Foto: Sasin Tipchai/Pixabay

Todo fim de dezembro eu faço uma lista mental das coisas que quero conquistar no ano seguinte, caminhos que pretendo seguir, no quê tenho que melhorar. Sempre prometo fazer mais exercício físico, consumir menos, ler mais. E quando comecei a planejar meu 2020 pensei que minhas resoluções de ano novo deveriam se estender ao meu filho. O que eu poderia fazer para tentar ser uma mãe melhor?

Não que eu não tenha me esforçado pra valer até aqui: organizo minha vida em função dele, jogo xadrez com meus compromissos para conseguir estar junto nos cafés da manhã, levar pelo menos à metade das aulas de natação e de música e ajudar na lição de casa. Só que muitas vezes a gente está junto deles, mas não está, verdade seja dita. Porque a cabeça não desliga do mundo lá fora, os boletos não param de nos tirar o sossego, o celular não sai da nossa mão, fazendo com que a dificuldade em se conectar com as crianças seja algo real. Pensando nisso fiz um desafio para a educadora parental Elisama Santos, autora do livro “Educação não violenta”, Editora Paz & Terra. ‘Se você pudesse propor cinco metas para 2020 a serem seguidas não só por mim, mas também por outras mães e pais que querem ter uma relação mais estreita com seus filhos, quais seriam?’, perguntei. Elisama conversou comigo (em uma série de entrevistas que vai ao ar na Rádio Eldorado) e cuja íntegra eu publico aqui no blog. Suas sugestões foram: Escutar mais, dar às crianças 15 minutos por dia de atenção real, reconhecer e demostrar gratidão pelos acertos delas, contar sua história e não rotulá-las. Nunca, nem de forma positiva.

Blog: Qual a primeira coisa que a gente pode fazer para ter uma relação melhor com os nossos filhos em 2020?

Elisama: A gente pode começar escutando-os mais. E a gente escuta mais quando fala menos. Parece óbvio, mas não é. Eu pergunto aos pais ‘qual foi a última vez que você ouviu seu filho durante dois minutos sem interromper, sem dar conselho, sem justificar, sem dizer o que ele deveria fazer?’ É esse o desafio.  Por que por vezes a criança não nos escuta porque ela tem muito a falar. Essa semana minha filha disse algo fantástico quando mandei ela ‘parar de falar e ir dormir’. Ela falou “mamãe, mas eu estou cheia de palavras!’ E às vezes eles estão assim e a gente não os escuta, e isso impede que eles nos escutem também, por isso que às vezes a gente tem que repetir as coisas para eles cinquenta vezes. A gente não escuta e eles também não aprendem a escutar.

A educadora parental Elisama Santos Foto: Ana Reis

Blog: Então quando escutamos nossos os nossos filhos, além de aprender mais sobre eles a gente também está ensinando algo?

Elisama: Sim. A gente ensina o que é a escuta e abre espaço para que as nossas palavras caibam dentro deles. Eles precisam dividir o que pensam para que também possam receber o que é nosso. A escuta do filho permite conhecer e enxergar aquele ser humano como ele é, e não como ele deveria ser, segundo a nossa expectativa, o que abre espaço para uma conexão e uma relação mais verdadeira. E aí eles também aprendem a nos escutar.

Blog: Na sua lista você sugere dar aos nossos filhos ‘quinze minutos diários de atenção real’. Mas quinze minutos são suficientes?

Elisama: Às vezes as pessoas perguntam ‘mas só quinze minutos?’ e eu devolvo a pergunta: ‘qual foi a última vez  você ficou durante quinze minutos realmente sentindo seu filho, escutando seu filho e olhando para ele sem celular, sem televisão e sem estar pensando nos boletos? Qual foi a última vez que você conseguiu fazer quinze minutos de verdade de alguma coisa?’ A gente não está nunca em lugar nenhum de verdade. Quinze minutos de inteireza com a gente mesmo é algo fantástico, com os nossos filhos é um milagre. Nós não vivemos quinze minutos presentes em nada na vida. E quando você fala isso para uma mãe e para um pai você não está dizendo passar apenas esse período com o filho durante o dia, mas quinze minutos com ele de verdade. Porque nós geralmente estamos no mesmo ambiente com os nossos filhos, a gente está fazendo coisas com eles, para eles, mas não com eles.

Blog: E o que a gente tem fazer para que esse tempo seja realmente com eles, de verdade?

Elisama: Sente com essa criança e deixe seu celular longe, a televisão se possível desligada, porque essas são as coisas que roubam geralmente a nossa atenção. Você tem que estar presente, percebendo a sua mente, que geralmente não gosta de ficar quinze minutos concentrada em nada. Pode reparar, a gente começa a ficar com os nossos filhos e pensa ‘cara, esqueci de ligar para tal pessoa’. A mente humana é um cavalo selvagem, ela vai te levar para todos os seus compromissos, para o futuro, para o passado, mas você tem pensar e dizer ‘opa, você vai ficar aqui comigo e com meu filho, porque é aqui que eu quero estar’. Olhe os cílios do seu filho, a boca dele, o nariz, ‘olha, ele faz covinhas quando ri’. Nas palestras eu falo com os pais de mais de um filho, pergunto se eles repararam que cada um tem uma temperatura diferente das mãos. Se eu estiver de olhos fechados e um dos meus filhos tocar em mim, eu saberei qual deles está me tocando se estiver atenta. Mas normalmente a gente não está atento. Qual foi a última vez que você sentiu a temperatura da mão do seu filho? São pequenos detalhes que a gente só percebe quando está presente, quando está aqui, se esforçando.

Blog: Você sugere, ainda, que a gente reconheça e demonstre gratidão aos acertos dos nossos filhos. Como a gente faz isso?

Elisama: Nós somos um arquivo-vivo dos erros dos nossos filhos, a gente está sempre lembrando o que eles fizeram de errado, dificilmente destacamos o que fizeram de certo, de bacana, sabe? São pequenas coisinhas, agradecer ‘obrigada por vocês terem se comportado’ ou ‘olha, filho, muito obrigada porque você dobrou toda a roupa e me ajudou’. Eles se sentem úteis e reconhecem seus próprios acertos. A maioria de nós, os adultos, não consegue reconhecer o montão de coisa incrível que a gente faz no dia a dia porque no passado a gente só era reconhecido quando fazia algo muito extraordinário, o que não é corriqueiro, ninguém comentava nossas pequenas vitórias diárias. 

Blog: E quando a gente reconhece esses pequenos acertos, o que a gente está dizendo para eles?

Elisama: Está dizendo que enxerga o quanto eles são especiais e ensina que reconheçam isso em suas vidas quando a gente não estiver por perto. Além de estar demonstrando o meu amor, estou mostrando a ele uma forma de enxergar a vida, doando uma lente para que ele a veja de uma forma positiva. Todos os dias em que eu coloco meus filhos na cama eu digo ‘obrigada pelo dia de hoje, pela companhia, por estarem comigo e por mais um dia sendo mãe de vocês’. Parece algo bobo, mas não é. Porque nós, os adultos, pensamos em tudo o que a gente deixou de fazer durante o dia quando deita na cama e muitas vezes esquece tudo o que foi legal que aconteceu.

Blog: Você sugere que a gente conte aos nossos filhos a história deles. Como assim?

Elisama: A criança gosta de entender de onde veio, ela tem muita curiosidade. Quando você conta a ela como foi que você descobriu a gravidez, como foi o parto, como conheceu a mãe ou o pai dela, os primeiros meses em casa, as coisas legais e engraçadas que ela fazia, a criança vai construindo a imagem dela mesma, a narrativa da própria vida. Ela precisa desse alicerce, nossos filhos gostam de ouvir isso. E muita gente me diz, ‘mas Elisama, a história da minha gravidez não foi legal, eu não queria estar grávida’. Eu também não queria ter ficado grávida da minha segunda filha, foi uma surpresa. Só que quando eu conto para ela que eu não planejei essa gravidez eu digo ‘filha, a mamãe não sabia que precisava de você, mas você veio pra mim, foi a melhor surpresinha do mundo’. A história que eu conto é que ela foi desejada pelo meu coração, que sabia mais do que eu mesma. Então minha filha não sente que a história dela e do irmão dela, que chegou de uma gravidez planejada, são diferentes, que a história dela é pior. Às vezes a gente conta coisas sobre a criança sem perceber que aquilo é uma construção de vida. Nossa fala fornece o alicerce para que eles construam a narrativa da vida deles, então a gente tem que ter cuidado, a gente precisa contar coisas positivas sobre quem eles são.

Blog: A última coisa que você sugere para a gente é ‘não rotular’ as crianças, e isso é algo que a gente faz muitas vezes sem perceber.

Elisama: O rótulo é você pegar uma criança e trancar ela num quartinho, num pedacinho dele, dizer que ela é somente aquilo, o que faz com que deixe de explorar toda a complexidade de ser quem ela é. O rótulo aprisiona, limita. E daí não interessa se esse rótulo é dizer que ela é ‘inteligente’ ou ‘boazinha’ ou ‘teimosa’ e ‘insuportável’. É um rótulo, só um pedacinho do seu filho e muitas vezes só o teu julgamento de quem teu filho é, uma percepção nossa, não é a realidade. E a gente julga, nós categorizamos as coisas, é normal, a gente precisa organizar para ver como funciona o mundo.  A questão é estar atento e perceber que meu julgamento não é a realidade, é apenas o meu julgamento. ‘Nossa, como ele é teimoso!’  Ora, seu filho não é necessariamente teimoso, ele pode estar sendo assim hoje, mas o que será que eu estou deixando de ver nele? Quando eu rotulo eu limito a minha visão sobre o meu filho e limito a visão dele sobre ele mesmo. E eu conheço tanta gente bacana que vive trancadinho em um pedaço de si, que não consegue enxergar a imensidão que é porque foi tão rotulado na infância e que não sabe explorar mais nada sobre nada sobre si mesmo.

Blog: E quando a gente não rotula, nem para o bem nem para o mal, a gente está deixando nossos filhos livres?

Elisama: Livres! Livres para descobrirem quem são. Livres para perceberem que nenhuma característica isolada é capaz de defini-los e para entender que ninguém é uma coisa só.

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