biscoito-copia

Eu e o Samuca fomos ao supermercado no último sábado e pela primeira vez ele não passou direto pelo corredor dos biscoitos como sempre fez. Parou, olhou e decidiu que queria “cookies” (nem sabia que ele sabia falar cookies) e uma bolacha horrorosa com recheio de morango-daquelas que volta e meia ganham medalha de campeã em gordura trans.  Quando eu perguntei porque ele queria comer aquilo já que nunca tinha experimentado e não sabia que gosto tinha, a revelação: “Claro que eu já comi, mamãe!” E contou quais eram os amiguinhos que levavam biscoitos daquele tipo na lancheira.

Desde a primeira reunião da escola lembro de seremos orientadas a não colocar na lancheira biscoitos recheados, refrigerantes, salgadinhos, balas e chicletes e enviarmos sempre uma fruta. Achei, inclusive, que esses alimentos eram proibidos pela escola. Lembro de uma mãe (que depois virou minha amiga) pedir em uma reunião a colaboração das outras mães: “não adianta a gente mandar uma lancheira saudável se todas não mandarem”. Pois bem. Sei o quanto às vezes é difícil fazer as crianças comerem, o quanto é desafiador encontrar alimentos substitutos já que há corredores e mais corredores de porcarias mil que foram feitas exclusivamente para caber na lancheira. Mas sei também que todo o meu esforço para que o Samuel não tomasse gosto por essas porcarias pareceu ir por água abaixo a partir do momento em que ele percebeu que existia um mundo delas disponíveis.

Uma senhorinha logo alcançou o pacote de cookies ao ouvir que era isso que o guri queria. Os de morango ele mesmo pegou na prateleira. Sabe o que eu odeio mais do que esses biscoitos recheados super calóricos? Que alimentação vire tabu na minha casa, tanto para o bem quanto para o mal. Por isso disse que podia sim levar, mas apenas um dos pacotes para casa. Samuca colocou o dedinho na têmpora para mostrar que aquela era uma decisão muito difícil e optou pelo biscoito recheado de morango. E como sempre conversamos sobre o que é e o que não é legal de se comer eu logo avisei que aquilo estava na lista dos alimentos não `sadáveis´, como ele mesmo diz.

Perguntei para a professora sobre as lancheiras das outras crianças e ela me disse que algumas levam biscoitos recheados sim (É proibido proibir, já dizia Caetano Veloso). Mas me tranquilizou lembrando que o Samuel come muito bem e adora frutas. E que provar outras coisas também é importante, assim como saber o porquê eu não quero que ele coma algumas delas. “Assim construímos a autonomia”, lembrou. Ela deu o exemplo do que viveu com o filho que ouviu funk na casa de um amigo e voltou para casa perguntando que música divertida era aquela que ele nunca tinha escutado na vida. Em vez de proibir ela decidiu sintonizar em uma rádio que só toca funk. Explicou  as letras, principalmente aquelas que desrespeitam a mulher. O menino logo perguntou: “Como tem gente que gosta disso, mamãe?”

O biscoito estava no armário, ao alcance. No primeiro dia decidiu comer uvas. Ontem, finalmente, abriu o pacote. Perguntou de novo para mim porque elas não eram saudáveis. Expliquei. Ele comeu um biscoito e meio e largou o resto no sofá. E escolheu uma manga de sobremesa. Eu fico quieta, esperando que ele faça suas escolhas.

PS: Para quem acha que esse papo de alimentação saudável é bobagem e que temos deixar as crianças “serem crianças”. De acordo com o Ministério da Saúde, uma em cada três crianças brasileiras sofre com obesidade infantil. Essa doença, isso mesmo, do-en-ça já é considerada problema de saúde pública. Obesidade é o caminho mais curto para a diabetes e colesterol alto, só para começo de conversa.

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