A doula Raquel Oliva em ação. Foto: Carla Raiter

A doula Raquel Oliva em ação. Foto: Carla Raiter

Roberta Costa, 30,  lembra de forma dolorosa o nascimento da filha, Giovana, em 2007. “Tive braços amarrados durante o parto e minha filha foi separada de mim durante 12 horas. Eu a ouvia chorar no berçário, mas ninguém a trazia para ficar comigo”, lembra. O parto, em um hospital particular em São Paulo, trouxe consequências dolorosas para a relação das duas. “Foi traumático. Tenho um bloqueio. Não me recordo de nada após o parto. Minha memória foi apagada. Não me lembro das visitas, da primeira mamada, nada. Só me recordo da cena em que desço no elevador indo para o carro, na saída do hospital. Fiz terapia para superar isso. Tive síndrome do pânico”, lembra.  Giovana, segundo a mãe, ficou 14 horas sozinha no berçário. “Ela nasceu pouco depois da uma da manhã e só veio para meu colo às três da tarde. Ela é uma menina muito insegura em relação a ela mesma e em relação aos outros e eu atribuo isso ao momento do nascimento dela”, conta.

Já a naturóloga Raquel Oliva, 32, tem uma relação ruim com o próprio nascimento. A mãe dela sempre falou pouco sobre o dia em que ela e a irmã chegaram ao mundo, uma conversa comum entre pais e filhos e que deveria ser recheada de boas recordações. “Sabemos que nosso nascimento foi repleto de violência”, conta. “E é muito ruim que tenha sido assim”, completa.

Essa experiência ruim “acendeu uma luz” em Raquel, quando estudante de Naturologia. “Na faculdade eu me questionava desde quando era possível promover saúde na vida de uma pessoa. A resposta ficou logo óbvia pra mim: desde o ventre”. Raquel começou a estudar as interações entre mamãe e bebê ainda dentro do útero e as implicações das gestações e nascimento para a vida futura do indivíduo, uma relação tão bem descrita pelo médico francês Michel Odent no documentário “O Renascimento do Parto”. “A capacidade de amar é, em grande parte, organizada e construída durante o período em torno do nascimento”, afirmou no filme de Eduardo Chauvet e Érica de Paula.

Fotografia: Kelly Stein

Fotografia: Kelly Stein

Depois de formada Raquel se dedicou a um curso de doula, profissional que oferece apoio emocional, tira dúvidas e orienta as gestantes antes, durante e depois do parto, sem fazer, contudo, qualquer procedimento médico. Decidiu se dedicar ao nascimento, queria que a chegada dos bebês fosse um momento respeitoso e cheio de amor.  Mudou-se para a Finlândia, onde o parto humanizado é uma realidade e não uma exceção. Lá as mulheres podem escolher ter o bebê em casa e no hospital, mãe e filho nunca são separados depois do nascimento e a opção pela cesárea eletiva, tão comum no Brasil, não existe. (Não por acaso o país é considerado o segundo melhor país do mundo para ser mãe, de acordo com o ranking da organização “Save the Children”, perdendo apenas para a Noruega.)

Já de volta ao Brasil e em parceria com a irmã, Lia, criou a Comparto, empresa voltada para a defesa do parto humanizado que presta serviços terapêuticos e educacionais no período perinatal, que foi escolhida, recentemente, no Projeto Mulheres de Impacto, uma parceria entra o site Benfeitoria, a Think Olga,  ONG dedicada ao empoderamento feminino e a ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas para igualdade de gênero e emponderamento feminino. Até o dia 15 de setembro a Comparto está no ar com a campanha de crowdfunding #CadaNascimentoImporta. O objetivo é arrecadar cerca de 32 mil reais para três frentes de projeto, segundo Raquel: transformar o site da empresa em um portal com informação de qualidade,  “bem colaborativo onde os profissionais poderão oferecer informações e as mulheres poderão debater suas dúvidas e questões em um fórum”,  criar um canal do You Tube com vídeos informativos sobre parto humanizado e também realizar uma conferência online para doulas que atendem mulheres em todo o Brasil.

Com mais informação e com o suporte de uma doula, o risco de partos violentos diminui. Roberta, do início da reportagem, “exorcizou” recentemente o parto violento de Giovana. Com a ajuda de uma doula, que não foi Raquel, ela conseguiu que o filho caçula nascesse de parto normal, sem intervenções, e viesse direto para o seu colo mamar. “Ela foi meu suporte físico e emocional durante toda a gestação, me abastecendo de informações. No momento do parto eu teria desistido se não fosse a doula, que me fez massagem quando a dor apertou, e também me lembrou a todo instante porque estávamos ali”, conta. Antônio nasceu há um ano seis meses, e chegou ao mundo em um ambiente acolhedor e cheio de amor. Assim como o nascimento dele, #CadaNascimentoImporta. Esqueça a hamburgueria. São projetos como o de Raquel que merecem sim o nosso apoio.

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