relacionada ao stress do cotidiano, imunidade relacionada a fatores alimentares, que é o futuro quando tratamento de várias doenças de fundo imunológico. Então a gente percebe que realmente existe uma tendência atual de termos mais doença. Mas também existe o avanço do diagnóstico e o olhar maior aí da população pra esse tipo de problema.

Blog: Existem maneiras de prevenir a endometriose ou não existem formas de prevenção?

Dr. Maurício:  Eu acho que uma das principais formas de prevenção da doença é investir em qualidade de vida. É fazer atividade física regrada, é o olhar pra uma alimentação – e hoje se sabe que tem muitas questões na própria alimentação que diminuem inflamação. Mas, além disso, tem a questão do diagnóstico precoce também. É importante as mulheres buscarem assistência médica sempre que existirem sintomas.

Blog: A dor é sempre verdade quando a gente pensa em endometriose ou existem endometrioses que são silenciosas?

Dr. Maurício: Cerca de 10% das endometrioses podem ser silenciosas, assintomáticas, aparecendo eventualmente em uma pesquisa clínica. E por isso que é importante os ginecologistas terem isso em mente no momento do exame ginecológico de rotina.

Blog: Existe uma faixa etária em que a endometriose é mais comum ou ela aparece em diferentes fases da vida da mulher?

Dr. Mauricio: Ela aparece em diferentes fases da vida, mas é mais frequente ser diagnosticada por volta dos 30 anos, o que não significa que a doença apareceu nessa idade. A gente tem uma publicação bem interessante que mostra que o tempo entre o começo dos sintomas e o diagnóstico da doença é de por volta de sete anos. E quando o sintoma começa com menos de 20 anos de idade, esse tempo até o diagnóstico aumenta mais pra 12 anos, o que reforça a necessidade de a gente fazer campanhas de esclarecimento sobre esse problema.

Blog: Quais são os avanços em pesquisa em relação à endometriose?

Dr. Maurício: No Brasil, a gente começou a trabalhar com o diagnóstico por imagem da doença há alguns anos e foi a partir de 2007 que a gente fez uma série de publicações, seja na Universidade de São Paulo, seja na Beneficência Portuguesa, mostrando que é possível um bom diagnóstico clínico com um diagnóstico por imagem, com protocolos específicos, principalmente com ultrassom com protocolo pra endometriose. Então isso foi uma revolução no próprio olhar sobre o problema, isso tem proporcionado que a gente faça diagnósticos mais precoces e, acima de tudo, que a gente planeje melhor o tratamento da doença. Tem vários países, Estados Unidos, Austrália, países da Europa, que têm seguido esses protocolos, e o que tem ajudado muitas mulheres no mundo inteiro.

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