Eu já contei aqui, em um texto sobre bullying, de como fiquei encantada com uma prática da escola onde meu filho estuda de reservar uma aula semanal para que as crianças possam falar sobre seus sentimentos. E é exatamente nessas oportunidades que os pequenos podem contar suas histórias, dizer o que os fazem felizes ou infelizes e até pontuar para seus professores quando se sentem desconfortáveis com determinado comportamento de um colega. O que para muitos pode parecer uma “perda de tempo” é, na verdade, um momento de grande aprendizado para as crianças, que têm uma vida repleta de relacionamentos pela frente.

Só que nem todo mundo vê com bons olhos a abertura de portas e janelas para o diálogo. E é por isso que qualquer movimentação para que a escola vire um local de debate é interditado. Toda vez que se fala da importância de discutir questões de gênero começa a gritaria e a chuva de notícias falsas sobre o assunto, como se aprender a respeitar o próximo, seja ele quem for, tivesse como resultado a “destruição da família” ou a “sexualização de crianças”. Discutir Política, Feminismo, Direitos Humanos? Isso é “doutrinamento”, “marxismo cultural”, precisamos de uma “Escola sem Partido” bradam por aí os pensadores das redes sociais, que repetem por aí argumentos que têm a profundidade de um pires.

Mas, por outro lado, as iniciativas que levam a violência para dentro das escolas prosperam a todo vapor. Começou com a ideia de filmar professores para denunciá-los (por fazer os alunos pensar?), seguiu com a proposta absurda de armar os educadores para evitar (!) que massacres em escolas como a de Suzano acontecessem e, agora, com a ideia de que a solução para acabar com um problema tão complexo como o da violência contra a mulher seja promover aulas de defesa pessoal para as meninas (repare o padrão entre todas essas medidas: mais violência para combater a violência).

Coincidências não existem, creio, e talvez por isso tenha lido sobre o projeto de lei protocolado há alguns dias pela deputada estadual por São Paulo, Janaína Paschoal (PSL-SP), para que “uma das aulas de Educação Física seja destinada ao ensino de alguma modalidade de luta corporal às alunas, tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio”(o PL pode ser lido aqui). Alguns poucos dias depois a mesmíssima ideia brotou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, segundo o blog do Ancelmo Gois. A autoria do PL “gêmeo” ao de Janaína no legislativo estadual fluminense é de Rosenverg Reis, do PMDB. O objetivo seria “preparar as mulheres, desde o ensino fundamental, a se defenderem em situações de violência.”

Quem seria contra tal iniciativa em um país que enfrenta um número crescente de casos de violência contra a mulher e feminicídios, não é mesmo? “Aulas de defesa pessoal não fazem mal a ninguém” dirão muitos – e eu concordo, claro. Mas o que estarão fazendo esses meninos, esses pretensos agressores do futuro, enquanto as garotas aprendem os golpes que as defenderão deles?

Estarão dentro de sala de aula tendo aulas sobre a importância do consentimento e respeito ao corpo do outro? Estarão aprendendo que podem sim ser sensíveis e chorar, que esse privilégio não é exclusivo das meninas? Terão aulas que os ensinarão a cuidar deles mesmos e da casa, quando forem adultos? Aprenderão que homens e mulheres têm os mesmos direitos e competências? Serão ensinados que agressividade na hora da conquista não é bem-vinda, que minissaia não é convite para nada e que as mulheres, assim como eles, podem dizer a palavrinha mágica ‘não’ para tudo o que não  quiserem fazer?

A violência contra a mulher é uma questão que gera preocupação não só no Brasil. E a Unesco, Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, aponta que, olha só, “estratégias de educação em sexualidade e o ensino de gênero nas escolas é fundamental para prevenir e erradicar toda e qualquer forma de violência” e “para que homens e mulheres, meninos e meninas, tenham os mesmos direitos”.  Não há nenhuma linha nesse documento que defenda as aulas de defesa pessoal para as mulheres como a solução para o problema da violência. Mas é claro que a Unesco é comunista, não é mesmo?

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