Cena de ‘O Menino Maluquinho’, Helvécio Ratton

Ano passado eu e meu filho assistimos ao “Menino Maluquinho”, filme de 1995 dirigido por Helvécio Ratton e que foi baseado no personagem do livro infanto-juvenil de Ziraldo. A obra conta a história de Maluquinho, um menino travesso dos anos 60 que adora brincar na rua e pregar peças nos amigos, como toda criança. Não havia programação infantil na tevê, videogame ou qualquer tipo de tela, então ele se diverte jogando futebol, taco, brincando de esconde-esconde ou subindo em árvore na fazenda do avô ‘Passarinho’. Uma lindeza que conta com trilha de Milton Nascimento e a participação de atores incríveis como Patrícia Pillar, Luiz Carlos Arutin e Samuel Costa, o protagonista, em uma interpretação ensolarada.

Dias depois de assistirmos ao filme, meu filho veio desabafar dizendo que queria ter nascido na mesma época em que o filme se passava, porque deveria ser incrível ‘poder brincar na rua’, sair pelo bairro de bicicleta com os amigos e só voltar para casa na hora do almoço e depois para jantar. Tentei contemporizar dizendo que ele podia descer no playground do prédio a hora que quisesse, já que tinha a mesma idade do Maluquinho. “Não é a mesma coisa, mãe”, disse, como se estivesse falando algo óbvio, e claro que estava. A rua, com seus encantos e perigos, tinha sido realidade em parte da minha infância e eu entendia perfeitamente o que ele estava tentando me dizer.

Essa lembrança veio à tona quando li matérias sobre a solidão das crianças na quarentena, muitas vezes trancadas em apartamentos ou casas minúsculas, onde nem sequer a luz do sol bate direto. Elas já não podiam brincar na rua e agora não podem mais nem fugir para os parquinhos ou pracinhas, onde escorregadores e balanços estão melancolicamente vazios. Também não têm como ir à escola, porque todas estão fechadas, deixando salas de aula, pátios, bibliotecas e quadras tristemente silenciosos e sem função. O pouco que as crianças dessa geração tinham de liberdade foi cassado pelo coronavírus, que decretou um toque de recolher também para a infância.

E nem a volta às aulas em alguns países da Europa consegue ser uma boa notícia, não para o padrão que tínhamos de eventos que mereciam ser comemorados. Na Dinamarca, primeira a reabrir creches e escolas do ensino básico em algumas cidades, as crianças descobriram que não podem se aproximar ou se tocar e encontraram menos colegas em sala de aula. Aquele momento de catarse e de liberdade conhecido como recreio foi reduzido e contido, já que o que nele havia de mais interessante para as crianças, a aglomeração, não pode mais acontecer. Na França, vejo fotos de crianças com máscara e escudo facial, sentadas longe umas das outras, sem conseguir visualizar direito as expressões faciais dos seus amigos.

Tais cuidados são necessários para evitar por lá uma segunda onda de contaminação pela Covid-19, e isso está claro para todo mundo. O argumento econômico para a reabertura mesmo em uma situação tão adversa também foi posto: os pais precisam se concentrar no trabalho, afirmou o ministro dinamarquês, e quem está em home office e sente a dificuldade em se manter produtivo com os filhos em casa não tem como concordar mais. Já o ministro francês foi mais sensível e lembrou do papel essencial que as escolas têm na vida das crianças e dos jovens, que sofrem emocionalmente por terem perdido esse espaço de convivência, ensino e socialização. Também entendemos esse raciocínio e lembramos da culpa diária por não conseguir ser sempre a melhor parceira para a brincadeira ou a professora a recreadora que os nossos filhos merecem.

Mas será que nossos filhos serão felizes nessa nova escola, tão diferente do que conheceram e tão longe de suprir suas necessidades emocionais mais urgentes? Difícil de saber. Penso que corremos o risco de as crianças mais novinhas assistirem ao ‘Menino Maluquinho’ e virem desabafar como devia ser legal se tivessem nascido em outra época, quando a escola era um lugar onde todas as crianças podiam interagir, brincar livremente e serem felizes.

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