Thiago Queiroz e o filho mais velho, Dante Foto: Mary Hart

O blogueiro, escritor e engenheiro (sim, engenheiro) Thiago Queiroz, 36, é um dos caras mais atuantes  nas redes sociais quando o assunto é paternidade ativa. Pai de Dante, 5, Gael, 3 e de Maya, que nasce entre novembro e dezembro, ele descobriu que queria fazer com o primogênito “tudo diferente do que tinham feito” com ele. Começou a ler sobre “Criação com Apego”, “um conjunto de ferramentas que ajudam os pais a criar vínculos com seus filhos, através do atendimento consistente e amoroso das necessidades do bebê”, em definição feita por ele mesmo em seu blog, o “Paizinho, Vírgula!”. Só que Thiago fez mais quando descobriu que iria colocar uma criança no mundo: buscou se entender com o irmão e, graças a página do seu blog no Facebook, reencontrou o pai que não via há 18 anos. “Eu escrevi sobre como eu estava tentando resgatar o meu passado com a chegada do meu filho mais novo”. conta. O pai apareceu, na caixa de comentários, e perguntou se não havia chegado a hora deles se reencontrarem.  Sim, havia. “Eu falei ‘pai, vamos lá, chegou a hora sim’. A gente marcou um primeiro reencontro e foi… forte, conta. Thiago lança esse sábado, em São Paulo, o livro “Abrace seu filho” (Editora Belas Letras) e conversou com o blog.

Blog: Como nasceu em você o desejo de ser pai?

Thiago: Foi a partir do momento que eu conheci a Anne (Brumana, esposa). A gente morou junto, depois casou e aí começou a pensar ‘bom, acho que é a hora’, agora que a gente mudou para um apartamento mais calmo ‘vamos nessa’. A Anne tem ovários policísticos e achou que demoraria um ano, um ano e meio para engravidar. Ela engravidou no mês seguinte que a gente começou a tentar. E aí foi desesperador porque a gente pensava que ia ter um tempo maior para ‘planejar’ a chegada dos filhos (risos). Eu tinha 31 anos e ela 29 anos.

Blog: Como era a relação com o seu pai? Você tem o seu pai presente na sua vida?

Thiago: A relação com o meu pai era meio  ‘peculiar’, digamos assim. Porque meus pais se separaram quando eu tinha uns 15, 16 anos, em uma situação meio bruta, por assim dizer. A gente saiu de casa. Meu pai saiu para trabalhar em um sábado, no táxi, aí encostou um caminhão na porta de casa e minha mãe disse ‘vambora, vambora’. E a gente foi embora e eu, durante 18 anos, nunca mais vi meu pai. Até reencontrá-lo quando ele comentou uma postagem na minha página. (O Facebook do blog de Thiago, o ‘Paizinho, vírgula!’).

Blog: Sério? E o que fez sua mãe ir embora assim desse jeito?

Thiago: Nesse momento minhas memórias ficam assim meio nebulosas. Tem muita coisa que eu não lembro ainda, né, é até um processo que eu vivo na terapia, de resgatar essas coisas, porque abertura para conversar sobre essas coisas eu não tenho, não se toca nesse assunto. O que era dito para mim é que a relação entre eles era ‘insuportável e insustentável’, que ‘não dava certo’ e que a gente tinha que fugir e ele nunca mais podia saber onde é que a gente morava, onde a gente estava. Eu passei um boa parte da juventude meio ‘noiado’ que meu pai não podia saber onde é que eu estava.

Blog: Tinha havido violência doméstica?

Thiago: Não, não que eu tenha presenciado ou que tenham me contado.

O pai de Thiago, Valdírio, com o neto Dante em um braço e o amigo do menino em outro Foto: Maíra Matos

Blog: E como foi ter filho sem ter um pai presente?

Blog: Eu começo o livro (‘Abrace seu filho’, Editora Belas Letras) falando sobre isso, contando que eu tive meu primeiro filho (Dante, 5) sem ter um pai do meu lado, sem saber como era, sem ter com quem conversar sobre isso. Era uma situação meio esquisita, porque ao mesmo tempo que eu pensava que meu pai não fazia falta para mim, que eu não precisava dele, eu não admitia que eu sentia falta de não ter com quem conversar sobre essas coisas, de ter uma referência ali. Por mais que fosse uma referência de outros tempos, de outra abordagem, de outro pensamento sobre paternidade, me fazia falta ter a quem recorrer.

Blog: E como foi essa mensagem que seu pai mandou em seu Facebook?

Thiago: Foi durante a gestação do Gael (3 anos), quando eu refletia sobre como seria ajudar duas crianças, dois irmãos, a ficarem bem, porque eu não sei como é isso na vida real já que a relação com o meu irmão também é bem ruim. E daí eu entrei numa loucura, li muito sobre irmãos, mergulhei em um monte de coisa e descobri, nesse processo, que uma das coisas que eu devia fazer era, inevitavelmente, conversar com o meu irmão, tentar resgatar as coisas entre a gente. Iniciei uma conversa, fomos bater um papo só nós dois, eu pude entender um pouco mais o que ele sentia enquanto meu irmão e eu também pude falar como eu me sentia enquanto irmão dele. Foi muito bom. Nossa relação era muito ruim em parte por conta de como as coisas foram conduzidas entre nós, eu tinha medo de fazer a mesma coisa com os meus filhos, sabe? E eu escrevi um relato sobre essa conversa com meu irmão para o blog, contando como eu estava tentando resgatar o meu passado e como é que eu estava encarando isso com a chegada do meu filho mais novo. E daí nos comentários do Facebook aparece um homem com o nome do meu pai que escrevia assim: ‘Será que agora é chegada a nossa hora?’.

Blog: Nossa, que forte.

Thiago: Eu li aquilo, sabe quando você entra em negação? Eu sai (do Facebook). Voltei, pensei: ‘eu preciso ler isso, isso é importante’. Meu pai vinha ‘me seguindo’ há muito tempo já, acompanhando os meus passos. Mas nunca se aproximou, com medo da minha reação, tentando respeitar o meu espaço e tudo mais. E foi em função disso que eu entrei nesse lance forte de resgatar a minha história, porque eu tenho muitos lapsos de memória. E eu falei ‘pai, vamos lá, chegou a hora sim’. E a gente marcou um primeiro reencontro e foi… foi forte.

Blog: Como foi esse reencontro com o seu pai?

Thiago: Isso deve ter uns dois anos, foi em um café no Shopping Tijuca. A gente marcou para tomar um café, foi só eu e ele, porque eu queria que esse primeiro momento fosse assim. A gente se viu de novo, eu reconheci aquela voz que eu ouvia durante toda a minha infância. Ele me contou um pouco sobre a vida dele e foi isso o que mais me ‘bateu’. Conversando com ele eu pude ter esse empatia pelo papel de pai, de ver o que aconteceu com ele. Imagina só, um dia ele sai para trabalhar e quando volta para casa a família foi toda embora, só tinha deixado um colchão no chão. E desde então a gente tem resgatado essa nossa história e tem sido muito bonito, o jeito com que ele se reaproximou dos meus filhos, da Anne. Olha como o mundo dá voltas, né? Hoje eu consigo me relacionar com meu pai, adoro ter ele por perto, adoro que ele tenha contato com os meus filhos.

Blog: Você encara o reencontro com o seu pai como um momento importante para a relação com os seus filhos?

Thiago: Sim. Importantíssimo. Porque eu juntei mais pecinhas no quebra-cabeça da minha vida, da minha história, para eu conseguir montar. E me ensinou muito sobre expectativas. O meu pai acredita em coisas nas quais eu não acredito, mas a partir do momento que eu não tinha meu pai presente, eu construí um ideal de relacionamento que eu queria ter com ele nesse reencontro. Mas daí na hora em que eu fui encontrar com ele percebi que ele não pode me oferecer tudo o que eu estava querendo. Então eu tive que viver esse luto do pai que eu idealizei. Porque ele é meu pai, é o pai que me ama, que ama os meus filhos, e eu tenho que aceitar aquilo que ele tem para me oferecer.

Thiago autografando “Abrace seu Filho’ durante o lançamento do livro no Rio de Janeiro Foto: Maíra Matos

Blog: E isso fez com que você idealizasse menos o papel de pai para os teus filhos?

Thiago: Sim, sim. E me fez perceber que a relação entre pai e filho, independentemente dos valores que cada um tenha, se ela é baseada no amor e no respeito, que é uma coisa que a gente tenta perseguir todos os dias, eu acho que é o que importa.

Blog: Que tipo de pai que você é?

Thiago: Um pai mais consciente. Eu sei que não sou perfeito e nunca vou ser, mas o quanto mais genuíno que eu for comigo mesmo vai ser o melhor para eles. O quanto menos eu tentar ser uma coisa que eu não sou, que eu não consigo dar para eles, vai ser melhor para a nossa relação.

Blog: Você se mostra frágil para os seus filhos, conta quando tem dúvidas, quando não sabe alguma coisa? Os pais de antigamente não deixavam suas fraquezas transparecerem.

Thiago: Sim. Eu mostro para eles em todo o tempo, em todas as oportunidades. É uma coisa que é orgânica, eu não preciso me policiar para me mostrar assim. Se eu estou estressado, se eu grito e eles vem me questionar, ‘papai, você gritou comigo e eu fiquei triste, eu chorei’, eu me boto no lugar deles e digo ‘puxa, filho, desculpa, o papai errou, eu estou cheio de problemas na minha cabeça, o que não justifica, eu não devia ter feito isso’. Eu fico feliz de ver que meu filho criança, com 3, 4 anos, tem a liberdade de dizer uma coisa que o Thiago criança e nem mesmo o Thiago adulto teve coragem de dizer para o próprio pai ou para a própria mãe. Eu tenho com eles uma relação completamente diferente do que eu tinha como parâmetro antes. Como eu estou construindo uma relação de muito respeito com os meus filhos, eu dou muita voz a eles. Saber que eles ficam a vontade de dizer certas coisas para mim é o maior sinal de que eu estou num caminho que eu gostaria de estar seguindo na paternidade.

Blog: A sociedade te cobra para ser um pai mais duro?

Thiago: Sim, principalmente nos comentários de internet. Dizem coisas do tipo “quando ele crescer e der um tapa na sua cara aí você vai ver o que é que você está fazendo, você está criando errado os seus filhos, não sei o quê”. Mas em uma sociedade que cobra educação das mães, e muito pouco dos pais, isso acaba sendo uma coisa até meio que branda para o meu lado.

Anne, Gael, Dante e Thiago Foto: Mary Heart

Blog: Como você descobriu a Criação com Apego? (O assunto é um dos preferidos de Thiago tanto no blog, quanto no seu canal de You Tube e no seu podcast, o Tricô de Pais.)

Thiago: Até o Dante nascer nossa maior preocupação era com parto, não com criação de filhos. Mas quando eu peguei meu filho no colo a ‘ficha caiu’. Eu não sabia o que fazer da vida, mas sabia que não queria que fizessem o que fizeram comigo. Eu nunca tinha pensado nessas coisas, até então eu achava que tinha que ser aquele pai autoritário, se tiver que ficar de castigo vai ficar, vai dormir no próprio quarto – mas todas essas coisas foram por água abaixo quando meu filho nasceu. Foi aí que eu comecei a pesquisar algumas coisas pela internet, alguma coisa que fizesse algum sentido para mim. E foi assim que eu cheguei à ‘Criação com apego’ pela primeira vez. Foi surreal, porque eu li e aquilo fazia todo o sentido para mim, traduzia em palavras tudo aquilo que eu sentia e eu comecei a estudar loucamente o assunto, ler todos os livros sobre comunicação não violenta, ler coisas que me mostrassem como eu poderia criar meu filho de uma forma diferente do que eu tinha como referência.

Blog: Por que começar a escrever sobre isso?

Thiago: Eu nunca tive a intenção de escrever para que muitas pessoas me lessem. A gente frequentava um grupo de apoio para o parto e, assim que o Dante nasceu a gente ficou ‘órfão’ de grupo de apoio. Eu queria apenas continuar encontrando com as pessoas para falar sobre filhos e assim nasceu a vontade da gente criar um grupo no Facebook, o Criação com apego, depois que eu tinha entendido um pouco sobre o que isso era. Depois começamos a fazer encontros mensais e aquilo começou ajudar a gente muito, o Dante era pequeninho, a gente sentava e conversava sobre um monte de coisa e eu me sentia muito bem, eu me sentia acolhido, não me sentia um ‘maluco’. E nesse processo todo eu comecei a traduzir os princípios da criação com apego e, com o passar dos meses o pessoal do grupo começou a me dizer ‘cara, você tem que começar um blog’ e eu dizendo ‘que nada, eu não sou ninguém, eu sou só um engenheiro que tem um filho’. Mas assim as coisas aconteceram, assim nasceu o blog, assim eu comecei a escrever.

Blog: E quem te lê mais? Pais ou mães?

Thiago: A maioria dos meus leitores ainda é formada pelas mães, o que é um sintoma da nossa sociedade machista. Mesmo tendo um cara, um pai, escrevendo sobre filhos, quem lê são as mães o que mostra que, obviamente, espera-se que ela se informe mais sobre criação de filhos do que o pai. Mesmo se a enxurrada de comentários é de mulher marcando o marido, ainda sim é a mulher que está tendo a iniciativa de ir ali. Não que eu não quisesse que as mulheres me lessem, não é isso, eu acho incrível que elas se identifiquem com o que eu escrevo, mas eu tentei buscar os pais em outras mídias para tentar alcançar os caras, e chamá-los para a conversa. E foi assim que eu fui pro You Tube, que tem um percentual maior de homens, embora as mulheres ainda sejam maioria, porque lá eu posso ser mais extrovertido e as pessoas já me veem como eu sou – as pessoas achavam que eu era um cara ‘namastê’ quando era só o blog, agora eles percebem que eu sou esse cara assim, até ‘meio tosco’. Mas a coisa só teve um impacto maior entre os homens quando a gente decidiu fazer um podcast com alguns amigos, que também são pais, e aí deslanchou, a quantidade de homens ouvindo a gente é muito maior.

Blog: E pelo podcast você conseguiu alcançar os caras?

Thiago: Sim, agora eu posso morrer tranquilo porque eu conseguir acessar os homens (risos).

O canal de Thiago no You Tube: Apego e não violência

Blog: Você vai ser pai de uma menina, a Maya, que vai nascer no final do ano. Você acha que vai ser diferente?

Thiago: É meio utópico achar que não vai ser diferente. Por mais que a gente esteja atento aos esteriótipos de gênero, a gente vive em uma sociedade que é basicamente fundada ao redor de gênero, não tem como dizer que vai ser a mesma coisa, porque não vai ser. Por mais que a gente tente, a gente sabe que ela vai trazer outros desafios que vamos ter que encarar. A gente não precisa dizer para os meninos que eles “são fortes”, porque todo o mundo já diz isso a eles, mas a gente vai ter que pensar nessas coisas para a Maya. A gente já se preocupa muito em mostrar personagens femininos fortes para os meninos, então isso vai continuar, vai ser a mesma coisa para ela. Vamos ter que mostrar que a Maya que ela pode ser muitas outras coisas além de só ‘bonita e fofinha’, com isso a gente tem que se preocupar, então isso já é diferente por si só. Com os meninos a gente já busca mostrar que a mamãe tem tanta voz quanto o papai, que a mamãe é forte, corajosa, que as outras mulheres também são corajosas e que não existe diferença entre ‘brinquedo de menina’ e ‘brinquedo de menino’. A gente fala que se eles forem brincar com uma menina eles não precisam ‘ter cuidado porque ela é mais frágil’, você tem que ter cuidado se a pessoa for menor do que você e só. São essas as preocupações que a gente tem.

Blog: Seu livro é para os pais? Para as mães? Ou para os dois?

Thiago: É para os dois. Eu escrevi por uma necessidade minha, algo que eu tinha quando a Anne estava grávida do Dante, na época ela até meu deu dois livros sobre paternidade e eu achei tudo uma porcaria, porque eram livros que ficavam contando piadas de pai, dizendo que ‘pai não faz a coisa direito’, ‘pai faz tudo errado’, coisas muito superficiais. Desde aquela época, apesar de eu ainda não ter me transformado, aquilo já me incomodava, porque eu já queria me aprofundar um pouco mais . Eu pensava ‘não é possível, esse cara deve pensar outras coisas também, não pode só ser isso aqui’, então eu quis escrever tendo como foco os pais mais novos, que tem bebês pequenos ou que estão esperando o bebê chegar. Algo que eles pudessem ler, se identificar, pudessem ter um pouco mais de entendimento do que é a paternidade, de uma forma mais aprofundada, mas mesmo assim mais acessível. Não tem piadinhas, não tem anedotas, são crônicas. Ali tem a história com o meu pai, tem a minha ‘desconstrução’ e um monte de histórias de outros pais e de outras mães que passaram por dificuldades com os filhos. Eu quero que esse livro seja realmente um abraço nas pessoas que lerem.

Thiago Queiroz lança “Abrace seu filho” na Livraria da Vila na rua Fradique Coutinho nesse sábado, 11/08, a partir das 15hs.

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