O vovô Clóvis admira o neto que acabara de nascer, Ernesto.

O vovô Clóvis admira Ernesto, o neto que acabara de nascer em casa

 

Pelo vovô Clovis Pinto de Castro, 56 anos, Diretor de Escola.

No dia 09 de maio, às 18h42, em uma noite estrelada, coisa rara em São Bernardo do Campo, São Paulo, nascia o Ernesto, com 2.930 kg. Agora temos um casal de netos. Dois dias antes, eu e minha esposa havíamos recebido a notícia de que a bolsa havia estourado. Queríamos acompanhar a nossa filha e o nosso genro ao hospital. Sabemos das dificuldades que os casais, especialmente as mulheres, enfrentam em momentos como esse. Para nossa surpresa, eles disseram para esperarmos. “Como assim? Esperar? Mas a bolsa não rompeu?” Tivemos que lidar com a ansiedade e aguardar novas notícias. Até então não sabia que após a bolsa se romper é possível esperar algumas horas, ou mais de um dia, para o bebê nascer. Sempre via nos filmes, ou na vida real, casais desesperados tentando achar um jeito mais rápido para chegar ao hospital após o rompimento da bolsa.

Sem poder viajar, a ansiedade aumentava a cada minuto. Imaginávamos como estaria a nossa filha. Que riscos correria? No dia seguinte, o meu genro pediu a presença da minha esposa. Ele disse para ela ir com calma. Estava tudo sob controle. Ela terminou de preparar as lembrancinhas e foi ao encontro deles. A cada meia hora, angustiado, ligava para saber notícias. Estava inconformado por não irem ao hospital. Na manhã seguinte, véspera do dia das mães, resolvi acompanhar de perto o que estava ocorrendo. Viajei de Piracicaba, cidade onde moramos e que fica a cerca de 160 km da capital, e cheguei em São Paulo por volta das 11 da manhã. Encontrei a nossa filha, genro e a pequena Tarsila – nossa neta, com 4 anos – supercalmos. A minha esposa me disse baixinho: “Não faça muitas perguntas e nem fique ansioso”. De repente, minha filha falou: “gente, vamos almoçar no shopping? Preciso comprar algumas coisas em uma farmácia”. Não acreditei que nossa filha, com a bolsa rompida, estava querendo ir ao shopping. Quando ela se levantou e pegou a bolsa, percebi que estava falando sério. Fomos a um shopping próximo ao apartamento deles, almoçamos, ela comprou o que precisava na farmácia, demos uma volta para olhar algumas lojas, sentamos para tomar café e, por volta das 16h, retornamos.

Logo em seguida, ela entrou em trabalho de parto. As dores começaram a se intensificar. Ela pediu para chamar a equipe responsável pelo parto. “Equipe? E o hospital?” Sabia que ela queria um parto natural e dentro d’água, assim como aconteceu com a Tarsila, no Hospital São Luiz. Só não imaginava que seria parto domiciliar. Em poucos minutos chegou a doula, profissional que ajuda as parturientes a usufruírem de mais conforto físico e emocional do pré-parto ao pós-parto. Em seguida chegaram as obstetrizes e a pediatra. Uma equipe harmoniosa, onde cada uma passou a cumprir o seu papel com profissionalismo e, o mais importante, com humanidade e proximidade afetiva. De repente, percebo que já estava integrado à equipe. A minha função era ajudar o meu genro a encher com água quente uma piscina inflável que estava em um canto da sala. Como a vazão da torneira da cozinha não dava conta, tivemos que colocar panelas cheias d’água em todas as bocas do fogão. Foi uma correria.

A luz da sala foi diminuída. Aquela penumbra – entrecortada pelas velas acesas em diversos pontos – e o som suave de lindas canções que a minha filha e o meu genro escolheram para aquele momento – transformaram o espaço em um cenário mágico, indescritível, repleto de emoção e vida. Cria-se, nesses momentos, um vínculo que transcende as questões técnicas. Por diversas vezes não consegui conter as lágrimas. Ver a coragem da minha filha tomar posse de seu corpo, sem anestesia, sem cortes no períneo – comuns em hospitais para “evitar” lesões e ajudar no nascimento do bebê – e sem tomar soro ou medicamento para aumentar a força e a frequência das contrações, encheu-me de orgulho. Não foi um parto sem dor. Como afirmou a jornalista Eliane Brum em um texto que li: “Parto dói, mas há uma diferença fundamental, que a maioria das pessoas parece ter esquecido, entre dor e sofrimento. A do parto é uma dor que não vem da doença e da morte, mas da saúde e da vida. É uma passagem. Você está junto com seu filho, ajudando-o no primeiro momento mais importante da vida que se inicia fora do útero materno. E poder berrar, sem que nenhum obstetra ou enfermeiro torça o nariz, é libertador.”

Em momento algum a nossa neta ficou assustada. Ela se sentiu parte da “equipe”. A todo instante, diante dos gritos que ecoavam naquele ambiente, passava as mãos na testa da minha filha e perguntava: “Mamãe, você quer um pouco de água? Quer um biscoito de arroz? Foi a assistente perfeita da doula. Disse a ela: “Tata, o vovô nunca viu um parto de perto”. Ela respondeu: “Vovô, eu também não!”. No dia seguinte, dia das mães, a minha filha disse: “Eu me sinto plena, com meus dois melhores presentes. Por eles e para eles me esforço para ser uma mãe e uma pessoa melhor a cada dia. Não poderia ter pedido por um dia das mães mais perfeito”. Na verdade, foi mais que perfeito!

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