Cabelo Samuca

Tudo começou na manhã de sábado, quando o Samuca fez o que toda criança já fez pelo menos uma vez: pegou a tesoura e cortou o próprio cabelo. No caso dele, um cabelo um pouco mais comprido para os padrões que, aos meus olhos apaixonados de mãe, era o seu charme. Muitos chamavam meu filho de “Senninha”, por causa daquela franja bagunçada e aquelas pontas desgrenhadas que lembravam o cabelo do Ayrton Senna.

“Por que você fez isso, filho?”, perguntei.

“Eu não aguento mais esse cabelo, mamãe”, respondeu com cara de susto por ter sido flagrado com o dedo na tesoura enquanto vários tufos de cabelo jaziam no chão do escritório.

“Mas esse seu cabelo é lindo, o seu charme, a mamãe adora esse cabelo”, argumentei.

Ele deu de ombros e disse que queria ter o cabelo curto, “igual ao dos meus amigos” e que aquele cabelo fazia que ele passasse “muito calor”. Tentei convencê-lo do contrário, enquanto meu marido contemporizava dizendo que se ele quer um cabelo mais curto, que a gente cortasse, ué.

Lembrei na mesma hora das minhas traumáticas visitas à cabeleireira do bairro, a Maria José. Minha mãe mandava que ela cortasse meu cabelo bem curtinho, “porque era mais fácil”. Fácil para ela, que fique claro. Ela nunca me perguntou o que eu achava daquele corte de cabelo, se eu gostava ou não. Eu odiava porque queria fazer tranças, rabos de cavalo e “marias-chiquinhas”. E chorava baixinho na cadeira da “Zezé”. Minha mãe não escutou o meu choro. Ou não entendeu do que se tratava.

Lembrei de tudo isso enquanto juntava os cacos e os tufos de cabelo do meu filho do chão. Samuca estava tentando exercer uma das coisas que mais prezo: a autonomia. Segundo Kant, autonomia é “a capacidade da vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível.” Bingo. Eu era sua paixão e inclinação afetiva incoercível. Não queria ser mais, não quando o assunto é um simples corte de cabelo.

Marquei o horário na cabeleireira de sempre, que confessou: “Você não sabe quantas crianças cortam o próprio cabelo e chegam aqui para eu consertar!”. Depois olhou para mim e perguntou: “Como vai ser o corte, então?”. Eu joguei a bola, ou melhor, a tesoura para o Samuca que se encheu de orgulho por estar tomando uma de suas primeiras decisões na vida: “Quero beeeem curtinho!”

O corte de cabelo ficou horrível, na minha opinião de mãe. Mas o corte do cordão umbilical foi lindo. E já não era sem tempo.

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