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A decisão de deixar as crianças voltarem à escola de forma presencial, participando de algumas atividades extracurriculares, não foi fácil para muitos pais, cansados do peso desses nove meses com instituições de ensino fechadas. Questões emocionais, pedagógicas ou de necessidade da família, que muitas vezes não tem com quem deixar os filhos (home office não é para todos, infelizmente), com certeza foram colocadas na balança antes de fazer essa escolha que, infelizmente, transformou-se em algo exclusivamente de cunho pessoal, enquanto deveria ser uma discussão nacional.

A minha opção de não mandar meu filho a essa volta parcial foi baseada em meus medos e privilégios, e jamais seria usada para desqualificar a resolução daquela família que precisa desesperadamente da escola, que topou esse retorno porque avalia que os filhos em casa estão pior do que estariam no colégio, mesmo durante uma pandemia. A minha realidade pode ser diferente da sua e talvez sua escolha não caiba no meu momento emocional de hoje, e tudo bem. Nenhuma política pública deveria ser feita movida por avaliações pessoais ou pela opinião de um grupo de dois ou três, portanto esqueçamos o nosso umbigo a partir daqui.

No geral, a realidade de todos nós, pais, é uma só: as escolas estão fechadas desde o começo de março (uma escolha acertada em uma pandemia) e já passamos por todos os estágios desse luto, mas só há pouco nos demos conta que nenhum planejamento decente está sendo feito de olho em 2021. Vamos entrar no próximo ano com as instituições de ensino ainda interditadas enquanto todo o resto continua escancaradamente aberto? Basta olhar ao redor para perceber que há pouquíssimo debate sobre o sofrimento dessas crianças, enquanto, por outro lado, ‘o bem da economia’ foi uma bandeira levantada e defendida ferozmente desde o início do isolamento social. Mesmo com uma segunda onda chegando para se somar à primeira, que nem terminou de ‘bater’ ainda, nenhum governante brasileiro cogita um lockdown ou uma restrição mais severa na circulação, pelo contrário. Nossos filhos parecem os únicos prejudicados e sacrificados nesse contexto todo, e arcam com as consequências da ineficiência dos adultos, que simplesmente se recusaram a legislar seriamente sobre o assunto.

As crianças não têm sindicatos para defendê-las, não há associação lutando por suas pautas nem durante uma pandemia. Elas são pequenas, dependem dos que já chegaram à maioridade e que nem sempre as enxergam como cidadãs de direitos. Por sorte, um grupo de pediatras decidiu encampar esse debate lançando nas redes sociais a campanha #LugarDeCriançaÉnaEscola. De saída, já avisam que a iniciativa é “aberta, suprapartidária, sem orientação política e que tem como único objetivo apoiar e preparar as escolas públicas brasileiras para o retorno seguro às aulas no início de 2021!” Até as pedras sabem que as escolas particulares têm um pouco mais de mais ferramentas (e dinheiro) para receber crianças e funcionários com uma certa segurança durante a pandemia e, por isso, os médicos decidiram lembrar que 40 milhões de crianças em todo o Brasil estudam em escola pública e ficaram a ver navios em 2020, muito mais do que as que estudam em escola particular (que obviamente também foram prejudicadas, mas muito menos do que quem não tem computador ou um acesso decente à internet, por exemplo).

Segundo o manifesto, a reabertura da escola pública “é um imperativo moral para o Brasil”, algo que é possível de ser feito e validado pela ciência e por experiências internacionais.  “As crianças adoecem pouco, quase não desenvolvem formas graves e transmitem pouco. Hoje sabe-se que as crianças representam menos de 10% dos casos, com pouquíssimas internações e mortalidade de 0 a 0,3%. Por isso, as crianças serão as últimas a receber imunização contra a covid-19”, lembram. Os pediatras destacam, ainda, que “o isolamento social e a falta da escola geraram consequências desastrosas na saúde física, mental e social das nossas crianças. Elas estão adoecendo, tendo seu desenvolvimento prejudicado e vivendo situações de risco. Se isso se repetir em 2021, as consequências serão catastróficas para crianças, famílias e sociedade em geral. Aguardar a vacina não é uma opção”, declaram. Mas os médicos alertam: para que a volta seja possível, é necessário que haja reformas, equipamentos, suprimentos (há escolas públicas que sequer têm sabonetes nos banheiros), treinamentos dos profissionais e da comunidade. E para que isso seja feito, é necessária uma pressão da opinião pública e da sociedade civil, ou seja, cabe a nós trazer esse assunto finalmente para a pauta.

Como está a educação na Europa, que está vivendo uma segunda onda de contaminação pela covid-19? – você pode se perguntar. O lockdown foi decretado em alguns países e França, Alemanha, Bélgica e Inglaterra decidiram fechar bares, restaurantes e academias, mas mantiveram as escolas abertas. O presidente francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel defenderam publicamente a manutenção da educação, entendida como prioridade para o desenvolvimento das crianças e dos países, nos conta a repórter de Educação do Estadão, Renata Cafardo. Por aqui, shoppings, academias, bares e restaurantes foram eleitos locais mais importantes do que as escolas, e poucos parecem estranhar (e questionar) essa inversão de valores.

Para que os nossos filhos tenham o direito à Educação respeitado, algumas escolhas terão de ser feitas, principalmente por que o Brasil está no final da fila para uma vacina e essa situação pode perdurar por pelo menos mais um semestre, sendo bem otimista. Você, adulto, estaria disposto a renunciar a algo para diminuir a circulação de pessoas e garantir que as escolas possam reabrir com um pouco mais de segurança? Essa é a pergunta que não quer calar. E que poucos parecem dispostos a fazer.

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