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Fatores culturais, sociais e também econômicos influenciam o aleitamento materno. Segundo o Unicef, o período de tempo durante o qual um bebê é amamentado pela sua mãe varia dependendo da condição econômica da família: entre as mais pobres, quase dois terços das crianças são amamentadas até os dois anos de idade, enquanto apenas 41% das crianças que nascem em famílias ricas têm esse mesmo privilégio.

O Brasil melhorou muito os índices de aleitamento materno dos bebês até seis meses de vida nos últimos 23 anos de acordo com os  dados compilados pelo Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) de 2019. Em 1986, apenas 2,9% dos bebês dessa faixa de idade estavam em aleitamento exclusivo, ou seja, eram alimentados apenas com leite materno, sem ajuda de fórmulas ou outros alimentos como água, sucos ou chás. Em 2019, esse índice já alcançava os 45,7%. Um crescimento e tanto. Mesmo assim o pediatra Moisés Chencinski, membro da Câmara Técnica de Aleitamento Materno do Ministério da Saúde e criador e gestor do Movimento “Eu apoio leite materno” é daqueles que enxergam “o copo meio vazio”. “(Nos últimos 13 anos) a indústria de substitutos de leite materno aumentou sua produção em 105% e seus lucros em 120%  – e não está satisfeita. Nós também não podemos estar satisfeitos”, afirmou. Ele deu entrevista ao blog falando da Semana Mundial da Amamentação, que começou neste 01 de agosto e que vai até o dia 07, uma campanha global organizada pela Aliança Mundial para a Ação da Amamentação (WABA, em inglês), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Blog: Por que o aleitamento materno é tão importante?

Dr. Moisés: A amamentação é um direito de mãe e bebê, não é uma obrigação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a recomendação é o aleitamento materno desde a sala de parto e de forma exclusiva até o sexto mês de vida, mantendo-se até os dois anos de idade desse bebê. Amamentar traz benefícios à saúde da criança, prevenindo várias doenças infectocontagiosas, mas também traz benefícios à saúde da mãe – já há estudos que mostram que a amamentação protege as mulheres, reduzindo o risco de câncer de mama.  Amamentar é natural dos mamíferos e nós somos mamíferos, nossas crianças têm o direito e podem se alimentar exclusivamente através do leite materno até o sexto mês, sem necessidade sequer de água. O leite materno é composto 85% de água, então não precisa nem complementar. Aleitamento materno é um direito e é válido todo investimento em orientação, informação e até condições de saúde pública para que uma mãe que assim o deseje possa alimentar seu filho.

O pediatra Moisés Chencinski

Blog: Como apoiar essa mulher que quer amamentar?

Dr. Moisés: O apoio é extremamente importante para a amamentação. Uma mulher chega em casa com o seu bebê, estava na maternidade, depois de um certo tempo o companheiro volta ao trabalho e a avó que era a rede de apoio também volta às suas atividades normais, com a pandemia houve até um afastamento desse grupo por conta dos riscos de infecção da covid. Esta mulher depois de um mês não está sozinha, ela está solitária. Então, quando a gente fala de rede de apoio, nós sempre falamos sobre o quanto é necessária uma tribo para educar uma criança, mas também é necessária uma tribo para que uma mãe consiga amamentar. Ela precisa ter condições para se dedicar a esse processo que é de 24 horas, é cansativo, requer uma alimentação adequada, uma hidratação adequada, boas condições de moradia, boas condições de sono, boas condições ambientais. E para isso é necessária uma equipe. O pai não ajuda, o pai compartilha e é parte integrante do processo. Quando nós falamos da importância da sociedade é porque é necessário que, por exemplo, na volta ao trabalho, ofereça-se condições para a mulher que deseja retirar e armazenar o seu leite para deixar para o seu bebê. Precisamos de políticas públicas, de uma licença maternidade digna, assim como uma licença paternidade maior, para que toda essa equipe favoreça apoiando a mãe que deseje amamentar.

Blog: Muitas vezes as mulheres querem amamentar, mas não têm condições para que isso aconteça, né?

Dr. Moisés: Cerca de 40% das mulheres no Brasil trabalham no serviço informal, então nem essa licença maternidade de quatro meses conseguem ter, elas têm que voltar ao trabalho rapidamente. Como incluir este grupo de mulheres, as que engravidam, têm filhos e amamentam numa condição em que ela consiga manter o seu trabalho e ao mesmo tempo cuidar da saúde do seu filho? É importantíssimo que o panorama seja visto mais no macro, não especificamente no micro, que não se olhe apenas a mulher e jogue mais uma sobrecarga e um peso nesses ombros já tão sobrecarregados.

Blog: Como está o aleitamento materno no Brasil?

Dr. Moisés: A última pesquisa de estatística de aleitamento materno é do ENANI (Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil) que foi feito em 2019 e mostrou que hoje o aleitamento materno exclusivo de crianças abaixo de seis meses está na faixa dos 45,7% no Brasil. Houve um aumento de 8% em 13 anos. Nesse mesmo período, a indústria de substitutos de leite materno aumentou sua produção em 105% e seus lucros em 120% – e não está satisfeita. Nós também não podemos estar satisfeitos. Existem formas de proteção e condições para que uma mulher que deseje amamentar possa amamentar, precisamos fortalecer o sistema, precisamos fortalecer os envolvidos no apoio à mulher para que a amamentação de quem deseja seguir em frente seja uma amamentação de sucesso pelo tempo determinado.

O Brasil é um país que foi um exemplo em termos de evolução de aleitamento materno de 1970 até 2016. Nós saímos de uma taxa de 2.5% de aleitamento materno exclusivo em crianças abaixo de seis meses na época do ‘boom’, da explosão da indústria dos substitutos do leite materno no Brasil, e chegamos em 2016 em torno de 39%, 38%. Nos últimos 13 anos nós estamos dando uma estabilizada, uma patinada nessas taxas. Ou seja, houve um aumento? Até que houve. Absolutamente desproporcional àquilo que seria o desejável. A meta da Organização Mundial de Saúde é que até 2025 pelo menos 50% das crianças abaixo de seis meses de idade estejam em aleitamento materno exclusivo. Estamos em 2022, temos 3 anos pra chegar na faixa dos 50%. Para 2030 essa meta é de 70%.

Se nós seguíssemos nessa velocidade do que tem acontecido recentemente, 2030 vai ser pouco, nós vamos chegar próximos dessa taxa de 70% perto de 2050. Então é necessário que haja uma conscientização e que a gente entenda uma coisa muito básica: é responsabilidade da mãe? Sim. Mas é responsabilidade da família, das escolas, da sociedade, dos governos e da mídia compreenderem que o aleitamento materno não começa no dia 1º de Agosto, na Semana Mundial do Aleitamento Materno, e não termina no 31 de Agosto, quando acaba o Agosto Dourado. Passou o tempo da fala e da conversa, educar vai fazer com que as pessoas estejam preparadas para a ação. Por isso o tema desse ano é “Fortalecer a amamentação, educando e apoiando” e ele abrange muitas das questões das quais nós ainda estamos devendo. Eu sou sempre aquele que considera o copo meio vazio, mas a ideia do copo meio vazio é sempre lembrar que nós atingimos meio copo, mas nós ainda temos meio copo pra encher. Temos muito trabalho, muita coisa pra fazer, e o tempo tá passando.

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