Foto: Allan Mas/Pexels

Antes da pandemia começar, a filha da dona de casa Keila Reis de Oliveira, Laura, 8 anos, adorava ir com os pais ao parque ecológico que fica no bairro vizinho a sua casa, em Belo Horizonte, ou brincar na pracinha. Com os parques e a escola onde estudava fechados, a menina ficou em casa, sem sair para lugar nenhum por pelo menos seis meses, conta a mãe.  “Com o tempo, ela brincava só no tablet e no computador, porque não tinha com quem brincar, ela não tem irmãos, nossa casa não tem quintal. Ela se refugiou o dia inteiro nos eletrônicos”, conta Keila. Com as restrições e a falta de interação com outras crianças, Laura murchou. “O assunto dela era apenas os joguinhos nada mais”, completa.

“Foi um massacre cerebral ficar 11, 12 horas por dia olhando para uma tela quadrada em duas dimensões com uma luz azul e que te dá tudo pronto, o cérebro fica totalmente passivo e as crianças impregnadas de propaganda infantil, de publicidade muito ruim, de produtos muito ruins, com conteúdos muito ruins, os mais velhos com os grandes perigos das redes sociais. Foi muito duro para as crianças. Então foram muitos fatores de estresse, a perda da socialização, as crianças ficaram muito alijadas dos amiguinhos, dos avós, enfim, ficaram muito fechadas com os pais”, explica o pediatra Daniel Becker, membro do Grupo de Trabalho Criança, Adolescente e Natureza da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). A natureza, contudo, teve um papel curativo no meio desse estresse da pandemia, pontua. “Assim que as crianças conseguiam sair, elas melhoravam. Muitas famílias procuraram viajar pro sítio da família, ou alugar uma casa, ou foram pra um hotelzinho no campo, na serra ou na praia e imediatamente a criança voltava outra pessoa. É impressionante a melhora que elas tinham com o desconfinamento, com o contato com a natureza, com o ar livre, com o brincar”, explica.

Uma pesquisa divulgada hoje pelo programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, e que entrevistou mães, pais e responsáveis por crianças de até 12 anos das classes ABCDE, que vivem em regiões urbanas em todo o Brasil e com acesso à internet analisou o papel da natureza para a saúde das crianças durante a pandemia. O objetivo foi saber se os pequenos tiveram contato com a natureza e brincaram ao ar livre durante esse período de isolamento social e se isso trouxe benefícios para eles. Os pesquisadores também quiseram saber como as famílias planejam priorizar o contato com a natureza no pós-pandemia e se há alguma barreira para que isso aconteça. Maria Isabel Barros, pesquisadora do programa, conta que 81% dos pais, mães e responsáveis por crianças entre 0 e 12 anos perceberam que o contato com a natureza permitiu que as crianças passassem pela pandemia com mais saúde e bem-estar.  “Essas pessoas usaram as palavras ‘escape’, ‘alívio’, ‘refúgio’. Então, para as crianças, a oportunidade de brincar do lado de fora, de tomar sol, de correr, de subir numa árvore teve um aspecto muito sanador, muito curativo mesmo pra toda aquela tensão, pra todo aquele estresse que as famílias e as crianças viveram durante esse período de confinamento que todos nós vivemos no ano passado e no começo desse ano também”, afirma.

Para muitos, contudo, o contato com a natureza não foi possível, assim como não foi para Laura. Se o acesso a áreas ao ar livre já era limitado para muitas crianças que muitas vezes moram em bairros onde não há parquinhos e praças, o fechamento desses espaços durante a pandemia tornou esses acesso ainda mais restrito, aponta o estudo. Houve também o receio de pais, mães e cuidadores de frequentar esses lugares, mesmo usando máscara. Também há famílias que reportaram que por questão do desemprego de um ou mais membros da família não conseguiram se deslocar para esses lugares por falta de dinheiro.

Ainda de acordo com a pesquisa, a experiência da pandemia trouxe uma preocupação maior com a conservação da natureza e a importância dela para a qualidade de vida, explica Maria Isabel. “A projeção pro futuro é que após a pandemia as famílias aumentem o seu contato com a natureza: 75% dos respondentes disseram que pretendem levar mais as crianças para espaços públicos como praças e parques do que faziam antes da pandemia, com o afrouxamento do isolamento social e a reabertura desses locais. E muito interessante também é a percepção de que a experiência da pandemia trouxe uma consciência maior com a conservação da natureza e a sua importância pra qualidade de vida nas pessoas. Então eu acho que essa experiência trouxe uma percepção muito clara de que a natureza é um fator determinante de saúde: 64% das famílias passaram a valorizar mais a conservação da natureza e 59% passaram a pensar mais sobre a importância de ter áreas verdes na cidade. Então eu acho que isso pode ser uma mobilização, uma contribuição pra uma mobilização social no sentido de valorizar mais essas áreas e de fazer cobranças pra o poder público pra gestão dessas áreas por espaços, primeiro, mais acessíveis, mais próximos para as famílias que não têm isso, e mais qualificados, melhores para as crianças e para os adultos também”, completa.

A dona de casa Keila, mãe de Laura, que ainda não está vacinada, sonha com esse retorno à natureza. “Eu não vejo a hora de a gente conseguir voltar ao parque. A Laura adora a natureza, adora bichos”, completa.

Acesse à ìntegra da pesquisa: É Hora de Natureza | Criança e Natureza (criancaenatureza.org.br)

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