Médico

Quem trabalha com internet e passa o dia inteiro plugada como eu acaba vendo nas redes mais do que gostaria. E foi só por isso que li um texto escrito por um médico chamando o parto humanizado, aquele feito com respeito aos desejos da mulher, de “parto animalizado”. O susto foi grande. Primeiro por ver tanta ignorância e preconceito vindos de um médico, que descobri em alguns segundos com ajuda do site do CRM de São Paulo se tratar de um neurologista, e também por perceber que hoje em dia o ódio é propagado em todas as esferas, inclusive contra profissionais da saúde e mulheres que lutam para conseguir que mães e crianças nasçam em um ambiente respeitoso e acolhedor.

Embora uma das resoluções minhas para o ano novo seja não bater palma para maluco dançar, não posso me calar ao ver alhos e bugalhos serem misturados sem cerimônia, conceitos serem confundidos de propósito para semear a desinformação e a perpetuação de esteriótipos com o mesmo objetivo. Foi por isso que decidi comentar trechos desse texto aqui no blog, com a ajuda de profissionais que, ao contrário do médico neurologista em questão, entendem de parto.

O médico começa contando sobre um caso apócrifo, ou seja, algo que ele disse ter visto na internet: fotos do nascimento de um bebê em casa. Não sabemos o básico da história: se o caso é verdadeiro ou não, onde aconteceu, quando foi, quem é essa mãe. Respirem fundo e sigam comigo.

“Há algumas semanas, vi uma sequência de fotos de uma moça parindo dentro do seu banheiro. As fotos são acompanhadas de um relato da própria, cheio daqueles chavões habituais para descrever algo que até uma gata faz sem se achar melhor por isso.”

Aqui temos um juízo de valor. A mulher está orgulhosa porque conseguiu o seu tão sonhado parto normal em casa, o que não é proibido, fique claro, e está feliz demais. Mas, segundo o médico, é algo que “até uma gata faz sem se achar melhor por isso”. Imagino que ela esteja realizada e plena porque foi desencorajada e desestimulada durante as 40 semanas da gestação. Deve ter ouvido de médicos, familiares, vizinhos e palpiteiros de plantão que “não conseguiria”, “que não tinha passagem”, “que era estreita demais” e todas as outras coisas que muitas grávidas ouvem para serem levadas a “escolher” a conveniente cesárea, que se encaixa como uma luva na apertada agenda de todo obstetra. Neste momento ela está radiante porque conseguiu provar ao mundo, a ela mesma e ao sistema-obstétrico-brasileiro-campeão-mundial-de-cesáreas que, assim como as outras mamíferas (gatas inclusas), ela sabe sim parir. Também estou orgulhosa dela, doutor.

“Porém, o mais triste foi constatar, pelo relato, que o trabalho de parto durou 2 dias; que a criança – uma menina – nasceu “toda trabalhada no mecônio” (frase escrita pela mãe) e que demorou para chorar, mas que a mãe compreendeu que “ela tinha sua hora para isso”. Pior foi saber que, durante todo o trabalho, a parturiente foi assistida por uma doula (o corretor do iOS quis trocar a palavra por “doida” e eu quase deixei) e que a pediatra de plantão (a médica ficou dois dias de plantão no quarto da moça?? Não tem mais nada a fazer?) só entrou no banheiro quando a criança, toda verde, nasceu.”

Não entendo porque dois dias de trabalho de parto encheram o senhor de tristeza. Essa mãe não sofreu durante dois dias, como nas novelas. Com certeza caminhou, passeou, dormiu, assistiu a televisão, comeu e tomou banho até o trabalho de parto engrenar, provavelmente no dia seguinte. O trabalho de parto tem vários estágios e pode durar vários dias. Triste para mim é um médico não saber disso. Ou saber e dizer para a opinião pública que isso não é normal, esperado e desejável.

Sobre mecônio, o cocô que o bebê faz ainda no útero, sabia que ele não é necessariamente sinal de que o bebê estava sofrendo e que precisava de uma cesárea de urgência? A Dra. Melania Amorim, Professora de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Campina Grande, escreveu um artigo ótimo sobre este assunto, que está aqui no site da EBC, a Empresa Brasil de Comunicação que, na minha opinião, deve ser lido por todos, médicos e pacientes.

Decidi perguntar sobre mecônio e parto ao Dr. Braulio Zorzella, Ginecologista e Obstetra formado pela Unesp, Universidade Estadual Paulista. Ele fez 124 partos em 2015, entre domiciliares e hospitalares, sendo apenas 8 cesarianas. Segundo Zorzella, a maioria dos partos com mecônio pode evoluir para um parto normal sem a necessidade de intervenções, apenas monitorando o estado geral do bebê. Todos os bebês com mecônio que nasceram com a ajuda dele chegaram ao mundo muito bem, obrigado.

O neurologista ainda afirma que uma doula fez o parto. Doula alguma faz parto, nem se você pedir. O papel delas é oferecer apoio físico e emocional à mulher durante o parto feito por um médico, enfermeiras obstétricas ou obstetrizes. Eu sei disso, o senhor também sabe, elas sabem, mas dizer o contrário rende muitos cliques e compartilhamentos no seu blog, não é mesmo?

Respiremos fundo para continuar a análise do artigo do nobre neurologista que sabe tudo sobre partos, só que não. Ele continua pasmo porque a criança nasceu coberta de verde do mecônio e não rosa como na maioria dos comerciais de sabonete para bebê.

“Sim, verde! Toda a sequência foi fotografada, mostrando a moça somente de sutiã, bastante acima do peso (deve achar que controle de peso na gestação é opressão do patriarcado machista), seguida de fotos da criança toda tingida de verde devido ao mecônio e depois tem uma foto da placenta com péssimo aspecto, igualmente verde. Não compreendo muito essa necessidade de exposição.Eu nunca fotografaria um exame de próstata meu, ou uma cirurgia de hemorróidas para postar no Facebook e mostrar como sou corajoso.”

Para mim é uma novidade um médico sugerir que uma mulher não possa parir por estar gorda. Consultei Dr. Bráulio novamente. Perguntei se mulheres acima do peso podem parir normalmente. Ele disse que sim, claro, óbvio. Por que não poderiam? Segundo ele, o único sinal de preocupação na hora do parto seria se houvesse um aumento da pressão arterial, a famosa pré-eclâmpsia, que pode acontecer com todas as gestantes, não apenas nas acima do peso. O texto atualiza as definições de gordofobia. As gordinhas, julgadas todas as vezes que usam roupa justa e biquíni na praia, agora são condenadas publicamente por esse médico por ousarem engravidar e parir.

O médico compara as fotos do parto com um exame de próstata e uma cirurgia de hemorróida. Abstenho-me de comentar por motivos óbvios.

O neurologista também fala bem da temida episiotomia, corte feito no períneo, entre a vagina e o ânus, que, em tese “ajudaria o bebê a nascer”. “Relatos de mulheres que ficaram com cicatrizes desse procedimento são exceções à regra. Já li também relatos de mulheres que ficaram com quadros de dores crônicas e coincidentemente, elas contam que haviam pedido para não serem submetidas à episiotomia, ou seja, já tinham prevenção contra o procedimento e seu quadro doloroso pode ser mais de origem psicológica do que física”, concluiu o neurologista.

Eu mesma já fiz uma reportagem com mulheres que foram cortadas sem autorização, sem anestesia e que tiveram suas vidas sexuais destruídas depois dessa “ajudinha” na hora do parto, leia aqui e fique horrorizado. Nenhuma delas tinha dor psicológica. Mas como sou apenas uma jornalista, perguntei ao Dr. Bráulio Zorzella quantas episiotomias ele fez no último ano, 2015, em seus 124 partos. “Zero”, respondeu. “Não faço porque não precisa ser feito.Porque as mulheres não querem. Porque existem outros métodos”, completa. A obstetriz Ana Cristina Duarte, com 330 partos entre 2012 a 2015, também me conta não ter cortado nenhuma das suas gestantes. Todos bebês nasceram bem e apenas 10% das 330 gestantes, no caso da obstetriz, tiveram que levar pontos por causa de lacerações.

Lá pelas tantas o médico vai longe e compara legumes com Jesus Cristo e bebês. “O veganismo, o ambientalismo, o neoateísmo e o movimento pelos direitos dos animais constituem outras religiões laicas relativamente novas, mas uma das mais novas é esse movimento pela volta do parto aos moldes primitivos”. 

Tentei que algum historiador, teólogo ou cientista político me ajudasse a refutar tal comparação. Mas, ao entrar em contato e ler esse trecho do texto a eles, ouvi apenas gargalhadas que, por respeito aos meus leitores, decidi omitir deste texto.

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