álbum antigo 2

 

O primeiro alerta veio mês passado. Marido decreta a “morte” do nosso computador, diz “já era”, “queimou” ou sei lá o quê. Entro em desespero. Todas as milhares de fotos que tirei desde que meu filho nasceu estão lá. Faço promessa para Santa Rita, choro porque “minha vida toda está nessa máquina!”, esperneio e juro que se as fotos forem recuperadas elas serão reveladas (ou impressas? Revelar é verbo que se conjuga no passado, né?). Mas tudo não passou de um susto, computador voltou à vida e as fotos continuam lá… E só lá.

O segundo alerta veio do meu filho. Ele me conta que o avô mostrou o álbum de quando eu era criança. “Tinha uma  foto que você ‘tava’ deitadinha assim, mamãe”, ele me imita. “Na outra você tava com a roupinha da escola”, conta. E, pergunta: “Cadê meu álbum de bebê?”. Respondo “as fotos ainda estão no computador, filho!” Samuel aceita a resposta sem questionar, mas eu não.

E a ficha cai (se você não souber o que essa expressão significa, pergunte para sua mãe). Por que eu nunca consegui transformar pelo menos parte daquelas fotos em álbum? Há fotos da gravidez, do parto, dos primeiros dias em casa, todas as festas de aniversário. Nesses cinco anos acumulamos, sem exageros, uma cinco mil imagens. Registros da máquina, do celular de um, celular de outro, do tablet. No máximo umas dez ganharam vida e foram para o porta-retratos, outras foram publicadas no Facebook.  E só aí percebo que o registro de toda a minha história recente pode sumir em um bug qualquer ou se a rede social cair em desuso e sair do ar. (Lembra o desespero que foi para salvar as fotos do Orkut? Eu não me recordava da senha e muita coisa minha foi para o túmulo digital.)

Da direita para a esquerda: Minha prima Fernanda, eu e metade da minha prima Juliana.

Da direita para a esquerda: Minha prima Fernanda, eu e metade da minha prima Juliana.

Ao contrário das nossas fotos de hoje que nascem aos borbotões e são editadas, melhoradas (e até apagadas) ainda na máquina fotográfica, antigamente os registros eram poucos e o resultado, uma surpresa só revelada depois de esperar dias pelo “Seu” Hashimoto, que fazia o serviço para gente. Não havia photoshop, ou “controle de olhos vermelhos”. E como os filmes eram de (apenas) 12, 24 ou 36 poses, tínhamos que escolher com parcimônia o que ia ser registrado. “Deixa para tirar foto na hora do parabéns”, minha mãe dizia.

Passo na casa do meu pai e pego os meus álbuns de criança, quem sabe eu não me inspiro? Eles têm o cheiro da minha mãe. Ela já se foi há sete anos, mas o perfume dela está lá, impregnado em cada página, em cada foto arrumada carinhosamente sob o plástico amarelado. No minuto seguinte caio na real e vejo que há várias fotos sofríveis que ganharam espaço no álbum. Há cabeças (minha e da minha irmã) “sentadas” no colo da minha tia-avó. O enquadramento privilegiou, sabe-se lá por quê, uma samambaia pendurada em cima do sofá (êêêê anos 80!). Em outra foto eu e minhas primas estamos de mãos dadas na festinha do meu aniversário. Só que metade do corpo de uma delas foi cortada. Há alguns registros feitos por fotógrafos profissionais também, o que salva o conjunto da obra e faz com que meu coração encha de saudade.

Abro o computador e navego pelas pastas lotadas. Fotos das férias. O primeiro dia do meu filho na escolinha. Tudo me parece importante, mas tento manter o foco e selecionar só algumas imagens. Começo a encher o pen drive. Decido que, finalmente, a história da nossa família será registrada em papel. Será que o “Seu” Hashimoto apronta essas fotos para hoje?

PS: Pai lê o blog e avisa, antes que eu saia de casa, que “Seu” Hashimoto morreu, mas que a esposa dele está firme e forte cuidando da loja de revelação de fotos.

 

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