João, 9, amigo do meu filho, está internado em um hospital de São Paulo por causa de uma grave crise de bronquite. Samuca, 8, preocupado, pede para gravar um áudio de Whats app para o menino com o seguinte teor:  começa desejando melhoras, depois diz que espera que ele se recupere até sábado para que possam assistir a uma peça infantil em cartaz “sobre o Dia de los muertos” – “como você morou no México, João, tenho certeza que vai gostar” e emenda um “tomara que essa sua doença acabe logo. Um beijo bem grande. Tchau.”

Para quem tem os ouvidos apurados e foi criado em um mundo onde os meninos não podiam demonstrar sentimentos, ouvir o filho mandar um beijo grande para um amigo dá aquele quentinho no peito, daqueles que trazem resposta aos nossos questionamentos diários sobre se estamos ou não fazendo as coisas direito. Logo me dei conta que uma frase dessas dita perto dos homens (e até das mulheres) da minha família cairia como uma bomba durante as macarronadas na casa da minha avó, lá no Ipiranga dos anos 80. Meu filho não teria a menor chance naqueles almoços de domingo do século passado se beijasse ou se abraçasse seus amigos meninos, chorasse porque estava com medo, com fome, ou chateado. “Meninos não choram! Você é um homem ou um saco de batata?”, perguntariam, aos berros.

Essa reflexão veio à tona ontem, quando todos os jornais noticiaram o “teste de masculinidade” imposto aos homens e as mulheres que querem ser PM no estado do Paraná. Para ser bom policial militar, diz o edital, os candidatos não podem “se impressionar com cenas violentas”, “se emocionar facilmente” ou “tampouco demonstrar interesse em histórias românticas e de amor”. Claro que um PM precisa ter um grau maior de frieza para enfrentar as ruas, não há dúvidas disso, mas definir “masculinidade” a partir dessas características mostra muito bem na arapuca onde estamos metidos. Está introjetado na nossa cultura que para ser “macho” você precisa ser alguém que simplesmente não se comove por nada, nem por ninguém. Além de criar pessoas mais problemáticas e violentas, essa masculinidade tóxica é responsável, inclusive, por afastar os homens dos exames preventivos de câncer de próstata, dos testes de HIV e dos tratamentos para a Aids. O machismo faz vítimas inclusive entre os homens, acredite.

A luta para criar uma criança em um mundo que ainda tem esses conceitos tão latentes é árdua. As meninas têm que ser sensíveis, devem sonhar com o príncipe encantado e ir às aulas de ballet. Não gosta de dançar? Pode ir para a natação ou, no máximo, no judô. “Futebol? Isso é coisa de sapatão!” (Na escola do meu filho há várias meninas nas aulas de futebol de salão- mais um quentinho no coração.) Não para os carrinhos, aviões, legos. Sim para as bonecas, as mamadeiras, os fogões e as tábuas de passar roupa de brinquedo.

E os meninos? Não podem abraçar, beijar, chorar ou demonstrar que são sensíveis. Ballet? Nem pensar, menino tem é que jogar futebol. Também não podem jamais, em tempo algum, brincar com uma boneca. “Não tem medo que seu filho vire gay?”, ouvi uma vez quando meu filho cismou de empurrar um carrinho de boneca de uma amiguinha de playground. E o fogo amigo contra os meninos vem de todos os lados, até de onde se menos espera: foi o próprio avô do meu filho que criticou minha decisão de presenteá-lo com a pia que ele viu em uma loja e amou: equipada com torneira e um conjunto de copinhos e panelinhas, a tal pia foi um dos brinquedos favoritos do Samuca durante anos. Qual o mal que ela poderia fazer ao meu filho? Nenhum. Já vantagem eu vi várias, entre elas a lição de que qualquer um é capaz de lavar o próprio prato, olha só que coisa interessante.

Será que as brincadeiras de criança não poderiam ajudar os meninos a se transformarem em pessoas melhores? Eu aposto que sim. Trocar umas fraldas de uma boneca na infância, aprendendo na fantasia que essa é uma das responsabilidade também dos homens seria de grande utilidade. Já as meninas poderiam ser estimuladas a desencostar a barriga do fogãozinho de plástico para aprenderem, desde pequenas, que podem ser o que quiserem: astronautas, médicas, cientistas. Também podem ser donas de casa se quiserem, assim como os meninos. Samuca, aliás, pensa em ser confeiteiro e eu acredito que os programas de tevê cheios de homens na cozinha tiveram grande impacto nele, assim como a figura do pai, que é sempre responsável pelo almoço e jantar aos sábados e domingos. O avô, que criticou há alguns anos a tal pia de plástico, não tem feito feio e de uns meses para cá decidiu sempre se encarregar da louça quando vem à minha casa. Sentiu aí também o tal quentinho no coração?

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